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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Em compensação porém outro quadro mais cheio desenhou-se no claro do arvoredo. Era formado por uma inglesa gorda, de meia-idade, dessas mulheres que teimam em não envelhecer, e por um português magro, desses homens que aos quarenta anos envelhecem sem cerimônia. 

Estas duas criaturas eram o epigrama vivo uma da outra. Montada a cavalo, com um chapéu de abas enormes, a inglesa parecia, relevem a comparação, um queijo londrino posto em prato alto e coberto com a tampa de cristal. O português, esguio e curvado sobre a mula que o levava, com um chapéu afunilado, era a perfeita imagem de uma salsicha assada num espeto. 

Para que o contraste fosse perfeito, a mulher falando ao homem, estropiava o português de uma maneira horrível; e o homem, escutando-a atentamente como se a compreendesse, arranjava de vez em quando no fundo da garganta um grunhido que tinha pretensão de ser um yes, como uma careta tem a pretensão de ser um sorriso. 

Ricardo vendo o segundo painel sentiu na vista uma sensação igual à do paladar que, saboreando a polpa deliciosa de um cambucá, sentisse de repente o gosto do pepino. Fechou os olhos enquanto o mútuo epigrama em carne e osso passava, acompanhado por um pajem de libré. 

Um novo gorjeio de riso melodioso derramou-se pela solidão; porém Ricardo não ouviu mais do que um eco remoto. 

- De que se ri, menina? perguntou a mestra em inglês. Why do you laugh, baby?

- Bonito romance, Mrs. Trowshy! respondeu a moça na mesma língua.

- Que título tem? 

- Título!...replicou a moça rindo. Não está escrito ainda! Se agora mesmo eu vi o primeiro capítulo!

- Não entendo. 

- Ande lá, Mrs. Trowshy! E a senhora bem caladinha!...

- Mas o que é? 

- Não viu um moço que estava recostado na grama ao lado do caminho?

-      Onde?... Não vi nada! 

- Sim? Não me engana! Pois o moço tinha uma flor na mão, creio que era um girassol, e pensando que eu não o via, ou talvez que era outra pessoa, dava tais beijos na flor, que de cada beijo comia um pedaço. 

- Oh! Oh! engraçado! Exclamava a mestra com um riso puro cockney. 

- Espere; o mais interessante é que ele não cansava de dizer enquanto beijava o seu girassol: My love, my soul, my darling Harriet, my pretty Mrs. Trowshy!

-       Baby, baby!... repetia a mestra afogada em riso. 

O português não entendera meia palavra do diálogo travado em inglês; mas ele julgava que, sendo incumbido de acompanhar a moça e a mestra na qualidade de criado grave, devia compor-se à feição daqueles de quem estava constituído a sombra. 

- Você tem idéias, menina! 

- É sério, Mrs. Trowshy. Palavra que vi o moço. E a senhora também; não disfarce. 

A mestra voltou-se gravemente para o criado, e com os dentes cerrados para destrinçar as palavras portuguesas, como se fossem cabeloiro, disse mais ou menos isto: 

- Senhor Daniel, nós ver young gentleman? 

- Iuh!... iuh!... iuh!... respondeu o Sr. Daniel que ficara em branco. 

- Não disse? exclamou a moça desatando a risada com extremo prazer. 

- Iuh!... iuh!... fez a mestra arremedando o português. Que quer dizer iuh?... 

Neste momento um cavaleiro a galope assomou na curva do caminho, e encontrou-se de frente com a moça e sua comitiva. Era Fábio que voltava do seu passeio gorado; ao avistar o grupo, moderou o andar do animal para melhor examinar as pessoas, com especialidade a gentil amazona. 

Cumprimentou respeitosamente a moça, que retribuiu-lhe com uma inclinação da fronte, bastante graciosa para revelar a fina educação, mas tão reservada e altiva que não permitia a quem recebesse dirigir-lhe uma palavra, ou aproximar-se. 

O “Galgo” e o formoso isabel também se cortejaram: o cavalo brasileiro, vivo, ardente e prazenteiro, enfreando-se garboso e soltando um ligeiro nitrido de prazer; o cavalo do Cabo, com o cumprimento protetor que um ministro enfatuado se digna deferir a um deputado novel. 

Como o jovem deputado, o jovem corcel, vendo aquela fatuidade, sentiu certo prurido na pata, mas pelo respeito ao cavaleiro que o montava, pela decência devida à boa sociedade, e sobretudo pela educação que lhe dera o dono, desprezou a arrogância do colega. 

- É este o moço, menina? perguntou a inglesa motejando. 

- Não, Mrs. Trowshy. Este é outro: é rival do primeiro, replicou a moça. Não viu que cumprimento lhe fez? Creio que teremos duelo! É como há de acabar o romance! 

E o riso que se escondera nas covinhas da face, quando se aproximara um estranho, voltou de novo ao lábio da moça.

- Hop! hop! exclamou ela, desaparecendo em um tempo de galope. 

 

III 

 

A pouca distância, Fábio tendo apressado a marcha do animal, ouviu uma voz sua conhecida que recordava à surdina um tema da Norma. 

- Ainda estás por cá, Ricardo? disse ele. Parece que não te lembras do almoço? 

Ricardo, que estava embrulhando os lápis e fechando o álbum para ir-se, ergueu a cabeça surpreso. 

- Oh! E o piquenique? 

(continua...)

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