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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

EDUARDO - Não há dúvida; mas não as comprei pelo nome, achei-as bonitas. Queres fumar?

AZEVEDO - Aceito. Esqueci o meu porte-cigarres. São excelentes os teus charutos. Onde os compras? No Desmarais?

EDUARDO - Onde os encontro melhores. (PEDRO acende uma vela.)

PEDRO (baixo) - Rapaz muito desfrutável, Sr. moço! Parece cabeleireiro da Rua do Ouvidor!

EDUARDO - Cala-te!

AZEVEDO (acende o charuto) - Obrigado!... Eis o que se chama em Paris - parfumer la causerie!


CENA XIII

EDUARDO, AZEVEDO


EDUARDO - Com que então, vais te casar? Ora quem diria que aquele Azevedo, que eu conheci tão volúvel, tão apologista do celibato...

AZEVEDO - E ainda sou, meu amigo; dou-te de conselho que não te cases. O celibato é o verdadeiro estado!... Lembra-te que Cristo foi garçon!

EDUARDO - Sim; mas as tuas teorias não se conformam com esse exemplo de sublime castidade!

AZEVEDO - Considera, meu caro, a diferença que vai da divindade ao homem.

EDUARDO - Mas enfim, sempre te resolveste a casar?

AZEVEDO - Certas razões!

EDUARDO - Uma paixão?

AZEVEDO - Qual! Sabes que sou incapaz de amar o quer que seja. Algum tempo quis convencer-me que o meu eu amava a minha bête, que era egoísta, mas desenganei-me. Faço tão pouco caso de mim, como do resto da raça humana.

EDUARDO - Assim, não amas a tua noiva?

AZEVEDO - Não, decerto.

EDUARDO - É rica, talvez; casas por conveniências?

AZEVEDO - Ora, meu amigo, um moço de trinta anos, que tem, como eu, uma fortuna independente, não precisa tentar a chasse au mariage. Com trezentos contos pode-se viver.

EDUARDO E viver brilhantemente; porém não compreendo então o motivo...

AZEVEDO - Eu te digo! Estou completamente blasé, estou gasto para essa vida de flaneur dos salões; Paris me saciou. Mabille e Chôteau des Fleurs embriagaram-me tantas vezes de prazer que me deixaram insensível. O amor hoje é para mim um copo de Cliqcot que espuma no cálice, mas já não me tolda o espírito!

EDUARDO - E esperaste chegar a este estado para te casares?

AZEVEDO - Justamente. Tiro disso duas conveniências: a primeira é que um marido como eu está preparado para desempenhar perfeitamente o seu grave papel de carregador do mantelete, do leque ou do binóculo, e de apresentador dos apaixonados de sua mulher.

EDUARDO - Com efeito! Admiro o sangue frio com que descreves a perspectiva do teu casamento.

AZEVEDO - Chacun son tour, Eduardo, nada mais justo. A segunda conveniência, e a principal, é que, rico, independente, com alguma inteligência, quanto basta para esperdiçar em uma conversa banal, resolvi entrar na carreira pública.

EDUARDO - Seriamente?

AZEVEDO - Já dei os primeiros passos; pretendo a diplomacia ou a administração.

EDUARDO - E para isso precisa casar?

AZEVEDO - Decerto!... Uma mulher é indispensável, e uma mulher bonita!... É o meio pelo qual um homem se distingue no grand monde!... Um círculo de adoradores cerca imediatamente a senhora elegante, espirituosa, que fez a sua aparição nos salões de uma maneira deslumbrante! Os elogios, a admiração, a consideração social acompanharão na sua ascensão esse astro luminoso, cuja cauda é uma crinolina, e cujo brilho vem da casa do Valais ou da Berat, à custa de alguns contos de réis! Ora, como no matrimônio existe a comunhão de corpo e de bens, os apaixonados da mulher tornam-se amigos do marido, e vice-versa; o triunfo que tem a beleza de uma, lança um reflexo sobre a posição do outro. E assim consegue-se tudo!

EDUARDO - Tu gracejas, Azevedo; não é possível que um homem aceite dignamente esse papel. A mulher não é, nem deve ser, um objeto de ostentação que se traga como um alfinete de brilhante ou uma jóia qualquer para chamar a atenção!

AZEVEDO - Bravo! Fizeste a mais justa das comparações, meu amigo! Disseste com muito espírito; a mulher é uma jóia, um traste de luxo... E nada mais!

EDUARDO - Ora, não acredito que fales seriamente!

AZEVEDO - Podes não acreditar, mas isso não impede que a realidade seja essa. Estás ainda muito poeta, meu Eduardo! Vai a Paris e volta! Eu fui criança no espírito e voltei com a razão de um velho de oitenta anos!

EDUARDO - Mas com o coração pervertido!... Ouve, Azevedo. Estou convencido que há um grande erro na maneira de viver atualmente. A sociedade, isto é, a vida exterior, tem-se desenvolvido tanto que ameaça destruir a família, isto é, a vida íntima. A mulher, o marido, os filhos, os irmãos, atiram-se nesse turbilhão dos prazeres, passam dos bailes aos teatros, dos jantares às partidas; e quando, nas horas de repouso, se reúnem no interior de suas casas, são como estrangeiros que se encontram um momento sob a tolda do mesmo navio para se separarem logo. Não há ali a doce efusão dos sentimentos, nem o bem-estar do homem que respira numa atmosfera pura e suave. O serão da família desapareceu; são apenas alguns parentes que se juntam por hábito, e que trazem para a vida doméstica, um, o tédio dos prazeres, o outro, as recordações da noite antecedente, o outro, o aborrecimento das vigílias!

AZEVEDO - E que concluis desta tirada filosófico-sentimental?

(continua...)

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