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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— De uma lembrança que tive: passeei ainda ha pouco com um cavalheiro que me deu uma lição sobre o veneno das flores, e que me aconselhou a que tivesse medo dos seus perfumes que podem matar.

— Sacrilego! maldizer das flores ao pé de ti é um sacrilegio, e além do sacrilegio, elle mentio.

— Mentio?...

— Mentio ; as flores são os thuribulos do céo; junto das flores ninguém poderá ser máo, Juliana! uma idéa poética e dulcissima, embora ousada.

— Dize...

— Uma prova de confiança e de amor...

— Qual?...

— Dá-me uma hora, em que só comigo, sem receio de indifferentes nem de importunos, passes ouvindo innocentes juramentos de amor no meio daquellas flores...

— Jorge !

— Sou teu noivo... não o podes mais duvidar : eis aqui as cartas de meus pais que deixo nas tuas mãos, autorisando-te a apresental-as á tua mãi.

Juliana recebeu as cartas tremendo.

__ Dá-me uma hora ! repetio Jorge.

— Oh ! não !...

— Dá-me uma hora. ou ficarei com a certeza de que não confias em mim.

— E o dever, Jorge ?...

— E o amor, Juliana ?...

— Não ;julgar-me-hias indigna.

— Eu sou teu noivo, Juliana !

— Embora, ainda não és meu esposo.

— Duvidas ao mesmo tempo da tua e da minha virtude. Tens razão... eu desejei mais do que podia merecer... deixemos este terraço...

— Jorge ?tu te affliges ?... pois nesta noite queres entristecer-me ?...

— És tu que me entristeces, que me offendes, Juliana ; és tu que julgas o teu noivo indigno de um innocente favor, e capaz de uma infamia; és tu que me abates e me injurias !...

— Jorge !... murmurou ternamente Juliana, apertando a mão do amante.

— Dá-me uma hora !

A moça não respondeu.

— De hoje em diante não deixarei de visitar-te

um só dia ; virei todas as tardes, e amanhã ou depois, quando as circumstancias mais nos favorecerem, collocarás sobre o teu piano esse ramalhete de violetas, que então estarão murchas, e que ainda assim me parecerão lindissimas ; porque me darão o signal de que me esperas no jardim ás duas horas da noite.

E Juliano nem respondeu, nem se lembrou do veneno das flores.

VIII.

A vaidade tinha tornado Juliana ao mesmo tempo loureira e ambiciosa de riquezas.

Era loureira, pelo desejo de ser incensada e adorada, pela vangloria de se ver cercada por uma numerosa corte de submissos namorados, como uma rainha por uma multidão de lisonjeiros cortezãos ; pelo maligno prazer, emfim, de encher de inveja os corações de cem rivaes, jovens vaidosas como ella, e aquém se ufanava de humilhar com o quadro de seus triumphos e de suas conquistas.

E ambicionava riquezas, porque são as riquezas que pagão o luxo, a ostentação e as festas em que ella almejava brilhar, e ser idolatrada ainda depois de casada.

E a louca de vaidade não comprehendia que fessa ambição de riqueza tendia a rebaixal-a, porque a levava a vender o coração, e as mais puras e suaves affeições, aviltando-se desse modo aos olhos de sua própria consciencia.

E a loureira nem via que thesouros que facilmente se prodigalisão, são desestimados depressa ; que sorrisos de amor e galanteios que se concedem a muitos, perdem o encanto da sua pureza, e ficão sendo antes os brincos das fantasias do que os enlevos dos corações daquelles que de passagem os vão recebendo.

A moçaloureira, por mais formosa que seja desmerece progressivamente e na razão directa das conquistas de que se vai desvanecendo : suas victorias são, como as de Pyrrho, derrotas reaes para a vencedora ; que importa que ella desdenhe em um dia do amante que animara na vespera?... é elle,sim,que rejeita o culto dos escravos e vencidos que já servirão bastante para o esplendor dos seus triumphos ; cada vencido, porém, e cada escravo que se retira desprezado, leva comsrgo um despojo de amor, embora fingido, uma historia de galanteio finalmente, que depõe contra a virgindade do coração da conquistadora.

Bem cedo nenhum mais a ama deveras, e todos a galanteão por insultuoso entretenimento de horas; e fazem dajoven loureira o recreio dos olhos, a zombaria do amor, a rosa interessante que mil borboletas festejão um momento , e abandonão sem saudade logo depois.

E succede ás vezes que a moça loureira, no meio dos seus vôos de inconstância e do galanteio, sem o pensar e sem o querer, deixa-se captivar de um homem mais habil e astuto, e de ordinario de um homem desapiedado, que, illudindo-a com traiçoeiras finezas, prepara-lhe não um altar em que a adore, mas uma pyra vergonhosa em que a sacrifique.

E a vaidosa perde-se em um casamento infeliz, ou ainda peior, em um desengano aviltante, e depois vêm as lagrimas, o arrependimento, os remorsos ; lagrimas, arrependimento e remorsos, provindos daquelles gozos loucos de funesta vaidade... veneno das flores emfim.

IX.

Juliana aspirava com voluptuosidade e confiança o perfume daquellas flores, e ainda não sentia os effeitos do seu veneno.

Mas o caminho em que ia, era o caminho do abysmo e da perdição.

Como tantas outras, deixára-se prender pelas azas no seu adejar continuo e irreflectido de borboleta galanteadora.

(continua...)

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