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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— Bravo ! logrado pela moça e pela velha... E depois?...

— Ah ! depois ? depois ! é que cinco dias inteiros fui victima das zombarias de minha terrivel irmã, que não cessa de ridiculisar a minha paixão e ainda mais a minha apaixonada !

— Pois tu ainda estás apaixonado ?...

— Sabbado passado estava até os olhos ; agora estou até os cabellos ! que queres ?... o homem é escravo da mulher que mais martyrios o faz soffrer.

— E ficou n'isso a historia?...

— Não : até aqui o ridiculo, até aqui o desespero, a raiva, e não sei que mais ; daqui por diante uma luzsinha de esperança.

— Accende-a depressa aos olhos dos meus leitores, Constancio.

— Fui durante a semana todas as noites á casa da familia pobre onde pela primeira vez encontrara a desconhecida : uma noite fui ás dez horas, outra ás nove, outra ás oito e outra ás sete, desde domingo até quinta-feira.

— E a bella mysteriosa?...

Foi todas essas noites também ; mas sempre sahia dez minutos antes da minha chegada, como se alguém a prevenisse d'ella ! além de formosa, porque o ha de ser por força, é ainda mais feiticeira !...

— Enganão-te n'essa casa também, Constancio: a desconhecida lá não tornou mais.

— Oh se tornou ! deixa sempre signaes da sua visita, disse Constancio, tirando um embrulho do bolso, disse: olha !

Olhei: Constancio desatou o embrulho que estava amarrado com uma fita verde ; vi cinco embrulhos mais pequenos : no primeiro estava escripto — Domingo.

— Eis aqui as petalas de uma rosa que na noite de domingo ella desfolhou ao pé da cama da velha. Aqui está no embrulho da segunda-feira uma luvasinha de mão de creança que ella esqueceu sobre a cadeira ; no embrulho da terçafeira uma fita de sapato que se lhe rebentou no embrulho da quarta-feira tres alfinetes e uma agulha com que estivera tecendo ; e no da quinta-feira, emfim, um lencinho bordado, mas sem trazer marcadas as iniciaes do nome de sua dona, que é o que sinto.

— Ah Constancio ! d'esta vez embrulhaste-me a semana toda !

— E o mais é que a bella mysteriosa me conhece; fallou a meu respeito, disse o meu nome, o de minha mãe e de minha irmã, sabe onde moramos, e asseverou que me ama extremosamente desde muito tempo.

— Bravo ! e a bolsa de seda ?...

— Foi um mono que me pregou a velha de mantilha ; a bolsa de seda. ella apenas poude acabar na quinta-feira á noite, e confessou que a destina para a exposição de amanhã.

— Oh ! então, parabéns !

— Mas o peior é que ella teima em não dar-se a conhecer, e jura que eu nunca lhe verei o rosto: hontem logrou-me como se logra a um tolo ; ao mesmo tempo porém inflam-mou ainda mais as minhas esperanças.

— Conta-me isso.

Um dos filhos da pobre mulher a quem soccorremos, tem estado quasi não quasi a fazer viagem ; hontem fui fazer-lhe a rainha visita ás sete e meia horas da noite ; até então tinha lá ido ás sete, oito, nove, dez horas certas ; na sextafeira comecei a fazer as minhas visitas ás meias horas, a ver se me encontrava com a bella da bolsa de seda. Entrei, e logo pelo suave aroma que rescendia na sala, conheci que a desconhecida havia epouco d'alli sahíra; não me animei a perguntar por ella, porque vi a pobre mãe chegar á sala e entrar chorando na alcova, levando na cabeça uma bacia de pés com agua quasi fervendo.

— Que ha ? perguntei.

— O meu filhinho mais novo que acaba de cahir com o cholera.

Tive pena da triste mãe ; atirei com a casaca para um lado, arregacei as mangas da camisa e fui dar o escalda-pés á creança. O meu anjo da caridade tinha-me ensinado a ser caridoso.

A mãe resistio, e eu teimei e venci: já estava terminado o pediluvio, quando senti os passos de alguém que fugia : olhei para traz .. era a bella mysteriosa, que sahindo do interior da casa, desapparecia pela porta da rua, atirando sobre mim um papel.

Em mangas de camisa, como estava, não podia seguil-a pela rua ; apanhei o papel suspirando, emquanto a infeliz mãe envolvia o filhinho em colchas de lã.

O papel continha um cartuxinho com uma violeta, symbolo da modéstia, e duas linhas com lettras escriptas provavelmente com a mão esquerda, que dizião assim : « a caridade não se ostenta; por isso me escondo : tu me vês todos os dias, e não me reconheces, nem me has de reconhecer ; amas-me, e eu te amo. »

Fiquei louco de alegria; não dormi toda a noite : fui obrigado a ouvir os gracejos e zom-barias de minha irmã desde o almoço até ás onze horas da manhã, e fiel á minha promessa ao meio-dia te appareci.

— Mas ficas ainda em divida.

— Sabbado espero pagar-te toda a minha conta.

— Excellentemente ! E amanhã ?...

— Amanhã terei a minha bolsa de seda, e não me fiarei mais em velhas de mantilha.

Dizendo isto, Constancio tomou o chapéo e sahio.

III

Confiado na pontualidade do meu amigo Constancio, eu esperava pêlo sabbado ao meiodia para receber a continuação ou a conclusão do romance da Bolsa de seda, quando casualmente encontrei esse namorado da bella mysteriosa dous dias antes d'aquelle em que contava vêl-o apparecer.

(continua...)

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