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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

Acreditas, Paulo, que essa moça que te descrevi fosse Emília, a menina feia e desgraciosa que eu deixara dous anos antes? Que sublime trabalho de florescência animada não realizara a natureza nessa mulher! Emília teria então dezessete anos. Sentia-se, olhando-a, a influência misteriosa que um espírito superior tinha exercido na revolução operada em sua pessoa. O trajo, ainda nimiamente avaro dos encantos que ocultava, era de um molde severo; mas havia no gracioso da forma e na combinação do enfeite, uns toques artísticos, que se revelavam também no basto trançado do luxuoso cabelo negro. 

Voltei impressionado por essa visão de sala em pleno dia. 

Se a transformação de Emília produzira em mim uma admiração grande, maior foi a humilhação que sofri com o seu desdém. Já não era uma menina; estava moça, e não me devia só a cortesia a que tem direito o homem delicado, devia-me gratidão. —Talvez ignore! disse eu comigo. 

Nos dias que se seguiram, surgiu alguma vez em meu espirito aquela imagem de moça; mas essa lembrança me incomodava. 

Uma tarde encontrei-me com o irmão: 

—Ia à tua casa! disse-me Geraldo. 

—Pois vamos. 

—Não. Já que te encontrei poupa-me essa maçada. Minha tia manda-te dizer que amanhá toma-se chá em sua casa. Julinha faz anos. 

—Ah! D. Matilde? —Sim. Adeus. 

—Espera. 

—Não posso. Ainda vou à chácara, e tenho de voltar para o teatro. 

D. Matilde é casada com um irmão de Duarte. Seu marido vive constantemente na fazenda, trabalhando para tirar dela os avultados rendimentos necessários ao luxo que sua família ostenta na corte. 

Ainda moça, bonita e muito elegante, ela é perdida pelo corteje e galanteio de sala. Nunca a honra conjugal sucumbiu a essa fascinação, mas a casta dignidade da esposa foi sacrificada sem reserva. Sua casa nobre em Matacavalos é ponto de reunião diária para uma parte da boa sociedade do Rio de Janeiro. Todas as noites as salas ricamente adereçadas se abrem às visitas habituais. Nos domingos há jantar para um círculo mais escolhido. De mês em mês aparece um pretexto qualquer para um baile. Não te falo desta casa somente por ter sido uma cena no drama de minha vida. Foi também, como soube depois, uma escola para Emília. 

Essa moça tinha desde tenros anes o espirito mais cultivado do que faria supor o seu natural acanhamento. Lia muito, e já de longe penetrava o mundo com olhar perspicaz, embora através das ilusões douradas. Sua imaginação fora a tempo educada : ela desenhava bem, sabia música e a executava com mestria; excedia-se em todos os mimosos lavores de agulha, que são prendas da mulher. 

—Eu nasci artista!... me disse ela muitas vezes sorrindo. 

E realmente, havia em sua alma a centelha divina que forma essas grandes artistas de sala, que nós chamamos senhoras elegantes: 

artistas que por cinzelarem imagens vivas e talharem em seda e veludo, não são menos sublimes que o escultor quando talha no mármore a beleza inanimada. 

Mas faltava ainda à inteligente menina o tato fino e o suave colorido que o pintor só adquire na tela e a mulher na sala, a qual também é tela para o painel de sua formosura. Foi nas reuniões de D. Matilde que Emília deu os últimos toques à sua especial elegância. 

Não copiou, nem imitou. Começando a aparecer em casa da tia pouco tempo antes da minha volta, ela observava. Seu bom gosto se apurou; um belo dia surgiu outra; a elegância teve nela um molde seu, próprio e original. 

Quando aos dezoito anos ela pôs o remate a esse primor de escultura viva e poliu a estátua de sua beleza, havia atingido ao sublime da arte. Podia então, e devia, ter o nobre orgulho do gênio criador. 

Ela criara o ideal da Vênus moderna, a diva dos salões, como Fídias tinha criado o tipo da Vênus primitiva. 


IV 

POUCAS entradas tinha eu em casa de D. Matilde naquela época. 

O convite me surpreendeu; e ainda mais quando no dia seguinte recebi um cartão de visita da senhora com palavras afetuosas. 

Tive mais tarde a explicação dessa e muitas outras finezas que recebi de toda aquela família. O pai e as tias de Emília queriam, com as repetidas provas de sua bondade, apagar qualquer ressentimento que pudessem gerar no meu espírito os modos ríspidos da menina, agora moça. Muitas vezes procuravam desculpá-la com seu excessivo acanhamento. 

O baile foi esplêndido. D. Matílde triunfava, no meio de suas rivais e aos olhos de seus adoradores. 

Lá estava Emília. 

Ainda a flor agreste de sua gentileza não se havia aclimatado à atmosfera do baile. Ela perdia à noite e no meio do salão ornado pelas mais elegantes formosuras da corte. Não tinha ali nem a suave limpidez do desalinho, em que eu a vira antes; nem o fulgor radiante, que tanto admirei depois. Era o crepúsculo matutino de uma rosa, que abotoara à noite e ainda não desatara ao sol. 

Estive conversando com D. Leocádia algum tempo; quando me ergui ela perguntou: Não dança, doutor? —Pode ser, minha senhora. 

—Dance!... Olhe! vá tirar Mila. 

(continua...)

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