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#Comédias#Literatura Brasileira

Verso e Reverso

Por José de Alencar (1857)

Ernesto — Quais são eles? Os passeios dos arrabaldes? — Um banho de poeira e de suor. Os bailes? — Um suplício para os calos e um divertimento só para as modistas e os confeiteiros. O teatro lírico? — Uma excelente coleção de medalhas digna do museu. As moças?... Neste ponto bem vê que não posso ser franco, prima. Júlia — Fale; não me importa. Tenho até curiosidade em saber o que pensa das moças do Rio. Fale!

Ernesto — Pois bem; já que manda, dir-lhe-ei que isto de moça é espécie desconhecida aqui na corte.

Júlia — Como? Não sei o que quer dizer.

Ernesto — Quero dizer que não há moças no Rio de Janeiro.

Júlia — E eu o que sou?

Ernesto — Pior é esta! Não falo dos presentes.

Júlia — Bem; mas explique-se.

Ernesto — No Rio de Janeiro, prima, há balões, crinolinas, chapéus à pastora, bonecas cheias de arames, tudo o que a Sra. quiser; porém, moças, não; não posso admitir. Ignoro que haja no mundo uma degeneração da raça humana que tenha a cabeça mais larga do que os ombros; que carregue uma concha enorme como certos caramujos; que apresente enfim a forma de um cinco.

Júlia — De um cinco? Que esquisitice é esta?

Ernesto — É a verdade. Olhe uma moça de perfil, e verá um cinco perfeito. O corpo é a haste fina, o balão é a volta, e o chapéu arrebitado é o corte. (Apontando para o espelho fronteiro) Olhe! Lá está um.

Júlia (voltando-se) — Aonde?

Ernesto (rindo-se) — Ah! Perdão, prima, era a Sra.

Júlia — Obrigada pelo cumprimento! (Senta-se)

Ernesto — Ficou zangada comigo, Júlia?

— Não; zangada, por quê?

— Cuidei. (Uma pausa)

Júlia — À vista disto o primo não viu no Rio de Janeiro nada que lhe agradasse?

Ernesto — Nada absolutamente, não; vi alguma coisa, mas...

Júlia — Mas. . . Acabe!

Ernesto — O que me agrada é justamente o que não me persegue, o que me foge mesmo.

Júlia — Diga o que é?

Ernesto — Não posso... Não devo...

Júlia — Ora quer fazer mistério.

Ernesto — Pois bem; vai por sua conta; depois não se zangue. D. Mariana, faça que não ouve. São seus olhos, Júlia!

D. Mariana — Hein!...

Júlia (corando) — Ah! Ernesto! Quer zombar de mim?

Ernesto — Olhe que eu não sou cá do Rio de Janeiro.

Júlia — Não importa; mas é estudante.

Ernesto — Boa maneira de lembrar-me a minha humilde posição.

Júlia — Primo, não interprete mal as minhas palavras.

Ernesto — Oh! Não pense que desconfio, não! Sei que um estudante é um animal que não tem classificação social; pode ser tudo, mas ainda não é nada. É uma letra de câmbio que deve ser descontada pelo futuro, grande capitalista de sonhos e de esperanças. Ora as moças têm medo do futuro, que para elas quer dizer o cabelo branco, a ruga, o carmim, o pó de arroz, et caetera.

Júlia — Isto são as moças vaidosas que só vivem de frivolidades, e eu creio, meu primo, que o Sr. não deve fazer esta idéia de mim; ao contrário...

Braga (adianta-se entre os dois) — Minha Sra., os cortes de vestidos estão às ordens de V.Ex.a.

Ernesto (consigo) — Maldito caixeiro!

Júlia — Já vou.

Ernesto — Adeus, Júlia, lembranças a meu tio, D. Mariana...

Júlia — Venha cá, Ernesto, espere por papai.

Ernesto — Não posso; adeus. (Sai)

CENA XIV

Júlia, D. Mariana

Júlia — Não sei por que me interessa esse caráter original. Tenho-lhe amizade já, e apenas o vi há oito dias, e com esta a segunda vez.

D. Mariana — Ouviu o que ele disse?... Seus olhos...

Júlia — Qual, D. Mariana, não creia. Cumprimentos de moço... Parte amanhã!...

D. Mariana — Isto diz ele.

Júlia — Ora, deixe-me escolher os vestidos. Vamos!...

(Entram no interior da loja)

CENA XV

Filipe, D. Luísa


D. Luísa — O Sr. tenha a bondade de ler este papel.

Filipe — Vejamos. (Lê) A Sra. é viúva então?

D. Luísa — É verdade; perdi meu marido; estou na maior desgraça; nove filhinhos dos quais o maior não tem cinco anos.

Filipe — Nesse caso nasceram de três meses como os cordeiros. Nove filhos em cinco anos!

D. Luísa — São gêmeos, Sr.

Filipe — Ah! tem razão! Foi uma ninhadazinha de pintos.

D. Luísa — O Sr. está zombando de mim? Se não fosse a dor de ver os pobrezinhos nus, chorando de fome, coitadinhos, não me animaria a recorrer à esmola das pessoas caridosas.

Filipe — Fique certa que elas não deixarão de ampará-la nessa desgraça.

D. Luísa — E o Sr.... pouco mesmo...

Filipe — Eu, minha Sra., não posso ser insensível ao seu infortúnio; a Sra. está justamente no caso de ser feliz. Não há desgraça que sempre dure. Só a sorte grande a pode salvar.

D. Luísa — Que diz, senhor?

Filipe (tirando os bilhetes) — Um meio, um quarto, um vigésimo! Não perca esta ocasião; não rejeite a fortuna que a procura.

D. Luísa — Ora, senhor! Não se ria da desgraça do próximo.

Filipe — Eu rir-me da desgraça dos outros! Eu que vivo dela!

D. Luísa — Estou quase aproveitando os cinco mil-réis de há pouco.

Filipe — Vamos, resolva-se.

D. Luísa — Está bom! Sempre compro um quarto.

Filipe — Antes um meio.

D. Luísa — Não quero; há de ser um quarto.

Filipe — Aqui tem. (A meia voz) E pede esmolas!...

(Entra uma menina de realejo que pede a gorjeta com um pandeiro)

D. Luísa — Sai-te, vadia! A polícia não olha para estas coisas.

Filipe — É verdade; não sei para que servem as autoridades.

D. Luísa — Deixam as pessoas honestas serem perseguidas por esta súcia de mendigos...

Filipe — Que não têm profissão.

(Saem à direita; Júlia, D. Mariana e BRAGÁ entram do interior da loja)

CENA XVI

Júlia, D. Mariana, Braga

(Braga traz uma caixa de corte de vestido)

(continua...)

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