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#Romances#Literatura Brasileira

A Viuvinha

Por José de Alencar (1857)

A angústia e o desespero que se pintavam nas feições de Jorge tocavam quase à alucinação e ao desvario; às vezes era como uma atonia que lhe paralisava a circulação, outras tinha ímpetos de fechar os olhos e atirar a matéria contra a matéria, para ver se neste embate a dor física, a anulação do espírito, moderavam o profundo sofrimento que torturava sua alma.

Por fim uma idéia sinistra passou-lhe pela mente e agarrou-se a ela como um náufrago a um destroço de seu navio; o desespero tem dessas coincidências; um pensamento louco é às vezes um bálsamo consolador, que, se não cura, adormece o padecimento.

O moço ficou de todo calmo; mas era essa calma sinistra que se assemelha ao silêncio que precede as grandes tempestades.

Tudo isto se passou num momento, enquanto o senhor Almeida, com o seu sorriso irônico, abotoava até a gola da sua sobre casaca, dispondo-se a sair.

— Estamos entendidos, senhor; pode mandar debitar-me nos seus livros pelas dívidas de seu pai. Boa noite.

— Adeus, senhor.

O velho saiu direito e firme como um homem no vigor da idade. Jorge escutou o som de suas passadas, que ecoaram surdamente no soalho, até o momento em que a porta da casa se fechou.

Então curvou a cabeça sobre o braço, apoiado ao umbral da janela, e chorou. Quando um homem chora, minha prima, a dor adquire um quer que seja de suave, uma voluptuosidade inexprimível; sofre-se, mas sente-se quase uma consolação em sofrer.

Vós, mulheres, que chorais a todo o momento, e cujas lágrimas são apenas um sinal de vossa fraqueza, não conheceis esse sublime requinte da alma que sente um alívio em deixar-se vencer pela dor; não compreendeis como é triste uma lágrima nos olhos de um homem.



CAPÍTULO V

Uma hora seguramente se passara depois da saída do velho.

O relógio de uma das torres da cidade dava duas horas.

Jorge conservou-se na mesma posição; imóvel com a cabeça apoiada sobre o braço, apenas se lhe percebia o abalo que produzia de vez em quando um soluço que o orgulho do homem reprimia, corno que para ocultar de si mesmo a sua fraqueza.

Depois nem isto; ficou inteiramente calmo, ergueu a cabeça e começou a passear pelo aposento: a dor tinha dado lugar à reflexão; e ele podia enfim lançar um olhar sobre o passado, e medir toda a profundeza do abismo em que ia precipitar-se.

Havia apenas duas horas que a felicidade lhe sorria com todas as suas cores brilhantes, que ele via o futuro através de um prisma fascinador; e poucos instantes tinham bastado para transformar tudo isto em uma miséria cheia de vergonha e de remorsos.

As oscilações da pêndula, que na véspera respondiam alegremente às palpitações de seu coração, a bater com a esperança da ventura, ressoavam agora tristemente, como os dobres monótonos de uma campa, tocando pelos mortos.

Mas não era o pensamento dessa desgraça irreparável, imensa, que tanto o afligia; os espíritos fortes, como o seu, têm para as grandes dores um grande remédio, a resignação.

A pobreza não o acobardava; a desonra, não a temia; o que dilacerava agora a sua alma era um pensamento cruel, uma lembrança terrível:

— Carolina!...

A pobre menina, que o amava, que dormia tranqüilamente embalada por algum sonho prazenteiro, que esperava com a inocência de um anjo e a paixão de uma mulher a hora dessa ventura suprema de duas almas a confundirem-se num mesmo beijo!

Podia, ele, desgraçado, miserável, escarnecido, iludir ainda por um dia esse coração e ligar essa vida de inocência e de flores à existência de um homem perdido?

Não: seria um crime, uma infâmia, que a nobreza de sua alma repelia; sentia-se bastante desgraçado, é verdade, mas essa desgraça era o resultado de uma falta, de uma bem grave falta, mas não de um ato vergonhoso.

O seu casamento, pois, não podia mais efetuar-se; o seu dever, a sua lealdade, exigiam que confessasse a D. Maria e à sua filha as razões que tornavam impossível esta união.

Sentou-se à mesa e começou a escrever com uma espécie de delírio uma carta à mãe de Carolina; mas, apenas havia traçado algumas linhas, a pena estacou sobre o papel.

— Seria matá-la! balbuciou ele.

Outra idéia lhe viera ao espírito; lembrou-se de que no estado a que tinham chegado as coisas, essa ruptura havia de necessariamente prejudicar a reputação de sua noiva.

Ele seria causa de que se concebesse uma suspeita sobre a pureza dessa menina, que havia respeitado como sua irmã, embora a amasse com uma paixão ardente; e este só pensamento paralisara a sua mão sobre o papel. Recordou-se de que D. Maria um dia lhe havia dito:

— Jorge, a confiança que tenho na sua lealdade é tal que entreguei minha filha antes de pertencer-lhe. Lembre-se de que se o senhor mudasse de idéia, embora ela esteja pura como um anjo, o mundo a julgaria uma moça iludida. Espero que respeite em sua noiva a sua futura mulher.

E o moço reconhecia quanto D. Maria tinha razão; lembrava-se, no tempo da sua vida brilhante, que comentários não faziam seus amigos sobre um casamento rompido às vezes por motivo o mais simples.

Deixar pesar a sombra de uma suspeita sobre a pureza de Carolina, era coisa que o seu espírito nem se animava a conceber; mas iludir a pobre menina, arrastando-a a um casamento desgraçado, era uma infâmia.

(continua...)

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