Por Martins Pena (1844)
Faustino (levanta-se e vai atrás dela) — Então, o que é isso?... Deixou-me!... Foise!... E esta!... Que farei!... (Anda ao redor da sala como procurando aonde esconder-se) Não sei onde esconder-me... (Vai espiar à porta, e daí corre para a janela) Voltou, e está conversando à porta com um sujeito; mas decerto não deixa de entrar. Em boas estou metido, e daqui não... (Corre para o judas, despe-lhe a casaca e o colete, tira-lhe as botas e o chapéu e arranca-lhe os bigodes) O que me pilhar tem talento, porque mais tenho eu. (Veste o colete e casaca sabre a sua própria roupa, calça as batas, põe o chapéu armado e arranja os bigodes. Feito isto, esconde o corpo do judas em uma das gavetas da cômoda, onde também esconde o próprio chapéu, e toma o lugar do judas) Agora pode vir... (Batem) Ei-lo! (Batem) Aí vem!
CENA V
Capitão e Faustino, no lugar do judas.
Capitão (entrando) — Não há ninguém em casa? Ou estão todos surdos? Já bati palmas duas vezes, e nada de novo! (Tira a barretina e a põe sobre a mesa, e assenta-se na cadeira) Esperarei.(Olha ao redor de si, dá com os olhos no judas; supõe à primeira vista ser um homem, e levanta-se rapidamente) Quem é? (Reconhecendo que é um judas:) Ora, ora, ora! E não me enganei com o judas, pensando que era um homem? Oh, ah, está um figurão! E o mais é que está tão bem feito que parece vivo. (Assenta-se) Aonde está esta gente? Preciso falar com o cabo José Pimenta e... ver a filha. Não seria mau que ele estivesse em casa; desejo ter certas explicações com a Maricota. (Aqui aparece na porta da direita Maricota, que espreita, receosa. O Capitão a vê e levanta-se) Ah!
CENA VI
Maricota e os mesmos.
Maricota (entrando, sempre receosa e olhando para todos os lados) — Sr. Capitão!
Capitão (chegando-se para ela) — Desejei ver-te, e a fortuna ajudou-me. (Pegandolhe na mão) Mas que tens? Estás receosa! Teu pai?
Maricota (receosa) — Saiu.
Capitão — Que temes então?
Maricota (adianta-se e como que procura um objeto com os olhos pelos cantos da sala) — Eu? Nada. Estou procurando o gato...
Capitão (largando-lhe a mão) — O gato? E por causa do gato recebe-me com esta indiferença?
Maricota (à parte) — Saiu. (Para o Capitão) Ainda em cima zanga-se comigo! Por sua causa é que eu estou nestes sustos.
Capitão — Por minha causa?
Maricota — Sim.
Capitão — E é também por minha causa que procura o gato?
Maricota — É, sim!
Capitão — Essa agora é melhor! Explique-se...
Maricota (à parte) — Em que me fui eu meter! O que lhe hei-de dizer?
Capitão — Então?
Maricota — Lembra-se...
Capitão — De quê?
Maricota — Da... da... daquela carta que escreveu-me anteontem em que me aconselhava que fugisse da casa de meu pai para a sua?
Capitão — E o que tem?
Maricota — Guardei-a na gavetinha do meu espelho, e como a deixasse aberta, o gato, brincando, sacou-me a carta; porque ele tem esse costume...
Capitão — Oh, mas isso não é graça! Procuremos o gato. A carta estava assinada e pode comprometer-me. É a última vez que tal me acontece! (Puxa a espada e principia a procurar o gato)
Maricota (à parte, enquanto o Capitão procura) — Puxa a espada! Estou arrependida de ter dado a corda a este tolo. (O Capitão procura o gato atrás de Faustino, que está imóvel; passa por diante e continua a procurá-lo. Logo que volta as costas a Faustino, este mia. O Capitão volta para trás repentinamente. Maricota surpreende-se)
Capitão — Miou!
Maricota — Miou?!
Capitão — Está por aqui mesmo. (Procura)
Maricota (à parte) — É singular! Em casa não temos gato!
Capitão — Aqui não está. Onde, diabo, se meteu?
Maricota (à parte) — Sem dúvida é algum da vizinhança. (Para o Capitão:) Está bom, deixe; ele aparecerá.
Capitão — Que o leve o demo! (Para Maricota!) Mas procure-o bem até que o ache, para arrancar-lhe a carta. Podem-na achar, e isso não me convém. (Esquece-se de embainhar a espada) Sobre esta mesma carta desejava eu falar-te.
Maricota — Recebeu minha resposta?
Capitão — Recebi, e a tenho aqui comigo. Mandaste-me dizer que estavas pronta a fugir para minha casa; mas que esperavas primeiro poder arranjar parte do dinheiro que teu pai está ajuntando, para te safares com ele. Isto não me convém. Não está nos meus princípios. Um moço pode roubar uma moça — é uma rapaziada; mas dinheiro... é uma ação infame!
Maricota (à parte) — Tolo!
Capitão — Espero que não penses mais nisso, e que farás somente o que te eu peço. Sim?
Maricota (à parte) — Pateta, que não percebe que era um pretexto para lhe não dizer que não, e tê-lo sempre preso.
Capitão — Não respondes?
Maricota — Pois sim. (A parte) Era preciso que eu fosse tola. Se eu fugir, ele não se casa.
Capitão — Agora quero sempre dizer-te uma cousa. Eu supus que esta história de dinheiro era um pretexto para não fazeres o que te pedia.
Maricota — Ah, supôs? Tem penetração!
Capitão — E se te valias desses pretextos é porque amavas a...
Maricota — A quem? Diga!
Capitão — A Faustino.
Maricota — A Faustino? (Ri às gargalhadas) Eu? Amar aquele toleirão? Com olhos de enchova morta, e pernas de arco de pipa? Está mangando comigo. Tenho melhor gosto. (Olha com ternura para o Capitão)
Capitão (suspirando com prazer) — Ah, que olhos matadores! (Durante este diálogo Faustino está inquieto no seu lugar)
Maricota —
O Faustino serve-me de divertimento, e se algumas vezes lhe dou atenção, é para
melhor ocultar o amor que sinto por outro. (Olha com ternura para o Capitão.
Aqui aparece na porta do fundo José Pimenta. Vendo o Capitão com a filha, pára
a escuta)
(continua...)
PENA, Martins. O Judas em Sábado de Aleluia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17002 . Acesso em: 28 jan. 2026.