Por Franklin Távora (1876)
Na margem oposta levantava-se, entre umas laranjeiras e uns oitizeiros, uma casa de bom parecer. Era a casa de Felisberto.
Eles atravessaram a vau o rio, e foram ter à graciosa habitação, que no meio daquele deserto atestava a existência de uma civilização rudimentar no lugar onde havia caído, sem tentativa de proveito para a sociedade que o sucedera, o gentilismo guarani digno de melhor sorte.
Do alto onde fora construída a habitação via-se o rio que corria na distancia de umas dezenas de braças, e desaparecia por entre umas lajes brancas no rumo de leste; do lado do ocidente mostravam-se as lavouras de Felisberto desde as proximidades da casa até onde a vista alcançava.
Felisberto aplicava-se quase exclusivamente à cultura da roça. No perímetro de vinte léguas em derredor era o lavrador que desmanchava mais mandioca no fabrico da farinha, que era de tão boa qualidade que competia no mercado do Recife com a farinha de Moribeca, já então afamada. Havia anos em que ele mandava para o Recife cerca de duzentos alqueires.
Um negro, uma negra, duas negrotas e três molecotes filhos dos dois primeiros faziam prodígios de valor na cultura das terras. Amanheciam no cabo da enxada e só se recolhiam quando faltava uma braça para o sol se esconder no horizonte. Estes escravos viviam porém felizes tanto quanto é possível viver feliz na escravidão. Não lhes faltava que comer e que vestir. Dormiam bem, e nos domingos trabalhavam nos seus roçados. Em algum dia grande faziam seu batuque, ao qual concorriam os negros das vizinhanças.
Quando o Felisberto se casou com a filha de Lourenço Ribeiro, mestre de açúcar do engenho Curcuranas, teve a feliz idéia de ir estabelecer-se naquele sítio que comprara com algumas economias que lhe legara um tio que vivera de arrematar dízimos de gado. Essas economias deram-lhe também para comprar duas moradinhas de casas e o negro André. Com a negra Maria, que a mulher lhe trouxera em dote, casou Felisberto o seu negro, na esperança de que em poucos anos a família escrava estaria aumentada, e por conseguinte aumentada também a fortuna do casal. Essa esperança foi brilhantemente confirmada.
Felisberto não estava em casa à chegada dos dois matutos. Havia ido à vila a negócio e ninguém sabia quando ele estaria de volta.
Eles tiraram para a casa de farinha, que ficava a um lado da casa de morada, e apresentava nesse momento um aspecto que não era o usual.
Estava-se fazendo farinha para ser a toda pressa mandada ao Recife, onde a grande falta que havia deste gênero assegurava pingue lucro ao vendedor.
Frutos do trabalho honesto e esforçado, o qual é sempre favorecido pela
Providencia, não tinham sido de todo destruídos pela grande seca os roçados do Felisberto. Ele já enumerava muitos prejuízos, mas olhando em torno de si via ainda muito com que contar na tremenda crise que reduzira o geral da população da província a extrema penúria.
Era quase noite, e ainda chegavam animais com caçuás cheios de mandiocas que eram despejados nas tulhas já formadas destas raízes.
Mulheres sentadas pelo chão ou em cepos, ao pé dessas tulhas, tiravam as mandiocas uma a uma, e as iam raspando a quicé, e, atirando depois dentro de cestos que eram conduzidos para junto das rodas a fim de serem elas passadas pelos ralos que circulam estas.
A casa de farinha não era mais do que um vasto alpendre aberto por todos os lados e coberto de palhas de pindoba.
No centro via-se o forno onde tinha de ser cozida a massa já apertada pela prensa e livre da manipueira. Parte dela porém, tanto que saía do pé das rodas, era lavada em gamelas e alguidares onde deixava o resíduo ou goma para os beijus e tapiocas.
A prensa estava armada a um dos lados do alpendre; no outro viam-se as duas rodas que não cessavam de girar. Quando cansavam os matutos ou escravos que as moviam eram logo substituídos por gente fresca.
Os dois matutos ali bem conhecidos, foram saudados pelas pessoas que estavam trabalhando, e, como é costume em tais ocasiões ainda hoje, trataram eles de concorrer gratuitamente com o auxílio dos seus braços descansados, o que a muitos não deixou de ser agradável.
— Venha para cá, seu Marcolino. Pegue no veio da roda, e desmanche-me esta mandioca que está custosa de acabar — disse um.
— E eu ponho de boa vontade em sua mão, Marciano, este rodo. Não precisa mexer muito a massa: o forno não está muito quente e não há risco de queimar-se a farinha — disse outro.
— Prepara os beijus Mariquinhas — disse o Marciano a uma rapariguinha morena e cacheada que, com as mangas arregaçadas, lavava em um alguidar uma porção de massa.
Mariquinhas sorriu e continuou no seu trabalho que lhe absorvia toda a atenção.
Pouco depois chegaram dois cunhados de Felisberto, que tinham feito parte do regimento volante da freguesia.
— Então que fizeram ? — perguntaram muitos a uma voz logo que os viram entrar.
— Nada. Vocês pensam que pegar o Cabeleira é o mesmo que raspar mandioca, ou comer farinha mole ?
— Não o viram nem com os olhos, seu Quinquim ?
— Qual, senhor ! Cabeleira de minha vida !
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.