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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

A mão da bela Moreninha tremia convulsamente no braço de Augusto e este apertava às vezes contra seu peito, como involuntariamente, essa delicada mão; alguns suspiros vinham também pertubá-los mais e havia dez minutos eles se não tinham dito uma palavra.

Em uma das ruas do jardim duas rolinhas mariscavam; mas ao sentirem passos, voaram e pousando não longe, em um arbusto, começaram a beijar-se com ternura; e esta cena se passava aos olhos de Augusto e Carolina!...

Igual pensamento, talvez, brilhou cm ambas aquelas almas, porque os olhares da menina e do moço se encontraram ao mesmo tempo e os olhos da virgem modestamente se abaixaram e cm suas faces se acendeu um fogo, que era o do pejo. E o mancebo, apontando para ambos, disse:

— Eles se amam!

E a menina murmurou apenas:

— São felizes!

— Pois a credita que em amor possa haver felicidades?

— Às vezes.

— Acaso já tem a senhora amado?

— Eu?!... E o senhor?

— Comecei a amar há poucos dias.

A virgem guardou silêncio e o mancebo, depois de alguns instantes, perguntou tremendo:

— E a senhora já ama também?

Novo silêncio; ela pareceu não ouvir, mas suspirou. Ele falou menos baixo:

— Já ama também?...

Ela baixou ainda mais os olhos e com voz quase extinta disse:

— Não sei... talvez.

— E a quem?...

— Eu não perguntei a quem o senhor amava.

Quer que lho diga?... Eu não pergunto.

— Posso eu fazê-lo?

— Não... não lho impeço. É a senhora.

D. Carolina fez-se cor-de-rosa e só depois de alguns instantes pôde perguntar, forcejando um sorriso:

— Por quantos dias?

— Oh! Para sempre, respondeu Augusto, apertando-lhe vivamente o braço.

Depois ainda continuou:

— E a senhora não me revela o nome feliz?...

— Eu não... não posso...

— Mas por que não pode?

— Por que não devo.

— E nunca o dirá?!

— Talvez um dia.

— E quando?...

— Quando estiver certa que ele não me ilude.

— Então... ele é volúvel?...

— Ostenta sê-lo...

— Oh!... Pelo céu! ... Acabe de matar-me! ... Basta o nome pronunciado bem em segredo, bem no meu ouvido, para que ninguém o possa ouvir, nem a brisa o leve… pelo céu...

— Senhor!...

— Um só nome lhe peço!...

— É impossível! ... Eu não posso...

Se eu perguntasse?... Oh!... Não!...

— Serei eu?...

A virgem tremeu toda e não pôde responder. Augusto lhe perguntou ainda, com fogo e ternura:

— Serei eu?...

A interessante Moreninha quis falar... não pôde mas, sem o pensar, levou o braço do mancebo até o peito e lhe fez sentir como o seu coração palpitava.

— Serei eu?... perguntou uma terceira vez Augusto. com requintada ternura.

A jovenzinha murmurou uma palavra que pareceu mais um gemido do que uma resposta, porém que fez transbordar a glória e o entusiasmo da alma do seu amante; ela tinha dito somente:

— Talvez.

CAPÍTULO XXII

Mau tempo

Tristes dias tem-se arrastado. Augusto está desesperado. Voltando da ilha de... depois daquele belo dia da declaração de amor achou na corte seu pai e em poucos momentos teve de concluir, na severidade com que era tratado, que já alguém o havia prevenido das suas loucuras e dos muitos pontos que ultimamente tinha dado nas aulas. A mais bem merecida repreensão, e um discurso cheio de conselhos e admoestações, veio por fim dar-lhe a certeza de que o seu bom velho estava ciente de tudo.

Para coroar a obra, contra o costume do maior número dos nossos agricultores que, quando vêm à cidade, estão no caso do fogo viste, lingüiça? e ainda não puseram os pés no largo do Paço já têm os olhos na praia Grande (que por estes bons cinqüenta anos há de continuar a ser praia Grande, apesar de a terem crismado Niterói), o pai de Augusto não falava em voltar para a roça; e a julgar-se pelo sossego e vagar com que tratava os menos importantes negócios. parecia haver esquecido a moagem e a safra.

Chegou o sábado. O nosso Augusto, depois de muitos rodeios e cerimônias, pediu finalmente licença para ir passar o dia de domingo na ilha de... e obteve em resposta um não redondo; jurou que tinha dado sua palavra de honra de lá se achar nesse dia e o pai. para que o filho não cumprisse a palavra, nem faltasse à honra, julgou muito conveniente trancá-lo em seu quarto.



(continua...)

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