Por José de Alencar (1875)
Nesse dia o moço sertanejo tinha juntado às suas armas habituais, que eram a faca de ponta e a larga catana, um par de pistolas que levava à cinta por dentro do gibão, e o bacamarte que herdara do pai. Sua fisionomia revelava atenção múltipla e intensa; enquanto o seu olhar rápido perscrutava os arredores, seu ouvido atento colhia o menor rumor da floresta.
Havia naquela época entre os abastados criadores da província essa bizarria de se vestirem de couro à sertaneja, e associarem-se assim por mero recreio às lidas dos vaqueiros, cujo ofício desta arte enobreciam. Nisso não faziam senão imitar os castelões e fidalgos da Europa que também se trajavam de monteiros, à moda rústica, para ir à caça.
O sertão do norte oferecia então aos ricos fazendeiros uma ocupação idêntica à das correrias de lôbos e outros animais daninhos, em que se empregava a atividade dos nobres no reino. Eram as vaquejadas do gado barbatão, que se reproduzia com espantosa fecundidade, por aqueles ubérrimos campos ainda despovoados.
Durante a sêca as boiadas refugiavam-se nas serras, e escondiam-se pelas lapas e grotas, onde passavam os rigores da estação ardente, que abrasa a rechã. Com a volta do inverno, logo que as vargens cobrem-se dos verdes riços de panasco e mimoso, saía o gado silvestre das bibocas onde buscara abrigo, e derramava-se pelos sertões.
Antes da grande sêca de 1793, foi tal a abundância do gado selvagem em todo o sertão do norte que, segundo o testemunho de Arruda Câmara, entrava nas obrigações do vaqueiro a tarefa de extinguí-lo, para não desencaminhar as boiadas mansas, que andavam sôltas pelos pastos.
O primeiro mês, deixavam-no tranquilo a refazer-se e engordar. Nem era preciso mais, tão forte é a seiva dêsses pastos, saturados do sal que alí deixaram as águas do oceano, quando cobriram toda a vastíssima região. Ao cabo daquele tempo, entravam as correrias dos fazendeiros, e também a dos vagabundos que viviam nômades pelo sertão.
Era a uma dessas montearias ou vaquejadas que naquela madrugada saía o capitão-mór, e a presença de sua família indicava ainda um traço de semelhança entre os nossos costumes sertanejos daquela época e as tradições da nobreza européia. Como as castelãs de além mar, as nossas gentís fazendeiras tomavam parte nesses jogos fidalgos, e animavam com sua graça o ardor e os brios dos campeões.
Quem observasse naquele instante as damas que faziam esquipar seus ginetes à frente da comitiva, notaria sem dúvida o contraste da afoiteza e galhardia que mostravam em seu gesto, com o recato e meiguice do trato familiar e íntimo. Nas destemidas cavaleiras que afrontavam sorrindo os tropeços do caminho, e saltavam por cima de um tronco derribado ou de barrancos e atoleiros, não reconhecera de-certo D. Genoveva, a modesta e laboriosa caseira, e as duas meninas tão mimosas.
São assim as filhas do sertão: eu ainda as conhecí de tempos bem próximos àqueles; suas tradições recentes ainda embalaram o meu berço. Espôsas carinhosas e submissas, filhas meigas e tímidas, no interior da casa e no seio da família, quando era preciso davam exemplo de uma bravura e arrôjo que subiam ao heroísmo.
A idéia da montaria tinha partido do dono do Bargado, o capitão Marcos fragoso, que por uma carta mui cortês mandara convidar o seu poderoso vizinho e a família.
O primeiro impulso do capitão-mór foi recusar o convite. Com a idéia que êle fazia de sua importância e da posição que tinha naquele sertão sujeito à sua vontade onipotente, aceitando favores de outrem.
A generosidade era um direito seu; êle a dispensava quando lhe aprouvesse, mas não a recebia. Como os antigos reis, êsse potentado não reconhecia igual dentro de seus domínios; todos os moradores, pobres ou ricos, de Quixeramobim, êle os considerava como seus vassalos.
Com muito jeito conseguiu D. Genoveva persuadir o marido da conveniência de fazer uma exceção daquela vez, a fim de que ela e sua filha melhor conhecessem o Marcos Fragoso, antes de ajustar-se o casamento. Campelo consentiu afinal; mas recomendou à mulher que observasse bem os aprestos do convívio, a fim de excedê-los em um festim para o qual se propunha a convidar o vizinho e seus hóspedes.
Do outro lado da várzea, ao entrar no tabuleiro, havia à borda do caminho um casebre de embôço coberto de palha. Ao avistar essa habitação isolada, o capitão-mór que investigava com olhar de dono os lugares por onde ia passando, observou-se atento.
— Agrela! disse estacando o ruço e apontando para o teto da casa.
O ajudante seguindo a direção indicada aproximou-se da cabana e examinou o tôpo da carnaúba que servia de cumieira:
— Cortada de fresco? perguntou Campelo.
— Não há uma semana; respondeu o ajudante.
— Traga já o atrevido à nossa presença, Agrela.
O ajudante imediatamente deu ordem à gente da escolta, e foi descobrir o dono do casebre numa rocinha de mandioca, a poucas braças de distância. O homem vinha assustado.
— Como te chamas? perguntou o fazendeiro.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.