Por Martins Pena (1846)
ANACLETA – E deixei assim uma habitação de paz por este inferno em que vivo. Oh, mas estou resolvida, tomarei uma resolução. Fugirei desta casa, onde vivo como miserável escrava; irei ter com meus benfeitores, contar-lhes-ei o que tenho sofrido desde que os deixei. Pedirei justiça, para mim e para tua primeira vítima... Oh, recorda-te bem, André, que tua primeira mulher, a infeliz mãe de Balbina, morreu arrebentada de desgostos, e que teus loucos ciúmes abriram-lhe a sepultura...
PEDESTRE – Morreu para minha tranqüilidade; já não é preciso vigiá-la...
ANACLETA – Oh, que monstro!
PEDESTRE – Anacleta! Anacleta! Tu queres pregar-me alguma! Nunca te ouvi falar assim, e se agora o fazes, é que te sentes culpada...
ANACLETA – Não, é que me sinto cansada; já não posso com esta vida; não quero morrer como ela.
PEDESTRE – Até agora tenho-te tratado como um fidalgo, nada te tem faltado, a não ser a liberdade...
ANACLETA, à parte – É o necessário...
PEDESTRE – Confiava em ti... porque tinha sempre a minha porta fechada. Mas minha filha enganou-me, apesar das portas fechadas, e tu também me enganarás...
ANACLETA – Oh!
PEDESTRE, com voz concentrada – Se é que já não me enganaste!
ANACLETA – Isto é muito!
PEDESTRE, pegando-lhe pelo braço – Mulher, se eu tivesse a mais pequena desconfiança, o menor indício que... bem me entendes... eu... eu... te mataria!
ANACLETA, recuando, horrorizada – Ah!
PEDESTRE, caminhando para ela – Sim, a minha afronta eu lavaria no teu sangue, e a minha... (Aqui vê ele no seio da mulher a ponta da carta que Paulino meteu
por baixo da porta e que ela apanhou, e com rapidez a arrebata.)
ANACLETA – Ah! (À parte:) Estou perdida!
PEDESTRE, com a carta na mão – Uma carta! Hoje já são duas! Chovem cartas em minha casa, apesar das portas fechadas! Ela também! (Indo para Anacleta:) De quem é esta carta? Eu tremo de a ler!
ANACLETA – Esta carta?
PEDESTRE – Sim!
ANACLETA – Não sei...
PEDESTRE – Oh! (Abrindo a carta com furor e amarrotando-a nas mãos:) Eila! (Arredando-a dos olhos, todo trêmulo.)
ANACLETA, suplicante – André!
PEDESTRE – A prova da minha desonra! (Tomando-a pelo braço, a conduz para junto da vela que está sobre a mesa.)
ANACLETA – Deixai-me! O que queres de mim?
PEDESTRE, apresentando-lhe a carta à luz da vela – Lê!
ANACLETA – André, piedade! (Muito aterrorizada.)
PEDESTRE – Lê comigo! (Lendo:) “Minha bela Anacleta...
ANACLETA, repetindo – Minha bela Anacleta...
PEDESTRE, lendo – ... Teu marido é um animal...
ANACLETA, repetindo – ... Teu marido é um animal...
PEDESTRE, no mesmo – ... e tu és um anjo.
ANACLETA, no mesmo – ... e tu és um anjo.
PEDESTRE, no mesmo – Esta noite irei ver-te...
ANACLETA, no mesmo – Esta noite irei ver-te...
PEDESTRE, no mesmo – ... e se não tiver a fortuna de encontrar-te...
ANACLETA, no mesmo – ... e se não tiver a fortuna de encontrar-te...
PEDESTRE, no mesmo – ... deixar-te-ei esta carta...
ANACLETA, no mesmo – ... deixar-te-ei esta carta...
PEDESTRE, no mesmo – ... para conheceres quanto te amo...
ANACLETA, no mesmo – ... para conheceres quanto te amo...
PEDESTRE, no mesmo – ... e quanto desprezo o burro do teu marido.”
ANACLETA, no mesmo – ... e quanto desprezo o burro do teu marido.
PEDESTRE, puxando-a para a frente do tablado, encruzando os braços e com grande tranqüilidade – Que tens que dizer?
ANACLETA – Tudo me persegue...
PEDESTRE – E te crimina. (Mudando de voz:) Olha para mim! Reconhecesme?
ANACLETA – Oh, para que deixei eu o Recolhimento para seguir este homem?
PEDESTRE – Já fizeste as tuas orações?
ANACLETA – Que queres tu dizer?
PEDESTRE – Recomenda tua alma a Deus, que eu esperarei um instante.
(Passeia.)
ANACLETA – Oh, André, André, piedade! Escuta-me! (Aqui entra Balbina com uma xícara de café.)
BALBINA – Está o café, meu pai. (Pedestre dá com a mão na xícara e a atira pelos ares.) Ah!
PEDESTRE, voltando-se para Anacleta e desembainhando a espada – Estás pronta?
ANACLETA, agarrando-se com Balbina – Balbina! Balbina!
BALBINA – Ai, ai!
PEDESTRE puxa Anacleta pelo braço, a qual arrasta Balbina consigo – Tu vais morrer, mulher infiel, traidora!
ANACLETA, gritando – Quem me socorre, quem me socorre?
BALBINA, ao mesmo tempo – Meu pai, meu pai!
PEDESTRE – Ninguém agora te arrancaria de minhas mãos! Quero vingar-me! Morre!
ALEXANDRE, do buraco da porta – Tenha mão!
PEDESTRE, ao ouvir esta voz, volta-se e deixa o braço de Anacleta – Ah, negro, diabo!
ANACLETA, vendo-se livre, corre para dentro – Socorro!
PEDESTRE, conhecendo que foi o negro quem falou, segue a Anacleta, furioso – Espera, espera! (Saem ambos de cena.)
BALBINA – Meu pai, meu pai!
ALEXANDRE, do buraco da porta – Psiu, psiu! Balbina, vem cá!
PAULINO, do armário – O que será de mim? Misericórdia, que mortandade!
BALBINA, correndo para Alexandre – Fuja, fuja; senão, mata-me também!
ALEXANDRE, do buraco – Abra a porta, que fugiremos juntos. Já não quero ficar aqui nem um instante.
BALBINA – Ele tirou a chave!
PAULINO, dentro do armário – Olé, o negro quer fugir com a moça! Aonde me meti eu!
ALEXANDRE – Balbina, Balbina, o que há de ser de nós? Quem mandou-me cá vir? Mas eu te amo tanto!
PAULINO, do armário – O caso é esse, agora percebo: disfarçou-se, pintou-se de negro para cá entrar. Olhem que menino! Se eu não estivesse com tanto medo, ria-me do logro que levou o pedestre. (Ouve-se dentro gritos e bulha, como de uma pessoa que rola pelas escadas abaixo.)
(continua...)
PENA, Martins. Os ciúmes de um pedestre ou o terrível capitão do mato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2155 . Acesso em: 29 jan. 2026.