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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

— Encontramos muita onça, e muita cascavel, mas do Cabeleira nem novas nem mandado. Há quem diga que ele a esta hora já está nos sertões dos Cairiris.

— Qual Cairiris, senhor ! Amanhã hei de dar com esse dunga — disse o Marcolino.

— O compadre Marcolino jura que o viu hoje junto das cachoeiras do rio — acrescentou o Marciano.

— Mas não nos mostrou o cabra durante todo o dia — respondeu Agostinho.

— Está bem, senhores, não falemos mais nisso. Os senhores estão desfazendo agora no meu dizer, talvez amanhã a coisa já seja outra. Eu sou um pérapado, é certo, mas muito verdadeiro.

— Ninguém duvida de sua palavra, Marcolino.

Um negro que estava metendo lenha no forno virou-se então para o matuto, e, de improviso, lhe dirigiu este verso:

Vosmecê, seu Marcolino,

Vai atrás do Cabeleira ?

Se quiser pegar o cabra,

Monte na basta louceira.

Ainda bem não tinha terminado o seu repente, quando um caboclo que, a um canto do alpendre estava lavando em um cocho uma porção de mandioca, se saiu com esta resposta:

Monte na besta fouveira,

Ou no cavalo cardão,

Não há de pegar o cabra

No meio desse mundão.

Reinou então silêncio no alpendre para só se ouvirem os dois repentistas. Estava travado um desses desafios que são tão comuns nos sertões do Norte, e, muitas vezes, pela facilidade das rimas e originalidade dos conceitos, chegaram a oferecer versos que podem figurar entre os mais primorosos monumentos da literatura natal. O negro replicou:

Se você gosta do bicho

Porque rouba, e mata gente,

Veja que alguém não lhe tire

As orelhas pra presente.

O caboclo respondeu:

Mete, negro, a tua lenha

No teu forno, caladinho;

Mas não te metas com o homem;

Podes ficar sem focinho.

O negro:

Eu que sou negro nas cores

Mas não negro nas ações,

Se fosse atrás do malvado,

Cortava-lhe os esporões.

O caboclo:

Para o negro que se mete

Onde não lhe dão entrada

Não tem faca o Cabeleira,

Tem uma peia ensebada.

O negro:

Eu respeito a meus senhores

E senhoras que aqui estão;

Mas porém não levo em conta

Quem não teve criação.

O caboclo:

Caboclo do pé da serra,

Criado à beira do rio,

Eu sempre tratei com gente,

Porque sustento o meu brio.

O desafio, tão bem encaminhado, foi interrompido pela chegada de um cavaleiro. Era o Felisberto que voltava da vila.

A lida na casa de farinha continuou não obstante até alta noite, entre risos e cantigas.

O luar inundava o vasto pátio do sítio, e ia pratear as margens e águas do Capibaribe.

Viração intermitente agitava as folhas das macaibeiras e dendezeiros que se levantavam pela extrema das terras de Felisberto.

Cortava os ares o suave murmúrio das águas casado com o canto monótono dos curiangos, que pulavam pelos caminhos.

Pela madrugada, o Marcolino montou no cavalo castanho, atravessou o rio, e meteu se no vasto deserto, ainda adormecido. Como quase todos os homens rústicos, era caprichoso, e entendia que se não cumprisse a sua palavra solenemente empenhada, ficaria sendo o ludíbrio de todos os que o conheciam. Preferia, a este extremo, morrer de fome e sede no mato, ou comido das onças, coisa em que, para dizermos, pouco cuidava. Todas suas idéias estavam voltadas para um centro único: descobrir o Cabeleira. Era este o seu ponto de honra.

Sabendo que o Cabeleira ordinariamente, quando se ausentava das matas de Santo Antão, aparecia nas de Pau d'Alho, tomou a direção desta povoação.

Pau d'Alho fazia então parte da freguesia de Iguaraçu, da qual foi desmembrada em 1799 para ser elevada a freguesia por proposta do visitador Joaquim Saldanha Marinho, nome que traz hoje com invejável brilho um dos maiores espíritos que conta o Brasil moderno. Passou a vila por alvará de 27 de julho de 1811, e a comarca pela lei provincial de 5 de maio de 1840.

Marcolino subiu pela margem do Capibaribe, e antes do meio dia entrou na povoação que fica em terreno plano à beira deste rio. Nada lhe constou a respeito do Cabeleira.

Demorou-se o tempo estritamente necessário ao descanso do cavalo, e quando o sol quebrou pôs-se novamente a caminho para Goitá, que fica quatro léguas distante de Pau d'Alho, e nesse tempo era um lugarejo de nenhuma importância, pertencente a Santo Antão.

Há loucuras transitórias que por tal modo revolucionam o espírito do homem, que o tornam capaz assim de grandes baixezas, como de virtudes ímpares. Feliz aquele que, sob a influencia de loucuras semelhantes, põe os seus esforços e sacrifícios ao serviço da humanidade ou de uma causa nobre.

Marcolino estava possuído de uma dessas loucuras.

Sem o pensar nem querer, tinha fatalmente arriscado a sua palavra, o seu brio, a sua honra. Estava apaixonado pelo lance, e era inevitavelmente arrastado a seu destino.

Deixando mulher e filhos, em duelo com a necessidade, vinha, como um cruzado, um peregrino, um apóstolo do bem, ou um visionário em busca de um ente que fazia tremer povoações inteiras, que preocupava o governo, que aparecia como fantasma, e desaparecia como uma sombra.

(continua...)

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