Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Romancista de donzelas e para donzelas, Macedo põe o casamento no princípio, no meio e no fim de todas as coisas. Tudo, nos seus romances, gira em torno do casamento, visa ao casamento, acaba em casamento. Tudo – inclusiver o amor. A novela Os Quatro Pontos Cardeais dá-nos uma idéia a bem dizer simbólica da “vontade de casar” que domina as donzelas de Macedo: Deolinda namorando ao mesmo tempo quatro pretendentes, certa de que um deles não escaparia ao seu estratagema do mirante quádruplo. Tamanho era o seu pavor de ficar solteira. Mas os romances de Macedo não faziam senão traduzir um sentimento de ordem geral. As moças da sociedade não podiam sequer pensar noutra coisa: “nesta vida não nos dão licença de pensar senão no casamento”, dizia uma delas no O Moço Loiro. Para elas o casamento não era só um objetivo natural – porque era o objetivo único e exclusivo. Nada havia a fazer fora do casamento. Daí a aceitação passiva, por parte das moças, de qualquer casamento que lhes fosse imposto pelos pais ou pelas circunstâncias. E daí que a idéia do casamento se tornasse uma obsessão e a obsessão se convertesse em luta – em luta nem sempre fácil e muitas vezes desesperada. A fuga de D. Brites com o caça-dotes Lucindo da Luz, personagens da referida novela, esconde, por baixo da aparência a um tempo romântica e grotesca da cena, uma situação na realidade pejada de patético. D. Brites era uma senhora já quarentona bem puxada, feia, surda e coxa, mas possuidora de alguns haveres. Muito religiosa, vivia satisfeita com a sua condição de tia. Conformada humildemente com a sorte: o celibato, dizia ela, era um modo “de ser agradável ao Senhor”. Pois bem: o velhaco do Lucindo, explorando, com diabólica habilidade, o seu fanatismo religioso, em poucos dias conseguiu seduzi-la e fugir com ela – para casar. O casamento – objetivo já morto e enterrado dentro dela – renasceu de repente com a força prodigiosa que só o sentido profundo da libertação pode dar. E aí temos a explicação de tudo: o casamento era a libertação, a única forma admitida de libertação para sair de um estado social e moral que ameaçava as donzelas com o estigma humilhante do celibato. Aí temos também como e por que podemos encontrar, nos romances de Joaquim Manuel de Macedo, uma interpretação fidedigna dos sentimentos da época no concernente à situação da mulher; e como podemos perceber, no fundo dessa interpretação, o eco sentimental de conceitos e preconceitos estratificados durante centenas de anos sob o signo da formação patriarcal da sociedade brasileira.
* * *
Da sua obra propriamente de cronista ou folhetinista, deixou-nos Joaquim Manuel de Macedo dois livros publicados: Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro (1862-1863) e Memórias da Rua do Ouvidor (1878). São dois livros de leitura agradável, creio mesmo que bem mais agradável e até mais proveitosa, ainda hoje, do que a dos seus romances. Aí, no folhetim de meneio fluente e espirituoso de cada semana, estava Macedo, o bom dr. Macedinho, no seu elemento natural. A pequena história da cidade, com os episódios pitorescos, curiosos, sentimentais e às vezes picarescos da sua vida no passado, com as novidades e as sensações das coisas contemporâneas, e tudo isso, passado e presente, a desenrolar-se sem maiores complicações no mesmo cenário de perene deslumbramento – eis a mina fácil, à flor da terra, onde o cronista encontrava o material mais adequado ao seu gênio, ao seu gosto – e as suas possibilidades. Poder-se-ia talvez dizer que os seus romances são apenas a transposição romanesca e piegas desse material de puro folhetim. Não por outra razão, quero supor, admitimos e suportamos melhor certas páginas de toque mais tipicamente folhetinesco que deparamos na sua obra de ficção.
De um modo ou de outro, no romance ou no folhetim, como também no teatro, em que foi igualmente fértil, o que permanece em Macedo, ao par da ingenuidade romântica tão do gosto de certas camadas de leitores, é a sua qualidade de cronista da vida fluminense. Ele não é um grande romancista, nem um grande escritor, nem mesmo um grande cronista, mas é com certeza um cronista amável, honesto e útil.
Em Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro, o folhetinista
nos pega pela mão e nos leva a ver o Paço Imperial, o Passeio Público, o morro
do Castelo, que já naquele tempo se falava em demolir, o Colégio Pedro II, os
conventos de Santa Teresa e de Santo Antônio, a igreja de S. Pedro, a igreja e
o recolhimento do Parto, a igreja da Sé, etc., contando-nos a história e a
tradição de cada um desses edifícios, instituições e sítios. De cada um e a
propósito de cada um, fornece-nos, com diligente e amena erudição, muitas e
curiosas informações de natureza histórica, artística ou literária, entremeadas
a cada passo por epigramas e alusões a certos costumes políticos da época, por
oportunas reminiscências pessoais, por anedotas divertidas e maliciosas, e
sobretudo por velhos casos romanescos, que o cronista recolheu da tradição
popular ou desfiou por conta e risco da própria fantasia. Tais digressões nos
distraem freqüentemente por atalhos imprevistos; mas também aqui por estes
atalhos vamos encontrar mais de um motivo de interesse e satisfação.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.