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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

Mas o que sentia Horácio era apenas o culto da forma, o fanatismo do prazer.

O amor, o verdadeiro amor consiste na possessão mútua de duas almas; e essa, pode o homem iludir-se alguma vez, mas quando se realiza, é indissolúvel. Nada separa duas almas gêmeas que prende o vínculo de sua origem divina.

O mancebo admirava na mulher a formosura unicamente: apenas artista, ele procurava um tipo. Durante dez anos atravessara os salões, como uma galeria de estátuas animadas e vivos painéis, parando um instante em face dessas obrasprimas da natureza.

Vieram uns após outros todos os tipos: a beleza ardente das regiões tépidas, ou a suave gentileza da rosa dos Alpes; o moreno voluptuoso ou a alvura do jaspe; a fronte soberana e altiva ou o gesto gracioso e meigo; o talhe opulento e garboso ou as formas esbeltas e flexíveis.

Seu gosto foi-se apurando; e ao cabo de algum tempo tornou-se difícil. A beleza comum já não o satisfazia; era preciso a obra-prima para excitar-lhe a atenção e comovê-lo.

Mas os sentidos se gastam; os mesmos primores da formosura caíram na monotonia. Já o leão não sentia pela mais bela mulher aqueles entusiasmos ardentes da primeira mocidade. Seu olhar era frio e severo como o de um crítico.

Então, começou o moço a amar, ou antes a admirar, a mulher em detalhe. Sua alma embotada carecia de um sainete. Foi a princípio uma boca bonita, cofre de pérolas, de sorrisos, de beijos e harmonias. Veio depois uma trança densa e negra, como a asa da procela que se inflama. Uma cintura de sílfide, um colo de cisne, um requebro sedutor, um sinal da face, uma graça especial, um não sei que: tudo recebeu culto do nosso leão.

Como um conviva, a quem as iguarias do banquete já não excitam, sua alma babujava na sala essas gulosinas. Mas afinal embotou-se; e o prazer não foi para ela mais do que a vulgar satisfação de um hábito.

O moço cortejava as senhoras como uma ocupação indispensável à sua vida, como o desempenho da tarefa diária; mas sem a menor comoção.

Amar era um entretenimento do espírito, como passear a cavalo, freqüentar o teatro, jogar uma partida de bilhar.

O amor já não tinha novidades nem segredos para ele, que o gozara em todas as formas; na comédia e no drama; no idílio e na ode. Como Richelieu, diziam até que ele já o havia calcado com o tacão da bota.

Nestas circunstâncias bem se compreende a impressão profunda que nele produzia a mimosa botina, achada naquela manhã.

Almeida tinha admirado a mulher em todos os tipos e em todos os seus encantos; mas nunca a tinha amado sob a forma sedutora de um pezinho faceiro. Era realmente para surpreender. Como lhe passara despercebido esse condão mágico da mulher, a ele que julgava ter esgotado todas as emoções do amor?

Sucedeu, como era natural, que uma vez percutidas as energias dessa alma enervada por longa apatia, a reação foi violenta.

Inflamou-se a imaginação e especialmente com o toque do mistério que trazia a aventura. Se o dono da botina, o sonhado pezinho, se mostrasse desde logo, não produziria o mesmo efeito; não teria o sabor do desconhecido, que é irmão do proibido.

Imagine, quem conhecer o coração humano, a veemência dessa paixão, excitada pelo tédio do passado e alimentada por uma imaginação ociosa. De que loucuras não é capaz o homem que se torna ludíbrio de sua fantasia?

As extravagâncias de Horácio, contemplando a botina, verdadeiras infantilidades de homem feito, bem revelavam a agitação dessa existência, embotada para o verdadeiro amor e gasta pelo prazer.

Não se riam, homens sérios e graves, não zombem de semelhantes extravagâncias; são elas o delírio da febre do materialismo que ataca o século.

Essa paixão de Horácio, o que é senão aberração da alma, consagrada ao culto da matéria? A voracidade insaciável do desejo vai criando dessas monstruosidades incompreensíveis.

Sucede a esta embriaguez do amor o mesmo que à embriaguez do álcool. A princípio basta-lhe o vinho fino e aristocrático; depois carece da aguardente; e por fim já não a satisfaz a infusão do gengibre em rum, isto é, a larva de um vulcão preparada à guisa de grogue.


CAPÍTULO  IV

Ao mesmo tempo que o nosso leão, entrava Leopoldo de Castro na modesta habitação que então ocupava na Glória.

Quando lhe fugira a celeste visão, o mancebo foi seguindo com o passo e com os olhos o carro que levava sua alma presa àquele rosto encantador. O passo era rápido e o olhar ardente; um ansiava por chegar; o outro quisera atrair pela força da paixão, pelo ímã das centelhas magnéticas que desferia a alma.

Fosse ilusão dos sentidos perturbados pela comoção interior, ou breve e confusa percepção da realidade, julgou o moço ver, no momento do dobrar o carro pela Rua Sete de Setembro, um talhe esbelto inclinar-se para a frente, e aparecer de relance um rosto alvo, donde escapou-se vivo e rápido olhar.

(continua...)

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