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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

Quando a noite estava bonita, íamos os três até a Caixa-d'água, ou até os Dois Irmãos, gozar da frescura das árvores e da água corrente. Lúcia reclinava-se ao meu braço, e eu dava a outra mão livre a Ana. Assim caminhávamos, quase sempre mudos e silenciosos, contemplando a beleza das cenas que se desenrolavam aos nossos olhos, ou absorvidos em nossos pensamentos íntimos. Quando Ana soltava a minha mão para correr diante de nós com a inquieta travessura de sua idade, Lúcia erguia-se na ponta dos pés, e suspirava-me ao ouvido alguma palavra terna, alguma doce confidência de sua alma. 

 

— Sou feliz! dizia-me uma noite, muito feliz! Deus se compadeceu de mim dando-me essa força de vontade que me faz separar de minha vida o tempo que não vivi. Ele me aparece como um sonho, como uma nuvem sombria que se vai sumindo. 

 

Outras noites nos sentávamos sobre as pedras do caminho, e eu, respondendo às perguntas de Ana, falava-lhe da natureza, das flores, das árvores, das estrelas, com o entusiasmo e a poesia que as belas criações de Deus despertam em nossa alma. 

 

— Fala ainda! balbuciava Lúcia ao meu ouvido, quando me calava. Fala! É tão bom ouvir-te. 

 

Era unicamente aos domingos que eu tinha um momento de estar só com Lúcia. Então ela tomava-me a cabeça que escondia no seio com um anelo de ternura; fechava-me os olhos, e eu sentia os seus lábios roçarem o meu rosto, tão de leve como as tranças de seus cabelos; por fim olhava-me, ora sorrindo, ora séria e absorvida nos seus pensamentos. 

 

— Isto não pode durar muito! É impossível! murmurava como se respondesse a uma reflexão íntima. 

 

— Por que razão, Maria? 

 

— Por quê? Porque não se goza da bem-aventurança na terra. 

 

À exceção desses raros instantes, sua irmã não nos deixava, e em presença dela Lúcia não me permitia uma carícia, por mais inocente que fosse. O dia se passava ouvindo Ana tocar, vendo-a brincar, e brincando com ela. Éramos três crianças; e delas talvez a mais moça fosse a que mais juízo tivesse naqueles alegres folguedos. 

 

Uma tarde, havia poucos instantes que eu tinha chegado, quando Lúcia tomou-me pela mão, e levou-me ao seu toucador. 

 

— Não entendo de negócios, me disse abrindo uma gaveta; e não sei pedir senão a ti. Toma; é a escritura de compra desta casa, que pertence a Ana: há de ser preciso pagar décima. Tira do dinheiro destes vales; do resto comprarás apólices em nome dela. 

 

Examinei os papéis que Lúcia me dera; representavam um valor de mais de cinqüenta contos de réis; dez no prédio, o resto em dinheiro. 

 

— E tu com que ficas? Longe de mim censurar a tua generosidade, minha boa Maria; mas não é justo que te sujeites, a passar privações. 

 

— Eu também tenho a minha fortuna! disse-me sorrindo.  Mostrou-me uma carteira, que eu lhe tinha dado. 

 

— Queres ver? Olha! Foste tu que ma deste, Paulo! Guardei-a para o tempo em que fosse digna dela. Quando eu te agradecia então, nem suspeitavas que te agradecia pelo futuro, por este tempo em que não me peja, ao contrário tenho orgulho, de viver por ti e para ti. 

 

A carteira continha pequenos maços de notas, com o algarismo e uma data escrita no rótulo. 

 

— Não sei o que quer dizer isto! 

 

— Não te lembras, quando ias à gavetinha do meu toucador? Aí está o que me davas, dia por dia. Compreendes agora? 

 

— Mas isto é uma bagatela; não é uma fortuna! 

 

— Chega-me; demais, eu trabalho, e quando alguma vez precisar, não terei vergonha de pedir-te. Verás. 

 

— O que me parece de eqüidade é dividires esta soma com tua irmã, e guardares o resto. Ela pode casar, seguir seu marido... Quem sabe o que sucederá? 

 

— Tudo quanto quiseres, Paulo, menos isso. Não tenho outra vontade que não seja a tua, mas estou certa que me hás de compreender e consentir. O que me custou tantas angústias, e tantas humilhações, não me pode pertencer, não. Só uma coisa justifica essa fortuna, é o motivo santo por que me vendi para adquiri-la. Ana pode gozar dela sem remorso e sem vexame, porque não saberá donde lhe vem; a mim amargaria o pão amassado com tanto fel! Não achas que eu tenho razão? 

 

— Maria, meu anjo, não fales nisso mais nunca! Faze o que quiseres; eu aprovo tudo. 

 

— Deixa-me acabar. Agora só vivo, e só quero viver do que me deste; porque a minha coragem, o meu trabalho, tudo é inspiração tua. O dinheiro pois que ganhar com minhas mãos, ainda me vem de ti! Não possuo hoje um objeto, a coisa mais insignificante, que tenha outra origem. É talvez uma superstição; mas quero conservá-la. 

 

Ao despedir-me nessa noite Lúcia, como para dar-me uma prova da sua sinceridade, disse-me: 

 

— Paulo, traze-me amanhã quando vieres uma caixinha sortida de linhas e agulhas. 

 

Era uma ninharia; mas era a primeira coisa de valor pecuniário que ela me pedia. 

 

(continua...)

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