Por Martins Pena (1848)
MARIANA – Pensas que minha filha não tem mãe?
JORGE – Largue a opa!
MARIANA – Pensas que eu hei de aturar a ti, e a lambisgóia da tua irmã?
JORGE, com raiva – Senhora!...
MARIANA – Queres-me matar também, mariola?
JORGE, cerrando os dentes de raiva e metendo a cara diante da de Mariana – Senhora!... Diabo!...
MARIANA – Ah! (Dá-lhe com o pano de sinapismo na cara. Jorge dá um grito de dor, leva as mãos à cara e sai gritando.)
JORGE – Estou cego! Água, água!... (Sai pelo fundo. Mariana desfeicha a rir às gargalhadas, e o mesmo faz Eufrásia, que se levanta da cadeira. Conservam-se a rir
por alguns instantes, sem poderem falar. Luísa aparece à porta.)
EUFRÁSIA – Que boa lembrança! Ah, ah!
LUÍSA, à parte – O que será?
MARIANA – Que bela receita para maridos desavergonhados! Ah, ah!
EUFRÁSIA – Já não posso rir-me... Ah, ah!
MARIANA – Que cara fez ele! (Vendo Luísa:) O que queres?
LUÍSA, tímida – Eu...
MARIANA – Bisbilhoteira! Vai buscar minha mantilha e o leque de tua cunhada! (Luísa sai.)
EUFRÁSIA – Já sei o remédio daqui por diante.
MARIANA – Sinapismo nele.
EUFRÁSIA – Mas não vá ele ficar cego.
MARIANA – Melhor para ti! (Entra Luísa com uma mantilha na mão e um leque, que entrega a Eufrásia.) Dá cá; não podias trazê-la sem machucar? Desazada! (Põe a mantilha sobre a cabeça.) Vamos, que vai ficando tarde. Iremos primeiro a S. Francisco, que está aqui pertinho. (Para Luísa:) E tu, fica tomando conta na casa, já que não tens préstimo para nada... Pague o que come; não sou burra de ninguém. Vamos, menina.
CENA XII
LUÍSA e depois TIBÚRCIO.
LUÍSA, só – Não tenho préstimo... Sempre insultos! Sou a criada de todos nesta casa. Vou pedir ao mano que me meta no Convento da Ajuda.
TIBÚRCIO, dentro – Esmola para missas das almas.
LUÍSA – Quem é? (Tibúrcio aparece à porta, vestido de irmão das almas.)
TIBÚRCIO – Esmola para missas das almas.
LUÍSA, sem o reconhecer – Deus o favoreça!
TIBÚRCIO – Amém. (Adianta-se.)
LUÍSA – O senhor o que quer?
TIBÚRCIO – Deus me favorece...
LUÍSA – O senhor Tibúrcio!
TIBÚRCIO – Ele mesmo, que morria longe de ti.
LUÍSA – Vá-se embora!
TIBÚRCIO – Cruel, que te fiz eu?
LUÍSA – Não fez nada, mas vá-se embora.
TIBÚRCIO – Há oito dias que te não vejo. Tenho tanto que te dizer... Oito dias e oito noites levei a passar pela tua porta, e tu não me aparecias; até que tomei a resolução de vestir esta opa para poder entrar aqui sem causar desconfiança. Seremos felizes; nossa sorte mudou. (Põe a bacia sobre a mesa.)
LUÍSA – Mudou?
TIBÚRCIO – Bem sabes que há muito tempo que ando atrás de um lugar de guarda da Alfândega, e que não tenho podido alcançar; mas agora já não preciso.
LUÍSA – Não precisa?
TIBÚRCIO – Comprei uma cautela de vigésimo, na “Casa da Fama”, do Largo de Santa Rita, e saiu-me um conto de réis.
LUÍSA – Ah!
TIBÚRCIO – Vou abrir um armarinho. Agora posso pedir-te a teu irmão.
LUÍSA – Não, não, não pode ser!
TIBÚRCIO – Não queres ser minha mulher? Terás mudado? Ingrata!
LUÍSA – Não posso, não posso! Meu Deus!
TIBÚRCIO – Ah, já sei, amas a outro. Pois bem; casa-te com ele. Quem o diria?
LUÍSA, chorando – Escuta-me...
TIBÚRCIO – Não tenho que escutar. Vou-me embora, vou-me meter em uma
das barcas de vapor da Praia Grande, até que ela arrebente... (Falsa saída.)
LUÍSA – Quanto sou infeliz!
TIBÚRCIO, voltando – Ainda me amas?
LUÍSA – Ainda.
TIBÚRCIO – Então porque não queres casar comigo?
LUÍSA – Oh, acredita-me, é que eu não devo...
TIBÚRCIO – Não deveis? Pois adeus, vou para o Rio Grande. (Falsa saída.)
LUÍSA – Isto é um tormento que eu sofro!
TIBÚRCIO, voltando – Então, queres que eu vá para o Rio Grande?
LUÍSA – Bem sabes quanto eu te amava, Tibúrcio; tenho disto te dado provas bastantes, e se...
TIBÚRCIO – Pois dá-me a única que te peço: casa-te comigo. Ah, não respondes? Adeus, vou para Montevidéu. (Sai pelo fundo.)
LUÍSA, só – Nasci para ser desgraçada! Eu seria tão feliz com ele; mas é pedreiro-livre... Foi bom que ele se fosse embora. Eu não poderia resistir...
TIBÚRCIO, aparecendo à porta – Então, queres que eu vá para Montevidéu?
LUÍSA – Meu Deus!
TIBÚRCIO, caminhando para frente – Antes que eu parta desta terra ingrata; antes que eu vá afrontar esses mares, um só favor te peço, em nome de nosso antigo amor. Dize-me, por que não queres casar comigo? Disseram-me que eu era aleijado, que tinha algum defeito oculto? Se foi isso, é mentira.
LUÍSA – Nada disso me disseram.
TIBÚRCIO – Então por que é?
LUÍSA – É porque... (Hesita.)
TIBÚRCIO – Acaba, dize...
LUÍSA – Porque és pedreiro-livre. (Benze-se.)
TIBÚRCIO – Ah, ah, ah! (Rindo-se às gargalhadas.)
LUÍSA – E ri-se?
TIBÚRCIO – Pois não me hei de rir? Meu amor, isto são caraminholas que te meteram na cabeça.
LUÍSA – Eu bem sei o que é. Falas com o diabo à meia-noite; matas as crianças para lhes beber o sangue; entregaste tua alma ao diabo; freqüentas as...
TIBÚRCIO, interrompendo-a – Ta, ta, ta! O que aí vai de asneiras! Não sejas pateta; não acredites nestas baboseiras.
LUÍSA – Baboseiras, sim!
(continua...)
PENA, Martins. Os Irmãos das Almas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2161 . Acesso em: 30 jan. 2026.