Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

E o satânico Alcazar, que debalde corrigiu depois em parte as exagerações do desenfreamento cênico, deixou-nos até hoje, e nem sei até quando, sem teatro dramático nacional, ao menos regular.

Talvez que alguns pensem que a lamentável falta de bom teatro dramático seja de pouca importância.

Positivamente assim não é.

No teatro pode-se tomar o pulso à civilização e à capacidade moral do povo de um país.

O teatro é coisa muito séria. É a mais extensa e concorrida escola pública da boa ou da má educação do povo.

E agora reparo que, discorrendo um pouco sobre o Alcazar, meti-me em assunto que é estranho à Rua do Ouvidor.

Hão de dizer que é penúria de matéria.

Enganam-se.

Se eu pudesse escrever tudo quanto sei da Rua do Ouvidor, encheria dois ou três volumes, e ainda me ficaria que dizer.

Vou dar uma prova:

Já declarei que o quarteirão por onde estou agora viajando com os meus leitores não me apresenta casas célebres no passado, nem tradições ou reminiscências curiosas.

Pois bem: acho excelente o lugar e o ensejo para contar uma história um pouco melindrosa, cujo desfecho se passou em uma casa de modista da Rua do Ouvidor.

O que porém não direi é o nome da modista, nem onde era a sua loja, e muito menos incorrerei na indiscrição de indicar o ano em que se deu o caso.

O melhor é que os meus companheiros de viagem façam de conta que lhes conto um romance, procurando diverti-los.

Seja um romance da Rua do Ouvidor criado pela minha imaginação, e por isso mesmo lá vai com tal qual forma de romance.

Júlia era ainda jovem e de muito delicada sensibilidade; havia cinco anos que se casara por amor, mas no fim de cinco semanas depois do casamento, Frederico, seu noivo, tornara ao culto freqüente da sua apaixonada distração do tempo de solteiro.

Frederico era doido pela caça, e por corridas de pacas na Serra da Tijuca, ou de veados ainda mais longe da cidade, às vezes deixava Júlia três, quatro e seis dias entregue às desilusões dos sonhos poéticos do passado, e exposta a novas ilusões de sonhos do presente e do futuro.

Pior ainda: Frederico e Júlia eram ricos, e Júlia não tinha ocupação em que empregasse o tempo.

Que rede de perigos para aquela esposa!...

Juventude, idade de flamas e de imaginação a desnortear a vida real;

Sensibilidade muito excitável, que é porta que se abre fácil às tentações do diabo; Ociosidade, menor ou maior série de zeros susceptíveis de se escreverem à direita da parcela do pecado;

Marido caçador apaixonado ausentando-se freqüentemente por dias da esposa deixada em solidão propícia aos sonhos da imaginação;

E além desse outro perigo, o ponto mais fraco da fortaleza da virtude feminil, que não indiquei em primeiro lugar porque estava subentendido - a vaidade feminil.

E Júlia era vaidosa, mesmo tão vaidosa como um homem, que elevado a barão ou a visconde do seu dinheiro toma balda e fumaças de fidalguia.

(Creio que chamei tola por vaidosa a Júlia do modo o mais cortês que me era possível).

A evitar e vencer esses perigos havia o encanto do amor; os dois esposos amavam-se com efeito ternamente, mas Júlia amava só - seu marido -, e Frederico adorava além de Júlia as pacas e os veados, o que desequilibrava um pouco as proporções do amor de uma e de outro.

Felizmente, além do amor, Júlia possuía o tesouro da virtude.

Pois bem, ou antes, pois mal, em cinco anos de casamento, Júlia tivera apenas cinco semanas de enlevadora e perfeita lua-de-mel e turbara-se e doera-se vendo que depois de um mês e poucos dias de exclusivo domínio de formosa noiva, as pacas e os veados eram rivais, que repetidas vezes lhe usurpavam por dias os zelosos cuidados e os afagos do esposo.

Este romance é cheio de lições morais, e a moralidade do seu principio é o seguinte:

Homem caçador, frenético tal qual o era Frederico, ou deve ser perpétuo celibatário, ou casando-se com senhora jovem, sensível, rica, ociosa, e está subentendido, vaidosa, cumprelhe renegar o culto da caça, e, não podendo fazê-lo, levar a esposa às corridas de pacas e veados, torná-la sua sécia, sua Diana caçadora, para não expô-la a ficar em solitário abandono doce objetivo de outro muito condenável, reprovado, mas indignamente observado gênero de caça.

E foi isto, foi o caso de - doce objetivo - o que veio atormentar Júlia por freqüentemente abandonada pelo marido caçador, sendo ela tão jovem (casara-se aos 18 anos de idade), tão linda e tão vaidosa, tão sensível, tão rica e ociosa.

As ausências de Frederico, que no primeiro e segundo ano de casamento limitavam-se a três ou quatro dias, estenderam-se depois a seis e oito.

Nos três primeiros anos, Júlia escrupulosamente encerrada em sua casa esperava saudosa a volta do seu Nemrod, indicando o seu desgosto em aversão pronunciada na mesa do jantar aos pratos de pacas e de veados, mas no fim de três anos acabou por manifestar-se francamente aborrecida do isolamento a que se via condenada durante os dias de caçada de seu marido.

E Frederico respondeu à Júlia, abraçando-a:

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5051525354...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →