Por Martins Pena (1845)
FELÍCIO, à parte – O bem do brasileiro é o estribilho destes malandros... (Para Gainer:) Pois não é isto que dizem. Muitos crêem que o senhor tem um grosso capital no Banco de Londres; e além disto, chamam-lhe de velhaco.
GAINER, desesperado – Velhaca, velhaca! Eu quero mete uma bala nos miolos deste patifa. Quem é estes que me chama velhaca?
FELÍCIO – Quem? Eu lho digo: ainda não há muito que o Negreiro assim disse.
GAINER – Negreira disse? Oh, que patifa de meia-cara... Vai ensina ele... Ele me paga. Goddam!
FELÍCIO – Se lhe dissesse tudo quanto ele tem dito...
GAINER – Não precisa dize; basta chama velhaca a mim pra eu mata ele. Oh, que patifa de meia-cara! Eu vai dize a commander do brigue Wizart que este patifa é meia-cara; pra segura nos navios dele. Velhaca! Velhaca! Goddam! Eu vai mata ele! Oh! (Sai desesperado.)
CENA VIII
FELÍCIO, só – Lá vai ele como um raio! Se encontra o Negreiro, temos salsada.
Que furor mostrou por lhe dizer eu que o chamavam velhaco! Dei-lhe na balda! Vejamos no que dá tudo isto. Segui-lo-ei de longe até que se encontre com Negreiro; deve ser famoso o encontro. Ah, ah, ah! (Toma o chapéu e sai.)
CENA IX Entra CECÍLIA e MARIQUINHA.
MARIQUINHA, entrando – É como eu te digo.
CECÍLIA – Tu não gostas nada dele?
MARIQUINHA – Aborreço-o.
CECÍLIA – Ora, deixa-te disso. Ele não é rico?
MARIQUINHA – Dizem que muito.
CECÍLIA – Pois então? Casa-te com ele, tola.
MARIQUINHA – Mas, Cecília, tu sabes que eu amo o meu primo.
CECÍLIA – E o que tem isso? Estou eu que amo a mais de um, e não perderia um tão bom casamento como o que agora tens. É tão belo ter um marido que nos dê carruagens, chácara, vestidos novos pra todos os bailes... Oh, que fortuna! Já ia sendo feliz uma ocasião. Um negociante, destes pé-de-boi, quis casar comigo, a ponto de escrever-me uma carta, fazendo a promessa; porém logo que soube que eu não tinha dote como ele pensava, sumiu-se e nunca mais o vi.
MARIQUINHA – E nesse tempo amavas a alguém?
CECÍLIA – Oh, se amava! Não faço outra coisa todos os dias. Olha, amava ao filho de dª. Joana, aquele tenente, amava aquele que passava sempre por lá, de casaca verde; amava...
MARIQUINHA – Com efeito! E amavas a todos?
CECÍLIA – Pois então?
MARIQUINHA – Tens belo coração de estalagem!
CECÍLIA – Ora, isto não é nada!
MARIQUINHA – Não é nada?
CECÍLIA – Não. Agora tenho mais namorados que nunca; tenho dois militares, um empregado do Tesouro, o cavalo rabão...
MARIQUINHA – Cavalo rabão?
CECÍLIA – Sim, um que anda num cavalo rabão.
MARIQUINHA – Ah!
CECÍLIA – Tenho mais outros dois que eu não conheço.
MARIQUINHA – Pois também namoras a quem não conheces?
CECÍLIA – Pra namorar não é preciso conhecer. Você quer ver a carta que um destes dois mandou-me mesmo quando estava me vestindo para sair?
MARIQUINHA – Sim, quero.
CECÍLIA, procurando no seio a carta – Não tive tempo de deixá-la na gaveta; minha mãe estava no meu quarto. (Abrindo a carta, que estava muito dobrada:) Foi o moleque que me entregou. Escute. (Lendo:) “Minha adorada e crepitante estrela. . .“ (Deixando de ler:) Hem?
MARIQUINHA – Continua.
CECÍLIA, lendo – “Os astros, que brilham nas chamejantes esferas de teus sedutores e atrativos olhos, ofuscaram em tão subido e sublimado ponto o meu amatório discernimento, que por ti me enlouqueceu. Sim, meu bem, um general quando vence uma batalha não é mais feliz do que eu! Se receberes os meus sinceros sofrimentos, serei ditoso; se não, ficarei louco e irei viver na Hircânia, no Japão, nos sertões de Minas, enfim, em toda parte aonde possa encontrar desuma[na]s feras, e lá morrerei. Adeu[s] deste que jura ser teu, apesar da negra e fria morte. O mesmo”. (Deixando de ler:) Não está tão bem escrita? Que estilo! Que paixão, bem? Como estas, ou melhores ainda, tenho lá em casa muitas!
MARIQUINHA – Que te faça muito bom proveito, pois eu não tenho nem uma.
CECÍLIA – Ora veja só! Qual é a moça que não recebe sua cartinha? Sim, também não admira; vocês dois moram em casa.
MARIQUINHA – Mas dize-me, Cecília, para que tem você tantos namorados?
CECÍLIA – Para quê? Eu te digo; para duas coisas: primeira, para divertir-me; segunda, para ver se de tantos, algum cai.
MARIQUINHA – Mau cálculo. Quando se sabe que uma moça dá corda a todos, todos brincam, e todos...
CECÍLIA – Acaba.
MARIQUINHA – E todos a desprezam.
CECÍLIA – Desprezam! Pois não. Só se se é alguma tola e dá logo a perceber que tem muitos namorados. Cada um dos meus supõe-se único na minha afeição.
MARIQUINHA – Tens habilidade.
CECÍLIA – É tão bom estar-se à janela, vendo-os passar um atrás do outro como os soldados que passam em continência. Um aceno para um, uma t[os]sezinha para outro, um sorriso, um escárnio, e vão eles tão contentezinhos...
CENA X
Entra FELÍCIO.
FELÍCIO, entrando – Perdi-o de vista.
CECÍLIA, assustando-se – Ai, que susto me meteu o sr. Felício!
FELÍCIO – Muito sinto que...
CECÍLIA – Não faz mal. (Com ternura:) Se todos os meus sustos fossem como este, não se me dava de estar sempre assustada.
FELÍCIO – E eu não me daria de causar, não digo susto, mas surpresa a pessoas tão amáveis e bela[s] como a senhora dªona Cecília.
CECÍLIA – Não mangue comigo; ora veja!
MARIQUINHA., à parte – Já ela está a namorar o primo. É insuportável.
Primo?
FELÍCIO – Priminha?
MARIQUINHA – Aquilo?
(continua...)
PENA, Martins. Os dois ou o Inglês Maquinista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2164 . Acesso em: 29 jan. 2026.