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#Comédias#Literatura Brasileira

O Namorador ou a Noite de São João

Por Martins Pena (1845)

JOÃO – Homem, não me quebre mais a cabeça! Não quero, não quero e não quero, e vá-se com os diabos! Não só de minha presença, como de minha casa. Vá-se, vá-se! (Empurrando.)

JÚLIO, com altivez – Basta, senhor! Até agora recebia uma denegação e com paciência a sofri; mas agora é um insulto!

JOÃO – Seja lá o que quiser.

JÚLIO – E eu não me demorarei um só instante em sua casa.


JOÃO – Faz-me muito favor. (Júlio sai arrebatado.)

CENA X

João, só, (e depois Luís.)

JOÃO – E que tal lhe parece a impertinência? Irra! Casar-se com minha filha! Um pobre diabo que só vive do seu insignificante ordenado. Agora, ainda que fosse rico, e muito rico, não lha dava. (João vai a entrar no quarto e aparece Luís no fundo, gritando.)

LUÍS – Tio João? Tio João?

JOÃO – Outro!

LUÍS, junto dele – Quero pedir-lhe um grande favor. Trata-se de minha prima.

JOÃO, à parte – Mas tu também? (Procura no chão uma pedra. )

LUÍS – Tenho hoje reparado com mais atenção na sua beleza e sabidas qualidades.

JOÃO – Não acho eu uma pedra?

LUÍS – Que procura, tio João? Não sei por que fatalidade tenho eu estado cego a tantas perfeições. (João pega no copo que vê sobre o banco de relva.)

JOÃO – Se me dás mais uma palavra, arrumo-te com este copo pelas ventas.

LUÍS – Olhe que tem um ovo dentro!

JOÃO – Tenha o diabo! Salta, não me esquentes as orelhas!

LUÍS – Não o contrariemos, que ele tem veneta e me perderei. Está bem, tio. Até logo. (Sai.)

CENA XI

João e depois Manuel.

JOÃO, – Ainda virá mais algum? (João vai a entrar no quarto do ilhéu e este aparece do outro lado da cena. João, à parte:) Oh, diabo! (Disfarça o seu intento, fingindo perseguir na parede da casinha um inseto que lhe escapa.)

MANUEL, à parte – Ai, o que está o senhor a fazer? (João continua no mesmo jogo.) A saltar? (Aproximase dele, que faz que o não vê.) Ah, senhor? (João no mesmo jogo.) Senhor? (Pegando-lhe pelo braço:) O que apanha o senhor?

JOÃO, voltando – Quem é? Ah, é você, Sr. Manuel? Homem, estava atrás de uma lagartixa que subiu pela parede.

MANUEL – Ai, senhor, deixe viver o bichinho de Deus.

JOÃO – O que quer comigo?

MANUEL – Tinha um favor que pedir ao senhor, mas envergonho-me.

JOÃO – Pois um homem deste tamanho tem vergonha? Anda, diga o que quer, e depressa, que aqui está muito sereno.

MANUEL – Queria que o senhor me perdoasse os dois meses que faltam para acabar meu trato.

JOÃO – Nada, nada, não pode ser. Dei duzentos mil-réis pela sua passagem e pela de sua mulher, para que me pagassem com os seus trabalhos. Calculo-os a vinte mil-réis por mês. Já lá se vão oito; falta ainda dois para ficarmos justos de conta. Não dispenso.

MANUEL – Mas senhor...

JOÃO – Quando acabar-se o tempo do seu trato, faremos novo ajuste. Não terei dúvida de dar-lhe mais alguma coisa. (À parte:) A minha ilhoazinha não sai daqui.

MANUEL – Tenho trabalhado muito, e já o senhor devia estar contente comigo, e não olhar a tão pouca coisa.

JOÃO – Fale-me amanhã; agora não são horas. Vá arrumar capim na carroça que vai de madrugada para a cidade.

MANUEL – E se o meu trabalho...

JOÃO, empurrando-o – Já lhe disse que amanhã... (Manuel sai. João, só:) Daqui não me sai ele. Virá ainda alguém? (Vai para entrar no quarto e chegam do fundo, correndo, quatro meninos com pistola e bicha na mão e chegam até à frente do tablado.)


MENINO – Vamos fazer uma fortaleza aqui. (Assenta-se no chão.) Juquinha, você faz outra lá. (Assentamse todos.) Enterra as pistolas e as bichas. Eu sou o navio. Hei-de fazer fogo, e você também ajunta a areia... Anda, vem-me ajudar. (João, ao ver os meninos que chegam, quebra uma varinha de arbusto próximo, sai de trás da casinha e caminha para eles. Ao chegar junto, açoita-os com a vara. Os pequenos levantam-se, assustados e correm para dentro, gritando e chorando.)

JOÃO, gritando – Salta para dentro! (Voltando:) Até estes demoninhos vieram atrapalhar-me! Não me fio em crianças. É isto! Convida-se a certas senhoras para passarem a noite em uma casa e levam quantos filhos têm, desde o mais pequeno até o maior, para estratagema, quebrarem e pedincharem tudo quanto vêem e tocam. E importunar a todos os convidados! Deixar-me-ão desta vez entrar? (Vai para a casinha, entra e fecha a porta. Manuel, que nesse mesmo tempo aparece, o vê entrar no seu quarto.)

MANUEL – Entra no nosso quarto? Ai, o que me vale é estar a Maria lá dentro. Ele vai espera-la... Ai! Pois são estas as lagartixas? Lagartixas! (Pega no cesto que está à porta do quarto e com ele atravessa de novo a cena, sempre correndo e sai pela direita. Assim que o ilhéu sai de cena, João abre a janela do quarto que dá para a cena e espreita por ela.)

JOÃO, à janela – Queria Deus que a minha ilhoazinha não tarde. O meu coraçãozinho está pulando de contente! Mas aonde estará ela?

CLARA, do fundo – Ah, Sr. João? Sr. João? (Chamando.)

(continua...)

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