Por José de Alencar (1853)
Recuando ante os golpes da machadinha de Ayres, que relampeava como uma chuva de raios, o commandante da escuna, acossado na borda atirou-se da pôpa abaixo, mas ainda no ar o alcançára o golpe que lhe decepou o braço direito.
Um grito de desespero estrugiu pelos ares. Soltára-o aquella mulher que lá se arroja para a pôpa do navio, com os cabellos desgrenhados, e uma linda criança constrangida ao seio n'um
impeto de afflição.
Ayres recuou tocado de compaixão e respeito. Ella, que chegára á borda do pavez de ré precisamente quando a mar rasgava os abysmos para submergir o esposo, tomou um impulso para arrojar-se apoz. Mas o pranto da filha a retrahiu d'esse primeiro assomo.
Voltou-se para o navio, e viu Ayres a contemplal-a mudo e sombrio; estendeu para elle a criança, e depondo-lh'a nos braços, desappareceu, tragada pelas ondas.
Os destroços da tripolação da escuna aproveilavam-se da occasíão para atacar á traição Ayres, que elles suppunham desprecatado; porém o mancebo, apezar de commovido, percebeu-lhes o intento, e cingindo a criança ao peito com o braço esquerdo, marchou contra os corsarios, que buscaram nas vagas, como seu commandante, a ultima e fallaz esperança de salvação.
VI
A ORPHÂ
No dia seguinte, com a viração da manhã, entrava galhardamente a barra do Rio de Janeiro, uma linda escuna, que rasava as ondas como uma gaivota.
Não fôra sem razão que o armador francez ao lançar do estaleiro aquelle casco bem talhado com o nome de Mouette, lhe puzera na pôpa a figura do alcyon dos mares, desfraldando as azas.
Á pôpa, na driça da mesena, tremulavam as quinas portuguezas sobre a bandeira franceza arreiada a meio e colhida como um tropheu.
No seu posto de commando, Ayres embora attento á manobra, não podia de todo arrancar-se aos pensamentos que de tropel lhe invadiam o espirito, e o disputavam com irresistivel tyrannia.
Fizera o mancebo uma presa soberba. Além do carregamento de páu brasil com que sempre contára, e de um excellente navio mui veleiro e de solida construcção, achára a bordo da escuna avultado cabedal em ouro, quinhão que ao capitão francez coubera na presa de um galeão hespanhol procedente do Mexico, e tomado em caminho por tres corsarios.
Achava-se pois Ayres de Lucena outra vez rico, e por ventura mais do que o fôra; deduzida a parte de cada marujo, e o preço da balandra, ainda lhe ficavam uns cincoenta mil cruzados, com os quaes podia continuar por muito tempo a existencia dissipada que levára até então.
Com a riqueza, voltára-lhe o prazer de viver. N'aquelle momento respirava com delicia a frescura da manhã, e seu olhar afagava amorosamente a pequena cidade, derramada pelas encostas e faldas do Castello.
Encontrou-o a elle e a mulher á meza do almoço; alguma tristeza que havia n'essa refeição de familia, a chegada de Ayres a dissipou como por encanto. Era tal a effusão de seu nobre semblante, que do primeiro olhar derramou um doce contentamento nas duas almas desconsoladas.
— Boas novas, Duarte!
— Não carecia que falasseis, Ayres, pois já nolo tinha dito vosso rosto prasenteiro. Não é, Ursula?
— Pois não fôra?... O senhor Ayres vem que é uma paschoa florida.
— E não lhe pareça, que foram paschoas para todos nós.
Referiu o mancebo em termos rapidos e succintos o que havia feito nos dois ultimos dias.
— Aqui está o preço da balandra e vosso quinhão da presa como dono, concluiu Ayres deitando sobre a meza duas bolsas cheias de ouro.
— Mas isto vos pertence, pois é o premio de vosso denodo. Eu nada arrisquei sinão algumas taboas velhas, que não valiam uma onça.
— Valiam mil, e a prova é que sem as taboas velhas, continuarieis a ser um pobretão, e eu teria a esta hora acabado com o meu fadario, pois já vos disse uma vez : a ampulheta de mi-
nha vida é uma bolsa; com a derradeira moeda cahirá o ultimo grão de areia.
— Porque vos habituastes á riqueza; mas a mim a pobreza, apezar de sua feia catadura, não me assusta.
— Assusta-me a mim, Duarte de Moraes, que não sei que ha de ser de nós quando se acabar o resto das economias! acudiu Ursula.
— Bem vêdes, amigo, que não deveis sujeitar a privações a companheira de vossa vida, por um escrupulo que me offende. Não quereis reconhecer que esta somma vos é devida, nem me concedeis o direito de obsequiar-vos com ella; pois sou eu que vos quero dever.
— A mim, Ayres!
— Faltou-me referir uma circumstancia do combate. A mulher do corsario francez arrojouse ao mar, apoz o marido, deixando-me nos braços sua filhinha de collo. Roubei a essa innocente criança pai e mãi; quero reparar a orphandade a que voluntariamente a condemnei. Si eu
não fosse o estragado e perdido que sou, lhe daria meu nome e a minha ternura!... Mas para um dia córar da vergonha de semelhante pai!.. Não! Não póde ser!...
— Não exagereis vossos pecados, Ayres; foram os ardores da juventude. Aposto eu que já vão arrefecendo, e quando essa criança tornar-se moça, tambem estareis de todo emendado! Não pensas como eu, Ursula?
— Eu sei!... Na duvida não me fiava; acudiu a linda carioca.
(continua...)
ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.