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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

E saiu do quarto e logo depois de casa, mas, voltando passadas algumas horas, entrou de novo na câmara do doente; fez retirar todas as pessoas que aí se achavam e, ficando só com ele, deu-lhe provavelmente algum elixir tão admirável, que as melhoras começaram a parecer como por encantamento, no mesmo instante. Que milagre não será capaz de fazer o amor dos pais?...

Novidades do mesmo gênero perturbavam a paz e os prazeres da ilha de... D. Carolina também padecia. Os nossos amantes acabavam de chegar ao sentimental, e com seu sentimentalismo estavam azedando a vida dos que lhes queriam bem. Os namoradores são semelhantes às crianças: primeiro divertem-nos com suas momices, depois incomodam-nos choramingando.

A bela Moreninha tinha visto romper a aurora do domingo, no rochedo da gruta, e tendo, debalde, esperado o seu estudante até alto dia, voltou para casa arrufada. No almoço não houve prato que não acusasse de mal temperado: faltavalhe o tempero do amor; o chá não se podia tomar, o dia estava frio de enregelar, toda a gente de sua casa a olhava com maus olhos, e seu próprio irmão tinha um deleite imperdoável: era estudante, pertencia a uma classe cujos membros eram, sem exceção, sem exceção nenhuma (bradava ela lindamente enraivecida), falsos, maus, mentirosos e até... feios. A tarde sentiu-se incomodada. Retirou-se, não ceou e não dormiu.

Tudo neste mundo é mais ou menos compensado, e o amor mio podia deixar de fazer parte da regra. Ele, que de um nadazinho tira motivos para o prazer de dias inteiros, que de uma flor já murcha engendra o mais vivo contentamento, que por um só cabelo faz escarcéus tais, que nem mesmo a sorte grande os causaria, que por uma cartinha de cinco linhas põe os lábios de um pobre amante em inflamação aguda com o estalar de tantos beijos, se não produzisse também agastados arrufos, às vezes algumas cólicas, outras amargores de boca, palpitações, ataques de hipocondria, pruído de canelas etc., seria tão completa a felicidade cá embaixo, que a terra chegaria a lembrar-se de ser competidora do céu.

Um exemplo dessa regra está sendo a nossa cara menina. Coitadinha! Vai passando uma semana de ciúmes e amarguras; acordando-se ao primeiro trinar do canário, ela busca o rochedo, e com os olhos embebidos no mar, canta muitas vezes a balada de Ahy, repetindo com fogo a estrofe que tanto lhe condiz, por principiar assim:

"Eu tenho quinze anos

E sou morena e linda".

E quando o sol começa a fazer-se quente, deixa o rochedo, para passar o dia inteiro no fundo do seu gabinete, ou ao lado de sua boa avó, que mal pode consolála, porque, conhecendo já a causa da tristeza da querida neta, teme vê-la fugir vermelha de pejo, se não fingir com finura ignorar o estado de seu coração.

O dia de sexta-feira trouxe ainda algumas novidades à ilha de... A sra. d. Ana recebeu cartas que a tornaram talvez menos triste, mas, sem dúvida, muito pensativa. A presença da linda neta parecia alentar mais essas reflexões, que se prolongaram até à tarde do dia seguinte, em que um velho e particular amigo de sua família veio da corte visitá-la e com a respeitável senhora ficou duas horas conferenciando a sós.

Esse homem despediu-se, enfim, da sra. d. Ana, deixando-a cheia de prazer; e no momento em que saltava dentro do seu batei, vendo a interessante Moreninha que tristemente passeava à borda do mar, saudou-a com esta simples palavra, apontando para o céu:

— Esperança!

D. Carolina levantou a cabeça e viu que já o batel cortava as ondas mas, como para corresponder a tão animador cumprimento, ela por sua vez, apontou também para o céu, e pondo a outra não no lugar do coração disse:

— Esperarei.

CAPÍTULO XXIII

A esmeralda e o camafeu

D. Carolina passou uma noite cheia de pena e de cuidados, porém já menos ciumenta e despeitada; a boa avó livrou-a desses tormentos. Na hora do chá, fazendo com habilidade e destreza cair a conversação sobre o estudante amado, dizendo:

— Aquele interessante moço, Carolina, parece pagar-nos bem a amizade que lhe temos, não entendes assim?...

— Minha avó… eu não sei.

— Dize sempre, pensarás acaso de maneira diversa?...

A menina hesitou um instante e depois respondeu:

— Se ele pagasse bem, teria vindo domingo.

— Eis uma injustiça, Carolina. Desde sábado à noite que Augusto está na cama, prostrado por uma enfermidade cruel.

— Doente?! exclamou a linda Moreninha, extremamente comovida. Doente?...

Em perigo?...

— Graças a Deus, há dois dias ficou livre dele; hoje já pôde chegar à janela, assim me mandou dizer Filipe.

— Oh! Pobre moço!... Se não fosse isso, teria vindo ver-nos!...

E, pois, todos os antigos sentimentos de ciúme e temor da inconstância do amante se trocaram por ansiosas inquietações a respeito de sua moléstia.

No dia seguinte, ao amanhecer, a amorosa menina despertou, e buscando o toucador, há uma semana esquecido, dividiu seus cabelos nas duas costumadas belas tranças, que tanto gostava de fazer ondear pelas espáduas, vestiu o estimado vestido branco e correu para o rochedo.



(continua...)

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