Por Martins Pena (1838)
Juiz − Nem mais nem meios mais; entregue o filho, senão, cadeia.
José da Silva − Eu vou queixar-me ao Presidente.
Juiz − Pois vá, que eu tomarei a apelação.
José da Silva − E eu embargo.
Juiz − Embargue ou não embargue, embargue com trezentos mil diabos, que eu não concederei revista no auto do processo!
José da Silva − Eu lhe mostrarei, deixe estar.
Juiz − Sr. Escrivão, não dê anistia a este rebelde, e mande-o agarrar para soldado.
José da Silva, com humildade − Vossa Senhoria não se arrenegue! Eu entregarei o pequira.
Juiz − Pois bem , retirem-se; estão conciliados. (Saem os dous.) Não há mais ninguém? Bom, está fechada a sessão. Hoje cansaram-me!
Manuel João, dentro − Dá licença?
Juiz − Quem é? Pode entrar.
Manuel João, entrando − Um criado de Vossa Senhoria.
Juiz − Oh, é o senhor? Queira ter a bondade de esperar um pouco, enquanto vou buscar o preso. (Abre uma porta do lado.) Queira sair para fora.
CENA XII
Entra José.
Juiz − Aqui está o recruta; queira levar para a cidade. Deixe-o no quartel do Campo de Santana e vá levar esta parte ao general. (Dá-lhe um papel.)
Manuel João − Sim senhor. Mas, Sr. Juiz, isto não podia ficar para amanhã? Hoje já é tarde, pode anoitecer no caminho e o sujeitinho fugir.
Juiz − Mas aonde há de ele ficar? Bem sabe que não temos cadeias.
Manuel João − Isto é o diabo!
Juiz − Só se o senhor quiser levá-lo para sua casa e prendê-lo até amanhã, ou num quarto, ou na casa da farinha.
Manuel João − Pois bem, levarei.
Juiz − Sentido que não fuja.
Manuel João − Sim senhor. Rapaz, acompanha-me. (Saem MANUEL JOÃO e JOSÉ.)
CENA XIII
Juiz − Agora vamos nós jantar. (Quando se dispõem para sair, batem à porta.) Mais um! Estas gentes pensam que um Juiz é de ferro! Entre quem é!
CENA XIV
Entra Josefa Joaquina com três galinhas penduradas na mão e uma cuia com ovos.
Juiz − Ordena alguma cousa?
Josefa [Joaquina] − Trazia este presente para o Sr. Juiz. Queira perdoar não ser cousa capaz. Não trouxe mais porque a peste deu lá em casa, que só ficaram estas que trago, e a carijó que ficou chocando.
Juiz − Está bom; muito obrigado pela sua lembrança. Quer jantar?
Josefa Joaquina − Vossa Senhoria faça o seu gosto, que este é o meu que já fiz em casa.
Juiz − Então, com sua licença.
Josefa Joaquina − Uma sua criada. (Sai.)
CENA XV
Juiz, com as galinhas nas mãos − Ao menos com esta visita lucrei. Sr. Escrivão, veja como estão gordas! Levam a mão abaixo. Então, que diz?
Escrivão − Parecem uns perus.
Juiz − Vamos jantar. Traga estes ovos. (Saem.)
CENA XVI
Casa de Manuel João. Entram Maria Rosa e Aninha com um samborá na mão.
Maria Rosa − Estou moída! Já mexi dous alqueires de farinha.
Aninha − Minha mãe, aqui está o café.
Maria Rosa − Bota aí. Aonde estará aquele maldito negro?
CENA XVII
Entram Manuel João e José.
Manuel João − Deus esteja esta casa.
Maria Rosa − Manuel João!...
Aninha − Meu pai!...
Manuel João, para José − Faça o favor de entrar.
Aninha, à parte − Meu Deus, é ele!
Maria Rosa − O que é isto? Não foste para a cidade?
Manuel João − Não, porque era tarde e não queria que este sujeito fugisse no caminho.
Maria Rosa − Então quando vais?
Manuel João − Amanhã de madrugada. Este amigo dormirá trancado naquele quarto. Donde está a chave?
Maria Rosa − Na porta.
Manuel João − Amigo, venha cá. (Chega à porta do quarto e diz:) Ficará aqui até amanhã. Lá dentro há uma cama; entre. (JOSÉ entra.) Bom, está seguro. Senhora, vamos para dentro contar quantas dúzias temos de bananas para levar amanhã para a cidade. A chave fica em cima da mesa; lembrem-se, se me esquecer. (Saem MANUEL JOÃO e MARIA ROSA.)
CENA XVIII
Aninha, só − Vou dar-lhe escapula... Mas como se deixou prender?... Ele me contará; vamos abrir. (Pega na chave que está sobre a mesa e abre a porta.) Saia para fora.
José, entrando − Oh, minha Aninha, quanto te devo!
Aninha − Deixemo-nos de cumprimentos. Diga-me, como se deixou prender?
José − Assim que botei os pés fora desta porta, encontrei com o Juiz, que me mandou agarrar.
Aninha − Coitado!
José − E se teu pai não fosse incumbido de me levar, estava perdido, havia ser soldado por força.
Aninha − Se nós fugíssemos agora para nos casarmos?
José − Lembras muito bem. O vigário a estas horas está na igreja, e pode fazer-se tudo com brevidade.
Aninha − Pois vamos, antes que meu pai venha.
José − Vamos. (Saem correndo.)
CENA XIX
Maria Rosa, entrando − Ó Aninha! Aninha” Aonde está esta maldita? Aninha! Mas o que é isto? Esta porta aberta? Ah! Sr. Manuel João! Sr. Manuel João!
Manuel João, dentro − O que é lá?
Maria Rosa − Venha cá depressa. (Entra MANUEL JOÃO em mangas de camisa.)
Manuel João − Então, o que é?
Maria Rosa − O soldado fugiu!
Manuel João − O que dizes, mulher?!
Maria Rosa, apontando para a porta − Olhe!
Manuel João − O diabo! (Chega-se para o quarto.) É verdade, fugiu! Tanto melhor, não terei o trabalho de o levar à cidade.
Maria Rosa − Mas ele não fugiu só...
Manuel João − heim?!
Maria Rosa − Aninha fugiu com ele.
Manuel João − Aninha?!
Maria Rosa − Sim.
(continua...)
PENA, Martins. O Juiz de Paz da Roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17003 . Acesso em: 29 jan. 2026.