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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

Já se havia difundido o crepúsculo, e bandos folgazões de quero-queros saudavam os últimos raios do Sol e despertavam os ecos em descomunal gritaria. De vez em quando, passava algum pato selvagem, batendo pesadamente as asas; sobre as águas, adejavam garças estirando e encolhendo o níveo colo e pombas, aos centos, cruzavam de margem a margem a buscar inquietas o pouso de querência.

Foi a luz gradativamente morrendo no céu, seguida de perto pelas sombras; e o rio tomou aspecto uniforme como se fora imensa lâmina de prata não brunida.

—Enfim, -conheci o Manecão? pensava Cirino. E para esse é que reservam a minha gentil Inocência . . . Bonito homem para qualquer... para mim, para ela, horrendo monstro!... E como é forte ! . . .

Digamo-lo, sem por isso amesquinhar o nosso herói, a Idéia de força no rival acabrunhava-o.—Se eu pudesse... esmagava-o!... E que ar sombrio e desconfiado!... Meu Deus, dai-me coragem... dai-me esperanças... Nossa Senhora da Abadia!... Nosso Senhor da Cana-Verde... vaiei-me!...

E o mancebo, diante daquela natureza acabrunhadora a quem tanto Importava a paixão que lhe atanazava-o peito, como o inseto a chilrar debaixo da folha de humilde erva, caiu de joelhos, orando com fervor ou, melhor, desfiando automaticamente as preces que sua mãe lhe havia, em pequeno, ensinado.

E o rio lá se ia sereno; e uma onça ao longe urrava, ou algum pássaro da noite soltava gritos de susto, esvoaçando às tontas.

Transpondo na manhã seguinte, o Rio Paranaíba, pisou Cirino território de Minas literais.

Depois de légua e meia em mata semelhante à da margem direita, abrem-se campos dobrados, um tanto arestados do sol, de aspecto pouco variado, mas abundantíssimos em perdizes e codornas. Tão preocupado levava o moço o espírito que, nem sequer uma só vez, imitou o pio daquelas aves; distração, a que aliás não se furta quem por lá viaja, tão Instantes os motivos de instigação.

Foi com impaciência mais e mais crescente que percorreu as dezesseis léguas intermédias à fazenda do Pauda.

Ia com o coração cheio de apreensões e os olhos se lhe arrasavam de lágrimas, de cada vez que contemplava o melancólico buriti. Então pelo pensamento voava à casa de Inocência. Também, ali junto ao córrego em cuja borda se dera a última entrevista, se erguia uma daquelas palmeiras, rainha dos sertões.

Que estaria fazendo a querida dos seus sonhos?

Que lhe aconteceria? E Manecão?! Já teria lá chegado?

Ao pensar nisto, aumentava-se-lhe a agitação e com vigor esporeava a cavalgadura.

Transformava-se para ele o caminho em dolorosa via, que numa vertiginosa carreira quisera vencer mas que era preciso ir tragando pouso a pouso, ponto a ponto.

A majestosa impassibilidade da natureza exasperava-o.

Quando o homem sofre deveras, deseja nos raptos do alucinado orgulho, ver tudo derrocado pela fúria dos temporais, em harmonia com a tempestade que lhe vai no intimo.

—Meu Deus! murmurava Cirino, tudo quanto me rodeia está tão alegre e é tão belo! Com tanta leveza voam os pássaros: as flores são tão mimosas; os ribeirões tão claros... tudo convida ao descanso... só eu a padecer! Antes a morte... Quem me dera arrancar do coração este peso! esta certeza de uma desgraça imensa! Que é afinal o amor?... Daqui a anos talvez nem me lembre mais da pobre Inocência... Estarei me atormentando à toa... Oh não! Essa menina é a minha vida! é o meu sangue... o meu farol para os céus... Quem ma rouba mata-me de uma vez. Venha a morte... fique ela para chorar por mim... um dia contará como um homem soube amar! . . .

Levantara Cirino a voz. De repente, deu um grande grito, como que o sufocava:

—Inocência!... Inocência!

E as sonoridades da solidão, dóceis a qualquer ruído, repetiram aquele adorado nome, como repetiam o uivo selvático da suçuarana, a nota plangente do sabiá ou a martelada metálica da araponga.

Como tudo, afinal, tem termo, alcançou Cirino, no quarto dia, a casa de Antônio Cesário. Acolheu-o este com toda a amabilidade e franqueza.

CAPÍTULO XXVI

RECEPÇÁO CORDIAL

Assinalemos este dia entre os mais felizes não se poupem ânforas; e, como Sábios, descanso não demos aos nossos pés.

(Horácio Ode XXVI). Em breve chegara Manecão? à casa do futuro sogro.

Não é grande a distancia de Sant'Ana até lá, e entretanto o animal brioso e descansado que montava o tropeiro viera sempre estimulado do férreo acicate.

Batia de impaciência o coração do capataz, e a lembrança da formosa noiva que o esperava, enchia-o de desconhecido alvoroço. Também, por vezes, fugia-lhe do rosto o toque habitual de severidade e tênue sorriso afastando a custo os densos bigodes lhe pairava nos lábios,

Acolheu-o Pereira com verdadeira explosão de alegria.

—Viva! viva! exclamou de longe acenando com os braços, seja bem-vindo neste rancho... Ora, até que afinal!... Faltam rojões para festejar a sua chegada... Que demora!... Pensei que não topava mais com o caminho da casa... Nocência vai pular de contente. . .

Enquanto o mineiro enfiava estas palavras quase em gritos, apeou-se o sertanista que, de chapéu na mão, veio pedir-lhe a bênção.

—Deus o faça um santo, disse Pereira abençoando-o com fervor. Você não queria chegar...

—Como vai a dona? perguntou Manecão.

—Agora, muito bem. Teve sezões, mas já está de todo boa...

—E lembrou-se de mim?

(continua...)

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