Por Bernardo Guimarães (1875)
Levantou ao céu os olhos banhados em lágrimas, e jurou pela alma da infeliz mulata encarregar-se do futuro de Isaura. criá-la e educá-la, como se fosse uma filha.
Assim o cumpriu com o mais religioso escrúpulo. À medida que a menina foi crescendo e entrando em idade de aprender, foi-lhe ela mesma ensinando a ler e escrever, a coser e a rezar. Mais tarde procurou-lhe também mestres de música, de dança, de italiano, de francês, de desenho, comprou-lhe livros, e empenhou-se enfim em dar à menina a mais esmerada e fina educação, como o faria para com uma filha querida. Isaura, por sua parte, não só pelo desenvolvimento de suas graças e atrativos corporais, como pelos rápidos progressos de sua viva e robusta inteligência, foi muito além das mais exageradas esperanças da excelente velha, a qual em vista de tão felizes e brilhantes resultados, cada vez mais se comprazia em lapidar e polir aquela jóia, que ela dizia ser a pérola entrançada em seus cabelos brancos. — O céu não quis dar-me uma filha de minhas entranhas, — costumava ela dizer, — mas em compensação deu-me uma filha de minha alma.
O que porém mais era de admirar na interessante menina, é que aquela predileção e extremosa solicitude de que era objeto, não a tornava impertinente, vaidosa ou arrogante nem mesmo para com seus parceiros de cativeiro. O mimo, com que era tratada, em nada lhe alterava a natural bondade e candura do coração.
Era sempre alegre e boa com os escravos, dócil e submissa com os senhores.
O comendador não gostava nada do singular capricho de sua esposa para com a mulatinha, capricho que qualificava de caduquice.
— Forte loucura! — costumava exclamar com acento de comiseração.
— Está ai se esmerando em criar uma formidável tafulona, que lá pelo tempo adiante há de lhe dar água pela barba. As velhas, umas dão para rezar, outras para ralhar desde a manhã até à noite, outras para lavar cachorrinhos ou para criar pintos; esta deu para criar mulatinhas princesas. É um divertimento um pouco mais dispendioso na verdade; mas.., que lhe faça bom proveito; ao menos enquanto se entretém por lá com o seu embeleco, poupa-me uma boa dúzia de impertinentes e rabugentos sermões... Lá se avenha!...
Poucos dias depois do casamento de Leôncio, o comendador, com toda a
família, inclusive os dois novos desposados, transportou-se de novo para a fazenda de Campos. Foi então que o comendador entregou a seu filho toda a administração e usufruto daquela propriedade, com toda a escravatura e mais acessórios nela existentes, declarando-lhe que achando-se já bastante velho, enfermo e cansado, queria passar tranqüilamente o resto de seus dias livre de afazeres e preocupações, para o que bastavam-lhe com sobejidão as rendas que para si reservava. Feita em vida esta magnífica dotação a seu filho, retirou-se para a corte. Sua esposa porém preferiu ficar em companhia do filho, o que foi muito do gosto e aprovação do marido.
Malvina, que apesar da sua vaidade aristocrática tinha alma cândida e boa, e um coração bem formado, não pôde deixar de conceber logo desde o principio o mais vivo interesse e terna afeição pela cativa Isaura.
Era esta com efeito de índole tão bondosa e fagueira, tão dócil, modesta e submissa, que apesar de sua grande beleza e incontestáveis dotes de espírito, conquistava logo ao primeiro encontro a benevolência de todos.
Isaura tornou-se imediatamente, não direi a mucama favorita, mas a fiel companheira, a amiga de Malvina que, afeita aos prazeres e passatempos da corte, muito folgou de encontrar tão boa e amável companhia na solidão que ia habitar.
— Por que razão não libertam esta menina? — dizia ela um dia à sua sogra.
— Uma tão boa e interessante criatura não nasceu para ser escrava.
— Tem razão, minha filha, — respondeu bondosamente a velha; — mas que quer você?... não tenho ânimo de soltar este passarinho que o céu me deu para me consolar e tornar mais suportáveis as pesadas e compridas horas da velhice.
— E também libertá-la para quê? Ela aqui é livre, mais livre do que eu mesma, coitada de mim, que já não tenho gostos na vida nem forças para gozar da liberdade. Quer que eu solte a minha patativa? e se ela transviar-se por aí, e nunca mais acertar com a porta da gaiola?... Não, não, minha filha; enquanto eu for viva, quero tê-la sempre bem pertinho de mim, quero que seja minha, e minha só. Você há de estar dizendo lá consigo - forte egoísmo de velha! - mas também eu já poucos dias terei de vida; o sacrifício não será grande. Por minha morte ficará livre, e eu terei o cuidado de deixar-lhe um bom legado.
De feito, a boa velha tentou por diversas vezes escrever seu testamento a fim de garantir o futuro de sua escravinha, de sua querida pupila; mas o comendador, auxiliado por seu filho com delongas e fúteis pretextos, conseguia ir sempre adiando a satisfação do louvável e santo desejo de sua esposa, até o dia em que, fulminada por um ataque de paralisia geral, ela sucumbiu em poucas horas sem ter tido um só momento de lucidez e reanimação para expressar sua última vontade.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. A escrava Isaura. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16580 . Acesso em: 21 fev. 2026.