Por Bernardo Guimarães (1872)
– Não é preciso que perca a vida; basta tirá-la a outro.
Quirino estremeceu e fez um gesto de horror; espantava-o ver em tão terna idade aquela fria ferocidade e sede de vingança.
– Tem medo, moço?... ah! pensei que era homem...
– Medo eu?... fale, Jupira; o que quer que eu faça?
– Pois não me entende?...
– Talvez não; fale claro, disse o mancebo, ainda duvidando do que estava ouvindo.
Jupira tirou tranqüilamente a faca que tinha no seio, e a apresentou a Quirino.
– Carlito me desfeiteou, me atraiçoou, e eu não tive e nem sei se terei ânimo de o matar... entretanto, quero que ele morra. Sou uma fraca mulher; o pulso do homem é mais firme e certeiro. Não pode morrer por minha mão, vá ao menos a minha faca beber-lhe o sangue.
Quirino olhava espantado para a cabocla sem saber que responderlhe.
– Não tem ânimo?... disse ela resolutamente; então adeus, moço; não me apareça mais aqui...
– Mas, Jupira! – disse o mancebo hesitando – eu... não sei... matar uma pobre criança!... é uma barbaridade... oh! isso nunca!
– Ah!... é assim que me quer bem? que me importa!... se o senhor não tem ânimo, não faltará quem o mate, e ele há de morrer mesmo, e eu nunca hei de ser sua.
– Nunca! ah! Jupira! Jupira! que palavra cruel! moça!... ah!... não me ponha a perder... eu perco o juízo!
– Vai, ou não?...
– Jupira...
– Eu juro que hei de ser sua, sua para sempre, moço.
– Jupira!...
– Hei de amá-lo tanto, com odeio a Carlito.
– Jupira! – ... ai!... eu perco a cabeça...
– Vá, vá; eu juro, que hei de ser sua; vá... e tome este beijo em penhor de que hei de cumprir a minha palavra.
Jupira enlaçou o braço ao colo do mancebo, e imprimiu-lhe na boca seus lábios nacarados e ardentes. Aquele beijo, alucinou-o, exaltou até ao delírio a sua paixão; foi como um filtro sutil e fatal, que coou-lhe até o mais íntimo da alma, e nela vazou todo o ódio, ferocidade e sede de vingança de que a cabocla se achava possuída, acabando com toda a sua indecisão.
– Dá-me, dá-me essa faca!... exclamou Quirino, e, arrebatando a faca da mão de Jupira, saiu precipitadamente.
Capítulo IX
Na noite desse mesmo dia Quirino foi procurar Carlito e o convidou para uma pescaria em canoa no Rio Verde na manhã do dia seguinte, que era um domingo. Carlito, que muito gostava desse gênero de divertimento, no outro dia bem cedo já estava pronto à espera do companheiro, com seus anzóis preparados e algumas provisões de boca para passarem o dia no mato. Saíram ambos; a manhã estava magnífica; os passarinhos faziam ouvir pelos pomares a mais festiva algazarra; o sino da capela repicava alegremente derramando ecos sonoros aquelas aprazíveis devesas.
O Rio Verde colocando através dos vargedos, parecia uma luzente cobra de escamas de esmeralda, espreguiçando-se à luz do sol formoso das solidões. Pelas diversas veredas da colina viam-se diversos grupos de famílias camponesas com seus vestidos domingueiros de garridas cores, encaminhando-se para o seminário para ouvirem as missas e as práticas dos padres santos, que assim chamava a gente do sertão aos padres da congregação.
Carlito sentia o coração pular-lhe no peito cheio de vida, animação e alegria. Tinha acabado de assistir à missa matinal, onde estivera extasiado a contemplar e a trocar olhares expressivos com a meiga e formosa Rosália, e só essa lembrança era como um perfume, que o embevecia nas mais suaves emoções.
Não assim Quirino, que, com o espírito turbado por sombrios e sinistros pensamentos parecia um réprobo, que traz na fronte o selo da condenação eterna, e debalde se esforçava por ocultar a angustiosa agitação de sua alma. Encaminhavam-se rio acima para um bonito lugar, chamado Olaria, onde o rio depois de atravessar em carreira pressurosa os mais risonhos chapadões, refletindo à flor do campo todo o esplendor daquele céu deslumbrante, como para descansar de suas correrias pelas campinas vem espreguiçar-se sereno em um extenso e profundo remanso, à sombra de duas alas de frondentes e viçosos capões.
Chegados à beira do rio os dois pescadores desprenderam uma pequena canoa, que ali estava amarrada com um cipó a um tronco da margem. Quirino tomou na praia uma grande e pesada pedra, e a colocou dentro da canoa.
– Para que essa pedra? – perguntou Carlito.
– Esta canoinha é muito doida, Carlito; esta pedra é para fazê-la calar mais um pouco na água, e não virar com agente.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.