Por Bernardo Guimarães (1872)
Ali na solidão daquela fazenda, todos os dotes que Paulina recebera da natureza e da educação, vieram a tornar-se-lhe inteiramente inúteis. As belas faculdades de que o céu a dotara, e que no colégio começavam a desabrochar com brilho, ali, sem achar expansão alguma, concentravam-se em si mesmas, e Paulina, que tinha muita sensibilidade e imaginação viva, foi-se tornando de um caráter disposto à melancolia e a essas paixões vagas, que ao despontar da puberdade costumam atormentar as organizações poéticas e delicadas. Poucas vezes deixava o retiro de sua fazenda para ir a Uberaba, que aliás naquele tempo era ainda uma insignificante aldeia. A família de um fazendeiro vizinho, seu parente, que morava daí a duas léguas, era a única que de quando em quando vinha interromper com suas visitas a monótona solidão do viver de Paulina. Seu pai bem a induzia a passear mais freqüentemente ao arraial, a ir passar alguns dias em companhia de suas primas. Mas ela parece que não achava muito encanto na companhia das primas nem nas festanças do arraial, e lhes preferia a solidão de sua casa e a companhia de seu velho pai, para quem era toda extremos, e poucas vezes se utilizava dessas permissões. Alguns passarinhos, o cuidado de um pequeno e lindo jardim, alguns livros e seus trabalhos de agulha, bastavam para encher-lhe agradavelmente o tempo.
Havia já alguns minutos que Paulina se achava à entrada do rancho entretida naquele serviço, quando subitamente ergueu a cabeça, sacudiu para trás os compridos cabelos, alongou o colo, e pôs-se a escutar... fazia lembrar o esbelto e arisco colhereiro, que estando a pescar tranqüilamente à borda do lago, ao sentir qualquer rumor alça o colo rosado prestes a bater as asas.
Paulina estava escutando um toque de cães de caça, que vinham descendo pela mata, córrego abaixo, com incrível assanhamento. Os latidos dos cães e a vozeria dos caçadores, que os açulavam, se aproximavam rapidamente atroando a floresta, e era evidente que o animal, fosse qual fosse, que era acossado, vinha acompanhando o córrego, e tinha de saltar no roçado exatamente em frente do rancho, em que se achava Paulina. Ela, posto que algum tanto afeita a essas cenas selváticas, não deixou de amedrontar-se, e correu para dentro do rancho.
– Suzana! Suzana!... gritou ela para a negra, – não ouves?... aquele toque de cachorros?... meu Deus! não vá ser algum bicho bravo!...
– He! ha! santa virgem! murmurou a negra depois de chegar à porta do rancho e escutar um momento. – Aquele toque, sinhazinha, se ele não é de anta, quer me parecer que é de onça. Cachorro não está latindo alegre como quando toca veado, não.
– Ouça, Suzana!... ah! meu Deus! que medo! o que será de nós aqui sozinhas!...
– Não tem susto, sinhazinha; onça não vem cá, não; não está aí tanta gente pra matar ela?...
– Quem sabe, Suzana; – chama meu pai, chama depressa...
– Sossega, sinhazinha; – olha, lá vem eles todos...
De feito o fazendeiro, que ouvira também a tocada dos cães, tinha largado imediatamente o serviço e descia pela encosta acompanhado de alguns escravos armados de foices e machados, e vinham fazer frente ao animal que saltasse da mata.
Um momento depois um enorme animal amarelo malhado de preto surgiu da mata e, rápido como um corisco, saltando pelas coivaras se encaminhava para o lado do rancho, onde nesse mesmo instante chegavam dois possantes e resolutos negros, que o velho mandara a toda a pressa para ficarem junto de Paulina. Os negros, que avistaram a onça, romperam numa horrível gritaria:
– É onça! é onça! acode gente!... mata! mata!– Espavorida com aqueles berros a onça estacou um momento.
Ela estava apenas como a uns duzentos passos do rancho; perto se achava um tronco de peroba meio tombado, que ao cair ficara engastalhado na galhada de uma árvore vizinha. A onça pulou nele, e correu a empoleirar-se no ponto mais alto, a que pôde galgar. Os cães, que a perseguiam, desembocavam da mata e se reuniam embaixo do tronco, escalavrando-o com unhas e dentes, e dando saltos e ganidos furiosos. Assalto inútil! a onça passeava mui ancha e sobranceira ao longo do pau, e ora subia até a mais alta grimpa, ora descia até quase ao alcance deles, arreganhando-lhes os dentes como num sorriso feroz a mofar de seus vãos esforços, e apoiando a cabeça enorme sobre as patas dianteiras os contemplava bem de pertinho, e como que os contava um a um em ar de desdém.
Entretanto o fazendeiro acompanhado de seus escravos vinha atropeladamente rompendo através das coivaras, e se aproximava da fera.
Paulina que transida de pavor mal ousava deitar a cabeça fora da portinhola do rancho, em vão bradava com quantas forças tinha: Meu pai! meu pai! por quem é? não vá lá!
O velho avizinhou-se intrépido do terrível animal, apontou-lhe direito ao sangrador a espingarda de fiança, que sempre trazia consigo, mas decerto a mão vacilou-lhe, porque tiro apenas pegou de leve na costela da onça. O animal irritado deu um urro medonho, desceu até ao meio do tronco curvou o dorso como cobra que quer dar o bote, pulou por cima de toda a alcatéia de cães, que esganiçando se apinhavam embaixo do pau, correu como uma seta para o lado do rancho, e embarafustou por ele adentro.
Os negros soltaram a um tempo um grito de pavor, e o velho fazendeiro sentiu gelar-se-lhe o coração de susto, as pernas bambearam-lhe, e quase que foi ao chão. Mas o amor paternal sobrepujou o terror, e o pobre velho tropeçando, abalroando e caindo pelos tocos e coivaras correu com a maior celeridade que pôde para o lado do rancho; o mesmo fizeram os escravos, que o acompanhavam. A onça, quando entrara no rancho atropelada e acossada de perto pelos cães, nem de leve tocou, e talvez nem viu as duas criaturas, que lá se achavam; cuidando que ali seria uma toca, onde acharia guarida segura, só tratava de defender-se contra os que a perseguiam.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.