Por Bernardo Guimarães (1872)
- Já vejo que o céu os destinava um ao outro, e de maneira nenhuma me posso opor ao vosso casamento, visto que as coisas tocadas pela mão de Deus se encaminham de modo tão visível para esse fim. Não me é preciso perguntar a Lúcia se consente nesse casamento. Há muito sei de vossa mútua afeição, e que era a causa da repugnância de Lúcia em aceitar outros enlaces. O céu me é testemunha de que eu dentro d’alma, não desaprovava esse amor, e que sempre fiz justiça às suas qualidades e bons sentimentos, senhor Elias. Mas este mundo, esta sociedade tem tais exigências. . . eu também, eu que em minha vida singela e uniforme nunca sondei o oceano das paixões humanas, não podia conhecer todo o alcance de tal amor, e pensava, insensato que eu era! que contrariando os afetos de minha filha, procurava-lhe a verdadeira felicidade. Mas espero, meus filhos, que me perdoarão e não me quererão mal por isso.
- Esqueçamos o passado, senhor Major, esse passado, que para nós ambos tem sido bem triste e bem cheio de transes de amargura. Tinha um motivo justo de proceder assim, eu o reconheço; e tanto o reconheço que ainda hoje, ao levantar-me do leito onde passara a noite em lágrimas, torturado de angústias e o desalento n’alma, vendo-me pobre, sem futuro e sem esperança depois de mil vãs tentativas e desesperados esforços para adquirir algumas coisas, parti para aqui com a firme resolução de renunciar para sempre ao meu amor e a todas as minhas esperanças de felicidade, desligar-me de todos os juramentos e protestos que nos dias de esperança fizera à sua filha e com o meu exemplo e minhas palavras aconselha-la, alenta-la, para que se resolvesse a aceitar o esposo que podia ampara-la neste mundo, e esquecesse o desgraçado que não podia servir senão de estorvo à sua felicidade e à de sua família.
- Que belo e generoso procedimento! exclamou o Major, já sinto-me orgulhoso em o ter por genro.
Lúcia, sem dizer palavra, olhava fixamente para Elias com os olhos nadando em ternura e em arroubos de felicidade.
-mas o céu se condoeu de nós, continuou, e no curto caminho do Comércio de baixo para aqui, a fortuna por um modo extraordinário sorriu-me junto ao leito de morte de um pobre velho, e encontrei num momento e sem procurar aquilo que há tanto tempo procurava em vão com esforços inauditos. Esqueça-se do passado, senhor Major, e abençoe o nosso amor; eu também de tudo me esquecerei, e pode ficar certo que encontrará em mim um filho submisso e afetuoso, e suas filhas, uma um marido terno e extremoso, e outra um irmão dedicado.
O Major, comovido, no íntimo do coração pelo generoso procedimento e pelas nobres palavras do mancebo, lançou-se em seus braços.
-sejam felizes, exclamou com lágrimas nos olhos, sejam felizes, meus filhos! . . . o céu abençoe o vosso amor.
Logo desde o dia seguinte Elias tratou de empregar toda a diligência para descobrir a mina indicada por seu velho camarada no leito de morte. No fim de alguns dias de pesquisas, com bastante trabalho e paciência, descobriu- a enfim no fundo de um grotão escuro e coberto de espessa mata. Não havia trilho algum que lá conduzisse. O velho e astuto caboclo mui de propósito tinha tido o cuidado de não deixar vestígio algum por onde pudesse ser descoberto o tesouro que não queria que pertencesse a mais ninguém senão a seu jovem patrão. Elias imediatamente deu serviço e o resultado não desmentiu as palavras do velho caboclo. Em poucos dias ele tinha quadruplicado o legado que na hora da morte recebera das mãos do fiel e dedicado Simão. Mas, coisa singular! logo depois a lavra se esgotou, e por mais serviços que dessem, ninguém conseguiu descobrir o mínimo diamante. Dir-se- ia que a providência tinha ali depositado aquele pequeno tesouro unicamente para servir de recompensa à virtude daqueles dois fiéis e dedicados amantes.
Quinze dias depois do acontecimento que teve lugar na pequena choupana do Major, na pequena e única capelinha que então havia na Bagagem, celebrava-se um casamento sem pompa alguma e com a maior simplicidade; mas o júbilo e contentamento que se irradiava na fisionomia dos noivos e de todos que presenciavam aquela solenidade, davam-lhe um ar festivo e anunciavam que era um casamento feliz. Era com efeito um simpático e formoso par, digno de todas as venturas da terra e de todas as bençãos do céu.
Ao saírem da igreja, os noivos, separando-se da comitiva que os acompanhava, desviaram-se para um lado da igrejinha, e encaminharam-se para uma cova que ali se havia recentemente aberta, junto à qual havia também uma cruz nova de madeira.
Ajoelharam-se junto dela, e nessa postura estiveram rezando por algum tempo. Ao levantarem-se, a moça despregou o mais lindo ramo de sua grinalda de noiva e o depositou em um dos braços da cruz; no outro o marido colocou um ramalhete de perpétuas e saudades. E o povo que, cheio de interesse e admiração, contemplava aquela nobre e tocante cena, bendizia- os de todo o coração.
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.