Por José de Alencar (1856)
"Sinto-me com coragem de sacrificar o meu amor à sua felicidade; mas ao menos deixe-me o consolo de amá-lo.
"Há dois dias que espero debalde vê-lo passar e acompanhá-lo de longe com um olhar! Não me queixo; não sabe nem deve saber em que ponto de seu caminho o som de seus passos faz palpitar um coração amigo.
"Parto hoje para Petrópolis, donde voltarei breve; não lhe peço que me acompanhe, porque devo ser-lhe sempre uma desconhecida, uma sombra escura que passou um dia pelos sonhos dourados de sua vida.
"Entretanto eu desejava vê-lo ainda uma vez, apertar a sua mão e dizer-lhe adeus para sempre.
"C."
A carta tinha a data de 3; nós estávamos a 10; havia oito dias que ela partira para Petrópolis e que me esperava.
No dia seguinte embarquei na Prainha e fiz essa viagem da baía, tão pitoresca, tão agradável e ainda tão pouco apreciada.
Mas então a majestade dessas montanhas de granito, a poesia desse vasto seio de mar, sempre alisado como um espelho, os grupos de ilhotas graciosas que bordam a baía, nada disto me preocupava.
Só tinha uma idéia... chegar; e o vapor caminhava menos rápido do que meu pensamento.
Durante a viagem pensava nessa circunstância que a sua carta me revelara, e fazia-me por lembrar de todas as ruas por onde costumava passar, para ver se adivinhava aquela onde ela morava e donde todos os dias me via sem que eu suspeitasse.
Para um homem como eu, que andava todo o dia desde a manhã até a noite, a ponto de merecer que a senhora, minha prima, me apelidasse de Judeu Errante, este trabalho era improfícuo.
Quando cheguei a Petrópolis, eram cinco horas da tarde; estava quase noite. Entrei nesse hotel suíço, ao qual nunca mais voltei, e enquanto me serviam um magro jantar, que era o meu almoço, tomei informações.
— Têm subido estes dias muitas famílias? perguntei eu ao criado.
— Não, senhor.
— Mas, há coisa de oito dias não vieram da cidade duas senhoras?
— Não estou certo.
— Pois indague, que preciso saber e já ; isto o ajudará a obter informações.
A fisionomia sisuda do criado expandiu-se ao tinir da moeda e a língua adquiriu a sua elasticidade natural.
— Talvez o senhor queira falar de uma senhora já idosa que veio acompanhada de sua filha?
— É isso mesmo.
— A moça parece-me doente; nunca a vejo sair.
— Onde está morando?
— Aqui perto, na rua de...
— Não conheço as ruas de Petrópolis; o melhor é acompanhar-me e vir mostrar-me a casa,
— Sim senhor.
O criado seguiu-me e tomamos por uma das ruas agrestes da cidade alemã.
CAPÍTULO IV
A noite estava escura.
Era uma dessas noites de Petrópolis, envoltas em nevoeiro e cerração.
Caminhávamos mais pelo tato do que pela vista, dificilmente distinguíamos os objetos a uma pequena distância; e muitas vezes, quando o meu guia se apressava, o seu vulto perdia-se nas trevas.
Em alguns minutos chegamos em face de um pequeno edifício construído a alguns passos do alinhamento, e cujas janelas estavam esclarecidas por uma luz interior.
É ali.
— Obrigado.
O criado voltou e eu fiquei junto dessa casa, sem saber o que ia fazer.
A idéia de que estava perto dela, que via a luz que a esclarecia, que tocava a relva que ela pisara, fazia-me feliz.
É coisa singular, minha prima! O amor que é insaciável e exigente e não se satisfaz com tudo quanto uma mulher pode dar, que deseja o impossível, às vezes contenta-se com um simples gozo d'alma, com uma dessas emoções delicadas, com um desses nadas, dos quais o coração faz um mundo novo e desconhecido.
Não pense, porém, que eu fui a Petrópolis só para contemplar com enlevo as janelas de um chalé; não; ao passo que sentia esse prazer, refletia no meio de vê-la e falar-lhe.
Mas como?...
Se soubesse todos os expedientes, cada qual mais extravagante, que inventou a minha imaginação! Se visse a elaboração tenaz a que se entregava o meu espírito para descobrir um meio de dizer-lhe que eu estava ali e a esperava!
Por fim achei um; se não era o melhor, era o mais pronto.
Desde que chegara, tinha ouvido uns prelúdios de piano, mas tão débeis que pareciam antes tirados por uma mão distraída que roçava o teclado, do que por uma pessoa que tocasse.
Isto me fez lembrar que ao meu amor se prendia a recordação de uma bela música de Verdi; e foi quanto bastou.
Cantei, minha prima, ou antes assassinei aquela linda romanza; os que me ouvissem tomar-me-iam por algum furioso; mas ela me compreenderia.
E de fato, quando eu acabei de estropiar esse trecho magnífico de harmonia e sentimento, o piano, que havia emudecido, soltou um trilo brilhante e sonoro, que acordou os ecos adormecidos no silêncio da noite.
Depois daquela cascata de sons majestosos, que se precipitavam em ondas de harmonia do seio daquele turbilhão de notas que se cruzavam, deslizou plangente, suave e melancólica uma voz que sentia e palpitava, exprimindo todo o amor que respira a melodia sublime de Verdi.
Era ela que cantava!
Oh! não posso pintar-lhe, minha prima, a expressão profundamente triste, a angústia de que ela repassou aquela frase de despedida :
Non ti scordar di me. Addio!...
Partia-me a alma.
(continua...)
ALENCAR, José de. Cinco Minutos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16677 . Acesso em: 14 jan. 2026.