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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Nessa ocasião, porém, a moça fez exceção a seus hábitos de sobriedade; ela que não gostava de especiarias, e só de longe em longe bebia algumas gotas de licor, quis experimentar quanto molho e condimento picante havia em casa; e para remate bebeu um cálice de Xerez. 

D. Firmina sem esquecer o almoço, continuava a observar de parte a menina, cada vez mais convencida da existência de um acontecimento importante que havia alterado a calma habitual da moça. 

Esse acontecimento, na opinião da viúva, não podia ser outro senão aquele que tamanha influência exerce nas meninas de dezoito anos, sobretudo se não dependem de ninguém para dispor de si. 

D. Firmina tinha pois como certo que Aurélia, a desdenhosa, sentira afinal uma inclinação; estava ansiosa a viúva, para conhecer o feliz que tivera o poder de cativar a altiva rainha dos salões, tão adorada, quanto fria e indiferente. 

Revolvia na mente as recordações da noite anterior para certificar-se que não aparecera no baile nenhum moço desconhecido de quem Aurélia se pudesse apaixonar de súbito. Devia ser pois qualquer dos antigos adoradores, dos que ela escarnecia, que por alguma circunstância inexplicável alcançara render-lhe enfim o coração. 

Não se pode conter a viúva; em risco de desagradar a menina, dirigiu-lhe uma pergunta indireta com que se propunha a entabular a conversa, e conforme a resposta dirigí-la para o ponto. 

- Não sei que lhe acho hoje, Aurélia! Parece-me tão contente, e até mais bonita, se é possível, do que de costume!

- Deveras! 

- Não é exageração, não. Olhe! As moças quando se vestem para um baile onde esperam encontrar alguém, ficam mais bonitas do que são. Mas você está hoje ainda mais bonita do que nos bailes. Nunca lhe vi assim. Aqui anda volta de algum segredinho! 

- Quer saber qual é? perguntou Aurélia com um sorriso. 

- Não sou curiosa; replicou a viúva sentindo o pungir daquele sorriso.

- Resolvi ser freira! 

- Está bom! 

- Mas meu convento há de ser este mesmo mundo em que vivemos, que nenhum outro teria mais penitências e mortificações para mim. 

Desmentindo logo após a gravidade destas palavras com uma risada galhofeira, Aurélia deixou na sala de jantar D. Firmina, espantada de que uma menina imensamente rica e formosa, desejada por todos, pudesse ter semelhantes pensamentos, ainda mesmo por gracejo. 

Aurélia que se dirigira ao seu toucador, sentou-se a uma escrivaninha de araritá guarnecida de relevos de bronze dourado e escreveu uma carta de poucas linhas. 

A todos os pormenores dessa comezinha operação, no dobrar a folha de papel, encerrá-la na capa, derreter o lacre e imprimir o sinete, a moça deliberadamente aplicava a maior atenção e esmero. 

Ou essa carta era destinada a quem tudo lhe merecia, ou nesse apuro e cuidado buscava Aurélia disfarçar a hesitação que a surpreendera no momento de realizar uma idéia anteriormente assentada. 

Depois de sobrescrita a carta, a moça tirou do segredo da secretária um cofre cor de sândalo embutido de marfim. 

Havia ali entre cartas e flores murchas um cartão de visita, já amarelo, que ela escondeu no bolso do roupão, depois de guardado na sua carteirinha de veludo. 

Ao som do tímpano apareceu um criado. Aurélia entregou-lhe a carta com um gesto vivo e a voz breve e receosa de súbito arrependimento. 

- Para o Sr. Lemos! Depressa! 

Sentiu então Aurélia essa quietude que sucede às lutas do coração. Ela tinha afinal resolvido o problema inextricável de sua vida; e em vez de abandonar-se ao acaso e deixarse levar pelo turbilhão do mundo, achara em sua alma a força precisa para dirigir os acontecimentos e dominar o futuro. 

Daí provinha a calma de que revestia-se ao deixar o toucador e que outra vez imprimia à sua beleza uma doce expressão de melancolia e resignação. 

D. Firmina como de costume, esperava que Aurélia dispusesse a maneira por que passariam a manhã, pois a viúva não tinha outra ocupação que não fosse agradar à menina, fazer-lhe companhia e prestar-se a todas as suas vontades e caprichos. 

Para isto recebia além do tratamento uma boa mesada que ia acumulando para os tempos difíceis, como já os havia passado logo depois da perda do marido. 

- Você não sai hoje, Aurélia? 

- Pode ser. Mas não se constranja por meu respeito. 

- Há de ficar sozinha? 

- Tenho em que empregar o tempo. Um negócio grave! Tornou a menina sorrindo.

- É já alguma penitenciazinha? 

- Ainda não; é a profissão de noviça. 

Nessa ocasião e no meio das risadas da menina, anunciaram o sr. Lemos, que foi imediatamente introduzido na sala. 

- Recebi sua carta em caminho; ia ao Machado. Estou às suas ordens, Aurélia. 

Era o senhor Lemos um velho de pequena estatura, não muito gordo, mas rolho e bojudo como um vaso chinês. Apesar de seu corpo rechonchudo tinha certa vivacidade buliçosa e saltitante que lhe dava petulâncias de rapaz, e casava perfeitamente com os olhinhos de azougue. 

Logo à primeira apresentação reconhecia-se o tipo desses folgazões que trazem sempre um provimento de boas risadas com que se festejam a si mesmos. 

(continua...)

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