Por Visconde de Taunay (1872)
—Olhe, que enjoado... Pois se ele enfeitiça a gente... Eu mesmo só pensava em você... Quando estará por cá aquele marreco? dizia eu comigo mesmo:... e botava uns olhos compridos por essa estrada afora... quanto mais, mulher! Isto é um não acabar nunca de saudades. Mas, observou ele, estamos a bater língua e não o faço entrar... Agorinha mesmo, Nocência foi para o córrego... Desencilhe o pingo e deixe-o por ai...
Fez Manecão o que disse Pereira. Tirou os arreios, não de súbito, mas com cautela e lentidão para que o animal, encalmado como estava, não ficasse airado, deixou sobre o lombo a manta e, apanhando um sabugo de milho, esfregou devagar a anca e o pescoço.
Depois de dar termo aqueles cuidados, penetrou na casa fazendo soar ruidosamente as esporas, que pelas dimensões desproporcionadas o obrigavam a caminhar firmado nos dedos do pé e com a planta levantada. O mineiro não cabia em si de contente.
—Então, está tudo arranjado? perguntou alegremente.
—Tudo. Os papéis já foram tirados... Tive que ir até Uberaba, e foi o que me atrasou... Quando mecê queira... botamo-nos de partida para a Senhora Sant'Ana... Amanhã cá chegam os cavalos que comprei... Está falado o Lata... o vigário avisado; só... falta o dia...
—Nestes casos, quanto mais depressa melhor... Não acha?
— Certo que sim...
—Então, se quiser, daqui a dois domingos...
—Como queira . . Eu, cá por mim. . . Bem sabe, isto de casórios, o que custa
é... tomar resolução... depois... deve-se pegar na carreira... A rapariga esta pronta?...
—Não sei... há de estar... Vejo-a sempre cosendo... Quero ficar bem certo do dia, porque mando chamar a gente do Roberto... Afinal, é preciso matar a porcada e mandar buscar restilo. Quando se casa uma filha e... filha única, as algibeiras devem ficar veleiras. Já estão todos combinados... é só dar o sinal... Tudo se arma logo... Aqui, em frente da casa, faz-se um grande rancho... A latada para a janta há de ser no oitão direito... Já encomendei de Sant'Ana alguns rojões, e o mestre Trabuco prometeu-me uns que deitam lágrimas .. Depois, tiros de bacamarte e ronqueiras hão de troar . . .
—Eu, interrompeu Manecão, mandei com a sua licença vir da cidade duas dúzias de garrafas de vinho da casa do major...
—Olaré! Você meteu-se em gastos!... Duas dúzias de garrafas de vinho?
—Nhor-sim...
—Pois essas, meu caro, hão de ser reguladinhas da silva... Para o vigário.. para o major... o coletor... o professor... Enfim, gente de alguma representação, porque com ela conto, sem falar na arraia miada. Isto há de haver um despotismo. Quero que, dez dias antes da fonçonata venha a comadre do Ricardo com o seu povaréu para prepararem sequilhos, tarecos, broas, biscoitos de polvilho e brevidades. Haverá regalo de chocolate todas as manhãs... Você verá que desta festa falarão... E o sapateado à noite? Os descantes?... Talvez se possa arranjar um cururu valente...
—Mas, perguntou Manecão, qu’é de sua filha?
Riu-se Pereira.
—Maganão! não pensa noutra coisa, heim? Também fui assim... cada qual tem o seu tempo... Isto é regra de Nosso Senhor Jesus Cristo.
E, saindo para o terreiro, gritou com força, fazendo das mãos buzina:
—Nocência!... Nocência!...
Não teve resposta.
—Coitadinha da pequena, disse ele, há de saltar que nem veadinha, quando voltar do rio.
E acrescentou:
—Já que ela não vem... entremos. Você é de casa: tome por cá e chegue até o meu quarto... Rede e peles macias não faltam.
Ao dizer estas palavras, Pereira bateu amigavelmente no ombro de Manecão e fê-lo seguir para o lanço do fundo da casa.
CAPÍTULO XXVII
CENAS ÍNTIMAS
Santa Maria. advogada nossa, ouvi nossos rogos. Virgem pura, ante Vós se prostra uma infeliz donzela.
(Walter Scott, Os Dois Desposados).
Descrever o abalo que sofreu Inocência ao dar, cara a cara com Manecão fora impossível Debuxaram-se-lhe tão vivos na fisionomia o espanto e o terror, que o reparo, não só da parte do noivo, como do próprio pai habitualmente tão despreocupado, foi repentino.
—Que tem você? perguntou Pereira apressadamente.
—Homem, a modos, observou Manecão com tristeza, que meto medo a senhora dona...
Batiam de comoção os queixos da pobrezinha: nervoso estremecimento balanceava-lhe o corpo todo.
A ela se achegou o mineiro e pegou-lhe no braço.
—Mas você não tem febre?... Que é isto, rapariga de Deus?
Depois, meio risonho e voltando-se para Manecão:
—Já sei o que é... Ficou toda fora de si... vendo o que não contava ver...
Vamos, Nocência, deixe-se de tolices.
—Eu quero, murmurou ela, voltar para o meu quarto.
E encostando-se à parede, com passo vacilante se encaminhou para dentro.
Ficara sombrio o capataz.
De sobrecenho carregado, recostara-se à mesa e fora, com a vista, seguindo aquela a quem já chamava esposa.
Sentou-se defronte dele Pereira com ar de admiração.
—E que tal? exclamou por fim... Ninguém pode contar com mulheres, iche!
Nada retorquiu o outro.
—Sua filha, indagou ele de repente com voz muito arrastada e parando a cada palavra, viu alguém?
Descorou o mineiro e quase a balbuciar:
—Não... isto é, viu... mas todos os dias... ela vê gente... Por que me pergunta isso?
—Por nada...
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.