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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

— Eu sei!?... conforme... fala; que é, então?...

— Pois mamãe sabia que a tia Umbelina me pediu para ensinar a ler à Margarida...

— Deveras, meu filho?... — interrompeu a mãe rindo-se muito. — Que galante mestrinho tem a minha afilhada! por Deus que não sei qual dos dois mais precisará de bolos, o mestre ou a discípula.

— Mamãe está caçoando!... pois é deveras, estou ensinando a ler à Margarida.

— Está bom, meu filho; mas para isso será preciso gastar todo o dia!... o teu mestre porventura te estava ensinando o dia inteiro?...

— Mas, mamãe, a tia Umbelina quer que ela aprenda depressa; e é preciso eu dar a ela duas, três e quatro lições por dia. Daqui lá é bem longe, eu não posso estar de lá para cá, e de cá para lá a toda a hora.

— Arre, nem com tanta sede ao pote!... mas, meu filho, isso não pode continuar; eu quero ver-te mais vezes perto de mim.

— Só se mamãe pedisse à tia Umbelina, que Margarida viesse para cá...

A mãe sorriu-se.

— Isso não é mais possível, Eugênio — tornou ela. — Bem vês que Margarida já está ficando grande; já ajuda sua mãe, que precisa muito dela...

— Qual, mamãe!... o que Margarida faz em casa, eu e ela indo para lá de tarde fazemos num instante... é recolher os bezerros, dar milho às galinhas... ora bolas!... isso custa nada?... a costura ela pode trazer para cá...

— Para tudo achas remédio... mas isso não pode ser assim...

— Então mamãe não quer que eu vá mais lá? — disse o menino quase a chorar.

— Não é isso, filho. Não te digo que não vás; mas é preciso voltar mais cedo, e não ficar lá o dia inteiro. A tua casa é aqui e não lá.

As coisas não passavam destas brandas repreensões, antes queixas da mãe de Eugênio. Este continuava sempre com a mesma assiduidade ao pé de Margarida; todavia o mais que fazia em atenção às ordens ou antes ao pedido de sua mãe, era voltar — às vezes — mais cedo para casa, com grande sacrifício de seu coração. Os pais sorriam-se cheios de satisfação da ingenuidade do "mestrinho", como daí em diante o chamavam, e não lhe levavam a mal as suas longas e quotidianas ausências.

Eugênio não mentia, quando disse a sua mãe que ensinava a ler a sua companheira de infância. O viandante, que por ali transitasse naquela época, teria por vezes ocasião de contemplar à sombra das paineiras junto à pontezinha de que já falamos, um curioso e interessante grupo: um esbelto rapazote de cerca de doze anos assentado na grama, e com um braço passado sobre o ombro de uma gentil menina um pouco mais nova, apontando-lhe as letras do alfabeto.

Eugênio era dotado de índole calma e pacata, e revelava ainda na infância juízo e sisudez superior à sua idade; tinha inteligência fácil e boa memória. Além disso mostrava grande pendor para as coisas religiosas. Seu principal entretimento, depois de Margarida, cuja companhia preferia a tudo, era um pequeno oratório, que zelava com extremo cuidado e trazia sempre enfeitado de flores, pequenas quinquilharias e ouropéis. Diante deste oratório, o menino se extasiava fazendo o papel de capelão, rezando terços e ladainhas e celebrando novenas com a regularidade e com uma gravidade verdadeiramente cômica. Seus assistentes eram os crioulinhos da casa, e às vezes ele tinha por sacristão a Margarida, que com isto muito se encantava.

Em vista de tudo isto os pais entenderam que o menino tinha nascido para padre, e que não deviam desprezar tão bela vocação. Assentaram, pois, de mandálo estudar e destiná-lo ao estado clerical.

Naquelas épocas de crença viva e piedade religiosa, ter um filho padre era um prazer, uma glória, de que muito se ufanavam os pais e as mães de família, e mesmo hoje, principalmente entre os nossos morigerados e religiosos fazendeiros, não falta quem pense que não pode haver carreira mais bonita, mais santa, nem mais honrosa. Assim pensamos também, quando aqueles que a abraçam a exercem nobre e dignamente.

Na véspera do dia, em que tinha de partir para o seminário de Congonhas do Campo, Eugênio que tinha ido à casa de Umbelina despedir-se dela e de sua filha, demorou-se mais do que de costume. Foi preciso mandar buscá-lo. Foram achá-lo no sítio, em que já o vimos por vezes, debaixo das paineiras, abraçado com Margarida, e ambos a chorar.

Embebidos em sua profunda mágoa, nem pressentiam a noite que vinha descendo, e ali ficariam chorando até o romper d'alva, se não os viessem despertar daquele doloroso letargo.

Que belo prelúdio para quem se destinava ao estado clerical!...

CAPÍTULO IV

Eis o nosso herói transportado das livres e risonhas campinas da fazenda paterna, para a monótona e austera prisão de um seminário no arraial de Congonhas do Campo, de barrete e sotaina preta, no meio de uma turba de companheiros desconhecidos; como um bando de anus pretos encerrados em um vasto viveiro.

Que mudança radical de vida!... que meio tão diferente daquele em que até então tinha vivido!... Essa transplantação devia modificar profundamente a existência do arbusto tão violentamente arrancado do solo natal.

(continua...)

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