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#Comédias#Literatura Brasileira

Quem casa, quer casa

Por Martins Pena (1845)

FABIANA – Atrevida, malcriada! Desarranjada! Peste! Mirrada! 

Estupor! Linguaruda! Insolente! Desavergonhada! 

PAULINA, ao mesmo tempo – Velha, tartaruga, coruja, arca de Noé! 

Antigualha! Múmia! Centopéia! Pergaminho! Velhusca, velha, velha! (Fabiana e Paulina acabam gritando ao mesmo tempo, chegando-se uma para a outra; finalmente agarram-se. Nisto acode Sabino, em mangas de camisa, e com o hábito na mão.) 

 

CENA X 

As ditas, SABINO, OLAIA e EDUARDO. SABINO entra, EDUARDO e OLAIA o seguem. 


SABINO, vendo-as pegadas – Que diabo é isto? (Puxa pela mulher.)

OLAIA, ao mesmo tempo – Minha mãe! (Puxando-a.) 

FABIANA, ao mesmo tempo – Deixa-me! Desavergonhada! 

PAULINA, ao mesmo tempo – Larga-me! Velha! Velha! (Sabino, não podendo tirar a mulher, lança-lhe o hábito pela cabeça e a vai puxando à força até a porta do quarto; e depois de a empurrar para dentro, fecha a porta a chave. Fabiana quer seguir Paulina.)

OLAIA, retendo a mãe – Minha mãe! Minha mãe! 

EDUARDO, puxando Olaia pelo braço – Deixa-as lá brigar. Vem dar-me o hábito. 

OLAIA – Minha mãe! 

EDUARDO – Vem dar-me o hábito! (Arranca Olaia com violência de junto de Fabiana e a vai levando para dentro, e sai.) 

FABIANA, vendo Sabino fechar Paulina e sair – É um inferno! É um inferno! 

SABINO, seguindo-a – Minha mãe! (Fabiana segue para dentro.)

NICOLAU, entrando – O que é isto? 

FABIANA, sem atender, seguindo – É um inferno! É um inferno! 

NICOLAU, seguindo-a – Senhora! (Vão-se.) 

 

CENA XI

SABINO e depois PAULINA. 

 

SABINO – Isto assim não pode ser! Não me serve; já não posso com minha mulher! 

PAULINA, entrando pela segunda porta, esquerda – Onde está esta velha? (Sabino, vendo a mulher, corre para o quarto e fecha a porta. Paulina:) Ah, corres? (Segue-o e esbarra-se na porta que ele fecha.) Deixa estar, que temos também que conversar... Pensam que hão de me levar assim? Enganam-se. Por bons modos, tudo... Mas à força... Ah, será bonito quem o conseguir! 

OLAIA entra chorando – Vou contar a minha mãe! 

PAULINA – Psiu! Venha cá; também temos contas que justar. (Olaia vai seguindo para a segunda porta da direita. Paulina:) Fale quando se lhe fala, não seja malcriada! 

OLAIA, na porta, voltando-se – Malcriada será ela... (Vai-se.)

PAULINA – Hem? 

 

CENA XII 

EDUARDO, de hábito, trazendo a rabeca, e a dita. 

 

EDUARDO – Paulina, que é de Olaia? 

PAULINA – Lá vai para dentro choramingando, contar não sei o que à mãe. 

EDUARDO – Paulina, minha irmã, este modo de viver que levamos já não me agrada. 

PAULINA – Nem a mim. 

EDUARDO – Nossa sogra é uma velha de todos os mil diabos. Leva desde pela manhã até à noite a gritar... O que me admira é que ainda não estourasse pelas goelas... Nosso sogro é um pacóvio, um banana, que não cuida senão em acompanhar procissões. Não lhe tirem a tocha da mão, que está satisfeitíssimo... Teu marido é um ga... ga... ga... ga... que quando fala faz-me arrelia, sangue pisado. E o diabo que o ature, agora que deu-lhe em falar cantando... Minha mulher tem aqueles olhos que parecem fonte perene... Por dá cá aquela palha, aí vêm as lágrimas aos punhos. E logo atrás: Vou contar à minha mãe... E no meio de toda esta matinada não tenho tempo de estudar um só instante que seja, tranqüilamente, a minha rabeca. E tu também fazes sofrivelmente teu pé de cantiga na algazarra desta casa. 

PAULINA – E tu, não? Pois olha esta tua infernal rabeca! 

EDUARDO – Infernal rabeca! Paulina, não fales mal da minha rabeca; senão perco-te o amor de irmão. Infernal! Sabes tu o que dizes? O rei dos instrumentos, infernal! 

PAULINA, rindo – A rabeca deve ser rainha... 

EDUARDO – Rei e rainha, tudo. Ah, desde a noite em que pela primeira vez ouvi no Teatro de S. Pedro de Alcântara os seus harmoniosos, fantásticos, salpicados e repinicados sons, senti-me outro. Conheci que tinha vindo ao mundo para artista rabequista. Comprei uma rabeca – esta que aqui vês. Disse-me o belchior que a vendeu, que foi de Paganini. 

Estudei, estudei... Estudo, estudo... 

PAULINA – E nós o pagamos. 

EDUARDO – Oh, mas tenho feito progressos estupendíssimos! Já toco o Trêmolo de Bériot... Estou agora compondo um tremulório e tenho ainda em vista compor um tremendíssimo trêmolo. 

PAULINA – O que aí vai!... 

EDUARDO – Verás, hei de ser insigne! Viajarei por toda a Europa, África e Ásia; tocarei diante de todos os soberanos e figurões da época, e quando de lá voltar trarei este peito coberto de grã-cruzes, comendas, hábitos, etc., etc. Oh, por lá é que se recompensa o verdadeiro mérito... Aqui, julgam que fazem tudo pagando com dinheiro. Dinheiro! Quem faz caso de dinheiro? 

PAULINA – Todos. E para ganhá-lo é que os artistas cá vêm. 

(continua...)

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