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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Mas o coronel por excelência, aquele em quem o povo havia personificado o título, como o mais bravo e digno, era Bento Gonçalves. De uma à outra fronteira da província, os estancieiros muitas vezes não sabiam ou não se lembravam quem era o presidente e o comandante das armas; mas qualquer peão ouvindo falar no coronel, sabia de quem se tratava; e não se metessem a tasquinhar nele, que a faca de ponta saltava logo da bainha.  

Continuava a prática entre os fregueses da venda: 

— Cá por mim, se eu fosse o coronel, o que fazia era passar uma coleira vermelha ao pescoço do Lavalleja. 

Estas palavras eram de um carneador. Coleira chamava ele no seu estilo pitoresco ao degolo que todas as manhãs fazia nas reses destinadas ao corte da charqueada. 

— Ora, que mal fez o homem? 

— Já se esqueceu do levante de Montevidéu? 

— Não vejo crime em libertar um homem sua pátria, acudiu o Lucas Fernandes. Fez ele muito bem, e nós cá não estamos muito longe de seguir o mesmo caminho. As coisas vão mal; o governo do Rio não dá importância aos homens da província. Já não demitiram o coronel porque têm medo.  

— Lá isso é verdade! Atrevam-se que hão de ver o bonito. 

— Não é por falta de vontade dos de Montevidéu que não cessam de pedir. 

— Pudera! Se não fosse o coronel, entravam eles por esta fronteira como por sua casa. 

Eram os pródromos da revolução que devia prorromper três anos depois. A semente aí estava lançada na população, e se desenvolvia com o vento sedicioso que soprava do Prata. Uma voz infantil soara na rua perguntando: 

— Papai está aí? 

Lucas Fernandes voltou-se para a menina que subia os degraus do alpendre.

— Que queres, Catita? 

— Já se foi a tropa, papai? 

— Pois não viste? 

— Ora! cuidei que iam brigar! 

— Olhem a pequena! exclamou o ferrador a rir. Então você queria ver-nos brigar com os castelhanos? 

— Queria; há de ser bonito! 

— Assim, gauchinha! acudiu um tropeiro repuxando o bigode. 

 — Ainda hás de ter esse divertimento, Catita, redargüiu o Lucas Fernandes. Tão depressa achasses tu um bom marido. 

— Pois não há de achar? Tão guapa moçoila! Aqui estou eu que se ela não refugar... Hein! Catita, que diz? Há de ser minha noiva.  

— Quem conta com soldado? O noivo dela é cá o degas, que já nos ajustamos! Tornou o tropeiro piscando o olho. 

Sorria no entanto a menina com certo arzinho de malícia que frisava o botão de rosa da boquinha a mais gentil. Ao mesmo tempo movendo lentamente a fronte em sinal de recusa, meneava as duas longas tranças de cabelos negros, que, ondeando pelas espáduas, desciam até à bainha da saia curta de lila encarnada com vivos pretos. 

Era realmente um feitiço a Catita. Seu talhe de treze anos, esbelto e airoso, não tinha as formas da donzela, mas já no requebro faceiro ressumbrava a graça feminina. Os olhos negros, como os cabelos, ela os trazia sempre a meio  vendados pelas róseas pálpebras; por isso, quando alguma vez se desvendavam, parecia que seu rosto se tinha banhado em jorros de luz. 

A tez, quem a visse, em repouso, sob a negra madeixa, cuidaria ser alva; mas nas inflexões do colo e dos braços percebia-se, como sob a transparência da opala, uns reflexos de ouro fusco. Então conhecia-se que era morena; e o tom cálido de sua cútis lembrava o aspecto das brancas praias de areia, iluminadas pelos últimos raios do sol. 

— Estão aí perdendo seu tempo. Ela já me deu sua palavra. Não é, moça? 

— Sai-te, gabola, que o dunga está aqui, disse um peão plantando-se no meio da casa com a mão esquerda no quadril, e a direita no ar brandindo a faca. 

— Está bem, não vai a brigar, acudiu Lucas Fernandes rindo. Qual deles escolhes, Catita?

— Eu, papai? 

— Pois então? 

— Eu... disse a menina esticando a perna bem torneada, e arqueando o pezinho calçado com um sapato de marroquim azul. 

Suspensa um momento nessa figura de dança, enquanto percorria com olhar brejeiro os sujeitos da roda, acabou a frase descrevendo uma pirueta graciosa. 

— Eu não escolho nenhum! 

— Ora aí está! disse o Lucas soltando uma gargalhada. 

— Qual! Já está fazendo melúrias. 

— Meu noivo... Querem saber qual é? 

— Então sempre escolhe! 

— Ai que já estou me lambendo! 

— Quem é? 

— Olhe! 

No canto oposto do alpendre, estava o Manuel Canho, sentado no parapeito, com o cigarro na boca, e a vista divagando pelos campos que se estendiam além do córrego, às abas da cidade. Inteiramente alheio ao que passava junto, o gaúcho parecia de todo absorvido em suas cogitações. 

Esta expressão de recolho íntimo apagava certa aspereza de sua fisionomia. Visto assim de perfil, com a fronte descoberta, os cabelos que a brisa agitava, e o talhe desenhado pelo traje pitoresco do gaúcho, era sem dúvida um bonito rapaz. 

Foi a ele que se dirigiu Catita; e tocando-lhe no ombro, voltada para os outros, disse: 

— Este! 

— Não vale! exclamou o peão. 

Sentindo no ombro a mão da menina, o gaúcho voltou-se com um olhar interrogador. 

— É você que eu quero para meu noivo, disse-lhe Catita a sorrir. 

— Quando for viúva, então sim, serei seu noivo! respondeu o gaúcho em amargo tom de ironia. 

Afastou-se a menina com um espanto misturado de pesar. Da gente da roda, uns não viram no dito do gaúcho mais do que uma chufa, e riram; outros não lhe deram atenção. 

(continua...)

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