Por José de Alencar (1872)
Talvez tenha alguém a curiosidade de saber o que era feito do impertérrito Sr. Benício durante todo esse tempo. Em posição e a jeito de proteger os dois moços com o formidável guarda-sol verde-gaio, acompanhou-os passo a passo sempre da banda do poente.
Refocilando no gosto incomparável de obsequiar o próximo, caíra numa espécie de êxtase. Imaginava-se, não em cima do machinho a trotar, mas recostado nas almofadas de um coche, acompanhando um casamento.
Que glória não seria a dele, quando dissesse aos convidados:
- Eu os resguardei com o meu chapéu de sol, no primeiro dia do seu namoro!
XX
Terminara o jantar em casa do Soares.
O crepúsculo da tarde cambiava-se com o frouxo lampejo da lua que assomava por trás das serras.
Erguendo-se da mesa, os convidados espalharam-se pelo jardim, uns para gozarem da frescura e beleza da ave-maria campestre; outros para se recrearem com o passeio e o movimento; alguns maquinalmente, por imitação. Mrs. Trowshy traçando o braço de Guida e recitando-lhe uns versos de Shakespeare atravessou o jardim: Come, gentle night, come, loving, black brow’d night, Give me my Romeo, and when he shall die, Take him, and cut him out in little stars,
And he will make the face of heaven so fine, That the world will be in love with night And pay no worship to the garish sun.
Encontrando Ricardo, a mestra parou para dizer-lhe em francês:
- Veja que injustiça, senhor doutor, Guida não gosta destes versos.
- Ouça! disse Guida, e repetiu os versos.
- Se os lesse, poderia dizer alguma coisa, respondeu Ricardo.
- Pois eu pensava que tinha excelente pronúncia, acudiu a moça com ar zombeteiro. Minha mestra diz que pareço uma inglesa; salvo quando eu repito o nome dela – “missis Trixa”. Aí acha-me horrível.
- Trowshy! emendou gravemente a mestra que pouco entendia de português.
- Mas a culpa não é de sua pronúncia: é do meu ouvido que ainda não se habituou, nem creio que se habitue nunca, a essa língua mais de engolir que de falar!
- Pois eu vou traduzir-lhe os versos ao pé da letra, se me permite; “Vem, gentil noite, vem, amável noite, vem, amável e escura noite; dá-me o meu Romeu e quando ele morrer, tomai-o, cortai-o em estrelinhas, e ele tornará o céu tão belo, que todo o mundo se apaixonará pela noite, e não pagará mais tributo ao garrido sol”. Não são magníficos? Ricardo sorriu:
- São originais, pelo menos.
- Suponha o senhor que um poeta brasileiro fizesse alguma índia falar semelhante linguagem, e pedir à noite que picasse o seu amado em estrelinhas, não de massa, mas de papel dourado. Que risadas não dariam os ingleses e como não encheriam a boca de nonsense? Mas é Shakespeare... o grande mestre...
- The immense, the prodigious Shakespeare!... interrompeu Mrs. Trowshy no plenilúnio de seu entusiasmo.
- Talvez o poeta quisesse exprimir por esse modo a ingenuidade infantil de Julieta, que era quase uma criança.
- E não achou um modo mais delicado? O senhor escreveria semelhantes versos?
- Não sou poeta.
- Ora! Quem não o é hoje em dia? O senhor conceberia Julieta pedindo a Deus para fazer duas estrelas dos olhos de Romeu; ou para mudar os seus cabelos em raios de luz, como os de Berenice; mas para cortá-lo a ele em pedacinhos... Shocking! disse a menina pedindo ao inglês a expressão de seu sarcasmo.
A rir afastou-se Guida com Mrs. Trowshy, pelo caminho da “Cascatinha” que era o ponto do passeio.
O Dr. Nogueira aproximara-se de Ricardo e lhe oferecera um dos seus “regalias” convidando-o a fumar no canto mais afastado. Ali via-se uma fonte de ferro esmaltado representando a náiade do jardim dentro duma concha, e banhar-se nas próprias águas que vertiam-lhe dos olhos como torrentes de lágrimas.
Desde o primeiro dia Ricardo notara o Dr. Nogueira, cujo nome já conhecia pela reputação de talento que o cercava, e desejou aproximar-se dele. Deteve-o porém a expressão de fria arrogância que esticava o perfil e o talhe do candidato. Esse empertigamento moral revelava a afinidade que havia entre a alma do candidato e a vaidade feminina. Era alma que não dispensava os arrebiques e espartilhos ainda mesmo em casa.
Foi pois com prazer que Ricardo aceitou o charuto e a palestra, que lhe oferecera o Dr. Nogueira.
O candidato, como alguns homens de talento, longe de desdenhar os gozos materiais, entendia que é a carne que faz o espírito, o apura e lhe dá o nervo. Assim apreciava ele depois de um excelente jantar a febre sibarítica, perfumada com as fumaças do melhor tabaco de Havana, e embalada pelo burburinho da água trepidando na fonte ou pelo ruge-ruge das folhas das palmeiras.
E na forma do preceito de Horácio – miscuit utile dulci – aproveitou aquelas horas voluptuosas do quilo, para conhecer o adversário com que tinha de bater-se na campanha matrimonial, em que se achava empenhado.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.