Por José de Alencar (1875)
— José Venâncio, para respeitar e servir ao sr. capitão-mór.
— José Venâncio, quem te deu licença de cortar aquela carnaúba?
— Saberá o sr. capitão-mór que eu não corte nas terras de Oiticica, mas lá na várzea do Milhar.
— A ordem que demos, José Venâncio, é de não cortar carnaúba, em qualquer parte dêste sertão.
— Eu não sabia, sr. capitão-mór; pois não seria capaz de desobedecer a vossa senhoria. Era preciso que estivesse doido.
— Acha que êle não sabia, Agrela? perguntou o Campelo a seu ajudante.
— O José Venâncio veio morar para estas bandas há pouco tempo e tem-se portado bem. Entendeu mal a ordem; mas não obrou com malícia.
— Por esta vez, e atendendo à informação do nosso ajudante, ficas perdoado; mas não caias noutra, José Venâncio.
— Juro, sr. capitão-mór!
— A carnaúba é um presente do céu: é ela que na sêca dá sombra ao gado, e conserva a frescura da terra. Quem corta uma carnaúba ofende Deus, Nosso Senhor; e nós não podemos deixar sem castigo tão feio pecado. Vai em paz, José Venâncio.
O matuto curvou de leve o joelho, fazendo submissa reverência ao capitão-mór, que prosseguiu no meio de sua comitiva.
Durante essa curta demora ocorreu um incidente no grupo das senhoras. D. Flor que havia parado perto de uma touceira de carnaúba, descobriu a umbela de uma trepadeira, aberta naquele instante e aproximou-se para colhê-la; mas não pode alcançar o pâmpano que ficava muito alto e entrelaçado com os talos da palmeira.
— Ajuda-me, Alina!
— Você vai ferir-se, Flor! exclamou a companheira.
— Medrosa! tornou a donzela, cedendo de seu intento.
A orvalhada da noite, de que estavam cobertas as fôlhas, a tinha borrifado. Ficara encantadora assim, com os cabelos salpicados de aljôfares. De longe ainda lançou à flor os olhos cobiçosos, e insensivelmente volveu-os na direção de Arnaldo, com insistência.
O sertanejo, que de parte acompanhava os movimentos de Flor, surpreendido por seu olhar, ergueu a cabeça com um gesto de revolta. A donzela voltou-se com uma dignidade fria e desdenhosa para um homem da escolta.
— Apanhe aquela flor, Xavier.
Antes que os outros ouvissem a ordem já Arnaldo arremessara o cavalo à touça de carnaúbas, e colhia a flor que veio apresentar à donzela.
— Obrigada! disse-lhe ela, e deu a flor a Alina.
A posição de Arnaldo na fazenda tinha-se modificado de certo modo desde a tarde do aparecimento da Bonina, quinze dias antes. É isso que explicava sua presença alí, naquele momento, reunido à comitiva.
O capitão-mór no dia seguinte o tinha declarado vaqueiro geral de suas fazendas; e todos o consideravam como tal, e o tratavam nessa conformidade, exceto êle próprio, que fazia suas reservas.
O rasgo do fazendeiro naquela tarde, se a todos admirou, a êle o comovera profundamente.
Depois de sua desobediência, só uma graça especial podia mover o ânimo do capitão-mór em seu favor.
O Campelo não era cruel, como outros muitos potentados do sertão; mas o seu rigor em manter o respeito à sua autoridade, tornara-se proverbial. Nesse ponto mostrava-se inflexível.
Referiam-se como exemplo, casos de indivíduos a quem êle mandara buscar aos confins do Piauí e às matas da Bahia, onde se haviam refugiado, para castigá-los do desacato cometido contra sua pessoa, passando pela frente da Oiticica sem tirar o chapéu, ou pronunciando o seu nome sem a devida reverência do tratamento e título.
Eram faltas estas que êle não perdoava, nem esquecia. Embora decorressem anos, em tendo notícia do culpado, despachava uma escolta para prendê-lo, onde quer que estivesse. Satisfeito, porém, o seu orgulho, aplacava-se de todo a ira; assim a maior parte das vezes o castigo não passava de um ato de submissão e quando muito de uma prova expiatória. Obrigava o atrevido a pedir-lhe perdão de joelhos, ou mandava amarrá-lo ao moirão por um dia inteiro.
Arnaldo, que sabia dêstes fatos e conhecia a severidade do capitão-mór, julgava-se banido da Oiticica para sempre; pois não lhe consentia o seu gênio fazer contrição da culpa e pedir perdão da desobediência. Mas essa índole altiva que nenhuma condideração, nem mesmo o amor de D. Flor conseguia dobrar, não resistiu ao rasgo de generosidade do velho.
O caráter de Arnaldo tinha êste traço especial. Zeloso de sua independência, e de extrema suscetibilidade nesse ponto, a menor aspereza, qualquer gesto imperativo, bastava para revoltar-lhe os brios e torná-lo arrogante, como acontecera na mesma noite do aparecimento da Bonina, quando ofendido pela repreensão de D. Flor, lançara ao fogo o mimo da donzela.
Por outro lado também o coração indomável era de cera para os sentimentos afetuosos. Uma demonstração de amizade, um afago, obteria dele sacrifícios a que nenhum poder humano teria fôrças de o compelir jamais.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.