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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Vio uma noite Jorge de Almeida, achou-o elegante, suppôl-o talvez pretencioso, e quiz encadeial-o ao seu carro de conquistadora: irritou-se porque o mancebo ousou ou fingio resistir : soube depois que elle era rico, e teve um pensamento de ambição ; provocou-o e exultou, porque chegou a acreditar que o tinha domado.

A lucta porém se havia prolongado por alguns mezes, em que a simulada indifferença de Jorge de Almeida inflammára a vaidade da formosa moça : e quando Juliana soltou dentro do coração o grito de victoria, o coração respondeulhe com uma confissão de derrota.

Juliana amava pela primeira vez.

O seu amor era puro, não se nodoava nem com um leve pensamento de ambição, nem com o desejo de humilhar seus rivaes ;. Todas essas idéas tinhão passado ; o seu coração estava exhalando o virginal perfume de um sentimento goneroso, nobre, santo.

Se Jorge de Almeida fosse pobre como o obscuro artesão que tem de seu o fructo do seu suor no trabalho de cada dia, Juliana ainda assim o quizera, ou talvez assim o preferira.

A vencedora estava pois vencida ; a conquistadora que procurava ainda um escravo, tinha encontrado um senhor, e dobrava-se contente aos ferros do seu captiveiro.

Mas a lembrança do passado, que era um recente passado de hontem, fazia mal a Juliana.

Quem poderia acreditar na sinceridade do amor da moça loureira ? Duvida-se ainda mais da mulher do que se duvida do homem.

Jorge de Almeida, libertino e incredulo, desejava o posse de Juliana : não a amava porém; descria da paixão de que ella parecia possuida ; attribuia ao encanto da sua riqueza a fortuna daquella nova conquista, e fingindo-se também abrazado nas flammas de um amor irresistível, promettia-se não perder a felicidade brutal que se lhe antolhava provavel.

Uma grande desgraça annunciava-se portanto imminente : gotta a gotta já se estilava o veneno das flores ; era horrivel, era porém uma consequencia filha legitima dos principios : era cruel, mas era logico.

X.

Jorge de Almeida tinha pedido a Juliana uma entrevista no jardim ás duas horas da madrugada.

Dous dias havião passado depois da festa dos annos de Juliana e nas tardes de um e outro Jorge de Almeida não se esquecera de vir fazer a corte á sua amada e noiva.

Cândida recebera e tratara o mancebo como a um filho ; tinha lido as cartas dos pais de Jorge, e não podia mais duvidar do próximo casamento e do brilhante futuro de sua filha.

Juliana saudava a chegada do seu noivo com um sorriso que se abria em seus labios, e que aos lábios chegava partindo do coração.

Ficando ás vezes na sala a sós com a formosa moça, Jorge de Almeida reiterava suas instancias, pedia de joelhos, queixava-se e maldizia-se por não merecer a entrevista, que era o sonho querido do seu amor.

Mas em um e outro dia Jorge de Almeida teve de despedir-se e de retirar-se, sem ver o suspirado ramalhete de violetas descançando sobre o piano.

O angelico sentimento do pejo defendia a virtude da donzella.

Juliana apaixonada e amante violentava-se para resistir aos instantes pedidos, ás lagrimas e ás queixas amargas do homem que ia em breve ser seu marido ; mas o santo pudor dava-lhe forças para a lucta ; e quando no combate reconhecia-se quasi vencida, escapava ao vencedor accendendo-lhe uma esperança.

— Amanhã, dizia ella.

E assim o disse na primeira e na segunda tarde.

E ainda no terceiro dia ella repetio tremendo:

— Amanhã.

XI.

Essa esperança do dia seguinte concedida ao amante era uma sinistra ameaça que á sua virtude fazia a donzella.

Porque não comprehendia Juliana que ainda mais do que o seu pudor, devia a sua razão oppôr uma barreira indestructivel ao pedido reprehensivel e indigno do seu amante?

Amanhã era uma evasiva inspirada pelo pudor.

A resposta única da razão devia ser nunca.

Porque não respondia Juliana com a razão ?... E que a razão desampara a jovem dominada pelo amor que se desmanda elevando-se á paixão, e só o escudo celeste do pejo íica para impedir.... ou retardar a perda da donzella a quem o seductor procura arrastar para um abysmo.

E para quem poderia voltar-se Juliana, pedindo conselho, protecção, auxilio e luz ?...

Para sua mãi ?... não se animaria nunca ; temeria vel-a justamente irritada lançar fora o homem insolente que dirigira proposição tão injuriosa á sua filha.

A Fábio ?... era um rival e ura inimigo de Jorge de Almeida, pois que o reputava indigno até de entrar no sacrario de uma família.

— Então a quem ?...

Quando os nossos olhos não achão rocurso na terra, levantão-se naturalmente para o céo, e procurão o auxilio de Deus.

Falla-se a Deus com a esperança, com a fé, com a oração, e Deus responde, serenando a tempestade que agita o seio do afflicto, e illuminando o seu espirito.

Mas Juliana era incrédula ; não tinha fé, e zombava, pobre infeliz, do recurso da oração.

XII.

(continua...)

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