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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

— Da Europa. Apenas desembarquei, meti-me num carro, e fui passear. Vinte dias embarcada! Sabe o que é isto? Tinha saudade das árvores e dos campos de minha terra, que eu não via há oito meses! Que passeios encantadores por aquelas quintas cobertas de mangueiras, que bordam as margens do rio! Havia uma sobretudo na Soledade, que me encantou: era uma casinha muito alva que aparecia no fundo de uma rua de arvoredo sombrio; mas tudo tão gracioso, tão bem arranjado que parecia uma pintura. Duas senhoras, uma já de idade, que me pareceu a mãe, e outra ainda mocinha e muito bonita, passeavam pela quinta colhendo flores e frutas. Mandei parar o carro, e fiquei olhando com inveja para a casa e as duas senhoras, pensando na vida tranqüila e sossegada que se devia viver naquele retiro. 

 

— A senhora me faz saudades de minha terra. Lembrei-me de minha casa, e das tardes em que passeava assim por aqueles sítios com minha mãe e minha irmã. 

 

— O senhor tem mãe e irmã! Como deve ser feliz! disse Lúcia com sentimento. 

 

— Quem é que não tem uma irmã! respondi-lhe sorrindo. E minha mãe ainda é muito moça para que eu tivesse a desgraça de a haver perdido. 

 

— Perdi a minha muito cedo e fiquei só no mundo; por isso invejo a felicidade daqueles que têm uma família. Há de ser tão bom a gente sentir-se amada sem interesse! 

 

Depois de uma hora de conversa despedi-me, e voltei sem ter arriscado um gesto ou uma palavra duvidosa. 

 

— Já vai? disse Lúcia vendo-me tomar o chapéu. 

 

— Não posso demorar-me mais tempo. Se a minha visita não lhe aborrece, voltarei outro dia. 

 

— Deu-me tanto prazer! Até amanhã; sim? 

 

E apertou-me a mão cordialmente. 

 

Na rua achei-me tão ridículo com os meus vinte e cinco anos e os meus escrúpulos extravagantes, que estive para voltar. Como podia eu temer um engano, depois do que sabia dessa mulher? 

 

Encontrei-me à tarde com Sá no Hotel da Europa, onde costumava jantar. Estava ainda muito viva a lembrança do que me sucedera naquela manhã para não aproveitar a ocasião de falar-lhe a respeito, tendo porém o cuidado de ocultar o papel que havia representado na pequena comédia. 

 

— Tens visto a Lúcia? perguntei-lhe. 

 

— Não; há muito tempo que não a encontro. 

 

— Tu a conheces bem, Sá? 

 

— Ora! Intimamente! 

 

— Tens toda a certeza de que ela seja o que me disseste na Glória? 

 

— E esta! Pois duvidas?... Vá à casa dela; já te apresentei. 

 

— Supunha que fosse apenas uma dessas moças fáceis, a quem contudo é preciso fazer a corte por algum tempo. 

 

— O tempo de abrir a carteira. Andas no mundo da lua, Paulo. Queres saber como se faz a corte à Lúcia?... Dando-lhe uma pulseira de brilhante, ou abrindo-lhe um crédito no Wallerstein. 

 

— Não é sem razão que te pergunto isto; encontrei-a há dias, e a sua conversa, os seus modos, pareceram-me tão sérios! 

 

— Por que lhe falaste nesse tom? Naturalmente a trataste por senhora como da primeira vez; e lhe fizeste duas ou três barretadas. Essas borboletas são como as outras, Paulo; quando lhes dão asas, voam, e é bem difícil então apanhá-las. O verdadeiro, acredita-me, é deixá-las arrastarem-se pelo chão no estado de larvas. A Lúcia é a mais alegre companheira que pode haver para uma noite, ou mesmo alguns dias de extravagância. 

 

Acabamos de jantar e não tocamos mais no assunto. 

 

— Tens que fazer sábado depois do teatro? perguntou-me Sá com um sorriso maligno. 

 

— Nada, senão dormir.  

 

— Pois vá cear comigo. Dormirás durante o dia. Asseguro-te que não perderás o teu tempo. 

 

— Até sábado, então. 

 

Esta conversa desgostou-me; porque me fez parecer ainda mais ridículo aos meus olhos. 

 

Tinha uma vaga desconfiança, pelo tom do convite, de que Lúcia iria à casa do Sá; e protestei que antes disso me reabilitaria de minha estúrdia ingenuidade. 


IV 

 

No dia seguinte à mesma hora voltei à casa de Lúcia; achei-a ao piano. 

 

— O que estava tocando? 

 

— Nem sei!... Uma valsa que aprendi de ouvido. 

 

— Continue! 

 

— Não sei tocar, não! Estava brincando; não tinha que fazer. Como passou de ontem? 

 

— Bem, obrigado. Já vê que a minha segunda visita não se demorou muito. 

 

— Ainda assim não compensa a demora da primeira. 

 

— Sentiu essa demora?... Qual! ontem nem me conheceu. 

 

— Tanto como na Glória. Ainda que se tivessem passado anos, creio que em qualquer parte onde me encontrasse com o senhor, o reconheceria. 

 

— Por que motivo então fingiu ontem não se lembrar de mim, logo que entrei? 

 

— Por quê?... Queria ver uma coisa. 

 

— E não se pode saber o que era? 

 

— Não é preciso! 

 

— Há de me dizer!... 

 

E tomei-lhe as mãos que estavam frias e trêmulas. 

 

— Pois bem, eu lhe digo. Queria ver se ainda se lembrava do nosso primeiro encontro, respondeu ela furtando o corpo ao meu abraço. 

 

— Duvidava?... Não tinha razão; talvez fosse eu o que melhor guardasse essa lembrança. 

 

Lúcia abanou a cabeça lentamente: 

 

— Que vestido levava eu naquela tarde? perguntou sorrindo. 

 

A pergunta embaraçou-me. Quando admiro uma mulher bonita, a impressão que ela produz em mim não me deixa ver mais que a sua beleza. 

 

— Nem se recorda! 

 

(continua...)

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