Por José de Alencar (1872)
- Aqui estaremos perfeitamente, disse Nogueira sentando-se na ponta do banco e indicando a seu lado um lugar ao moço. Gosto de fumar neste canto o meu charuto depois de jantar. O barulho da fonte, misturado com o dos coqueiros, derrama uma ligeira sonolência, quanto basta para não pensar; mas não tanto, que se deixe de sentir e gozar. Notou Ricardo que o devaneio desse espírito, como a sua amabilidade, tinham às vezes umas quinas ásperas: eram como tela de painel, que uma lasca da madeira estofa. Uma circunstância mínima lhe revelou esse traço fisiológico. O termo “barulho” para indicar o burburinho d’água, empregado por homem de tribuna e eloqüente, mostrava um defeito de educação. Como sucede à maior parte dos talentos que figuram em nosso país, não tinha Nogueira o polimento literário, e embora sentisse depois de certo tempo a necessidade de dar à sua palavra certo verniz de estilo, contudo notava-se ainda muita falha, em que através da arrogância do figurão, percebia-se a crosta do filho das ervas. A palavra é para esses mercenários o instrumento do ofício, a trolha de pedreiro.
- Temos demais a vantagem de livrar-nos da algazarra, que por lá vai. Esta gente avalia do espírito, como do champanha, pelo estouro; e então desafiam-se a quem dará as mais descompostas gargalhadas, para chamar a atenção.
- No fim das contas, parece que eles têm razão. É o rumor quem governa o mundo.
- Quer dizer a opinião.
- Não é mesma coisa?
- Há a sua diferença, impôs dogmaticamente o Nogueira, e passou adiante. A tarde está quente!... A estas horas costuma correr alguma brisa, mas hoje está abafado. Neste ponto Petrópolis é preferível à Tijuca. Eu, se não estivesse preso a esta gleba da cidade, é onde passaria o verão.
- V. Ex.ª é advogado? perguntou Ricardo para dizer alguma coisa e encher a pausa que lhe deixara o Nogueira.
- Tenho um escritório com o nome na porta, mas é para constar..., serve de ponto de palestra aos amigos. A advocacia já não é uma profissão.
- Perdão; eu a conto entre as mais nobres.
- Assim devia ser. Mas aí, como em tudo, o fato insurge-se contra o princípio. Não é esta a história do século dezenove, ao contrário do século dezoito, que foi a revolta da idéia contra o abuso e o prejuízo? A advocacia não passa de um pretexto; é um título de apresentação na sociedade. No foro inventou-se outrora um nome decente para certas indústrias, que se não confessam; certos réus ou testemunhas interrogados aos costumes, declaram que vivem de “suas agências”. Pois a palavra “advogado” tem o mesmo préstimo, com a diferença de serem os agentes mais graduados e as agências mais gordas.
- E V. Ex.ª pertence a esta classe? observou Ricardo com ironia.
- Por que não? Charles Nodier dizia no princípio deste século – Je ne connais qu’un métier à décrier, celui de Dieu! O Nogueira, que tinha presunção de falar bem as línguas estrangeiras, pronunciou a citação francesa com uma afetação ridícula e um sotaque que devia ferir o ouvido normando.
- Pois eu creio que em França nenhum ofício caíra em maior descrédito, observou com muito a propósito o paulista.
- Deixemos de parte a religião. É ponto que não discuto, atalhou categoricamente o candidato e prosseguiu. Mas Ricardo interrompeu:
- Não chamo religião essa exploração da consciência a que o escritor francês dava com muita propriedade o nome de ofício.
Custou a Ricardo inserir no discurso do Nogueira esta pequena observação. Foi necessário cortar-lhe a palavra, e arrostar o gesto desdenhoso e magistral do candidato que desviava a réplica, dum revés do rosto.
- Em país algum é tão verdadeiro o dito de Nodier como em o nosso, continuou o Dr. Nogueira com o tom amplo e sobranceiro de que servia-se para abafar as interrupções. Há coisa que mais se tenha ridicularizado do que sejam as altas posições políticas, e sobretudo o cargo de ministro? E não obstante todos caminhamos para lá.
- Nem todos! constestou Ricardo.
- Sou advogado, pois, como serei deputado amanhã e mais tarde ministro e senador. Em toda a parte onde se reúnem i animali parlanti, por força que há de haver o deus e a besta. Ensinam as Santas Escrituras que o Criador formou o homem do lodo, amassando o barro e inspirando-lhe a centelha divina. Pois não é de admirar que em se chocando uns com outros, a lama de certas figuras se desmanche, e então que remédio têm os outros homens, senão patinarem nela, se querem passar adiante?
- Os ambiciosos vulgares, não duvido que tenham pressa de chegar e não escolham caminho, nem companheiros de jornada. Mas há quem se desvie com asco do charco, embora se resigne a não passar adiante.
- O senhor formou-se ultimamente? perguntou o Nogueira com um sorriso protetor.
- Há cinco anos.
- E é advogado também?
O protesto que em tom veemente acabava de fazer contra as doutrinas do Nogueira, não o pudera conter o jovem e brioso paulista. Mas, arrependido, prometeu-se não tomar ao sério as excentricidades do Dr. Nogueira, o qual sem dúvida sofria de um sestro, que ataca muito os homens vaidosos de seu talento, o sestro do paradoxo.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.