Por Bernardo Guimarães (1872)
Elias viu com desespero que por toda a parte não encontrava senão rivais. Essa circunstância, porém, longe de desalenta-lo, mais estimulava e incendiava a sua nascente paixão.
O jovem negociante era de conversação jovial e zombeteira. Para se inculcar de fina e polida educação escarnecia de tudo quanto era do sertão, e naquela ocasião, para dar mostras de seu espírito, começou pelas cavalhadas.
- Na corte ninguém iria ver cavalhadas senão para rir-se. É um divertimento do tempo de El- Rei nosso senhor. Que papel ridículo não fazem esses papalvos que ali vão galopar enfeitados de chapéus armados, bandas, fitas e ouropéis como figuras de entremez! . . . E a embaixada, Santo Deus! Há nada mais estúpido! Admira que ainda haja homens sérios, que assim se atrevam a prestar-se ao debique em público sobre um cavalo dançador, repetindo de boca cheia umas asneiras que ninguém entende! É espetáculo próprio só para bobos ou crianças.
- Ora deixe-se disso, senhor Azevedo – replicou o Major – o senhor é bem difícil de contentar. O nosso povo gosta de cavalhadas, é doido por elas. Não podemos ter circos nem teatros, como nas grandes cidades; que remédio senão nos servirmos com a louça de casa!
- Ora! Façam banquetes, façam bailes, façam corridas de touros; não faltam meios de divertir-se o povo; mas deixem-se dessa triste bobice das cavalhadas.
-mas talvez V. Sª. goste de ver estas. Os cavaleiros são excelentes; temos soberbos cavalos, e estão muito bem doutrinados.
- Qual! Nestas coisas, quanto melhor, pior! Quanto mais perfeito anda o negócio, mais ridículo. Antes fosse uma verdadeira mascarada carnavalesca e doidejante; mas aquela cômica gravidade, aquela insípida regularidade, é coisa tristemente ridícula.
- É para V. Sª. , acostumado aos brilhantes e variados espetáculos da corte; mas para nós, pobres roceiros, não há nada mais divertido do que ver um guapo cavaleiro dirigindo um bom e bem doutrinado ginete, tirar uma argolinha, e, encaminhando-se a um palanque, ofertá-la a uma formosa dama. . .
- Sim; e depois com cara d’asno vir volteando o círculo com um molho de fitas na ponta da lança, ao som de músicas e foguetarias, e ir colocar-se de novo muito concho no seu posto. Há nada mais insípido! São coisas que se devem deixar para os artistas do circo eqüestre, que as fazem muito melhores, e disso ganham a vida.
Elias, que ouvia com impaciência as palavras do negociante, que humilhavam e o feriam em seu amor- próprio, julgou que não devia deixar sem resposta os motejos daquele pelintra, com quem, sem saber por que, embirrara desde o princípio, e assentou de confundi-lo e esmaga-lo. Elias, que além de ter feito os estudos preparatórios, por seu amor à leitura tinha adquirido variada instrução, era de feito muito superior ao seu adversário.
- Perdão- replicou Elias com polidez- não lhe acho razão, meu senhor, e entendo que a cavalhada é um divertimento muito nobre, muito agradável, e muito útil.
- Deveras! E não me fará o favor de dizer em quê? . . .
- Em quê? Em muita coisa. O senhor bem sabe que as cavalhadas não são mais do que uma imagem, um simulacro das antigas justas e torneios. mas esses divertimentos bárbaros, em que se derramava sangue, e que muitas vezes custavam a vida aos justadores, não podem compadecer-se com as luzes e costumes da civilização atual, e admira que, mesmo nos sanguinários tempos da média idade, fossem tolerados entre povos cristãos. A cavalhada, porém, ficou como uma imitação daquelas lutas cavalheirescas, que, não custando o sangue nem a vida a ninguém, oferece um brilhante e nobre espetáculo aos olhos do povo. A equitação é uma arte útil, necessária mesmo; ninguém o pode contestar. A cavalhada produz estímulo e emulação entre os moços para se exercerem nesta vantajosa e nobre arte, dando-lhes ocasião de alardear o seu garbo e destreza em dirigir um possante e fogoso ginete aos olhos do público, e às vezes também de uma amante querida, que do fundo do seu palanque o anima com um olhar, ou com um sorriso. Dizendo estas últimas palavras, Elias lançou furtivamente sobre Lúcia um olhar rápido.
-triste meio de agradar às belas, fazendo papel de truão! , exclamou com uma gargalhada o jovem negociante.
- É mais nobre e cavalheiresco- retorquiu Elias- do que o namoro nos bailes e nas igrejas, que é tão comum hoje. E ainda nisto a cavalhada é uma semelhança dos antigos torneios, nos quais os campeões tinham sempre uma dama dos seus pensamentos, pela qual iam romper lanças na sanguinosa liça.
- Oh! meu senhor! Já lá se foi o tempo dos D. Quixote e das Dulcinéias- disse o negociante.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.