Por José de Alencar (1873)
- Que doença? perguntei eu.
- O moço era como o que foi ressuscitado pelo Cristo!
- Lázaro?...
- Senhor, sim. Agora quantos andam por aí como ele? Mas naquele tempo não era assim: agente pensava que aquilo era uma praga.
"Meu pai também cuidava, mas tinha bom coração; e ficou mais descansado sabendo quem era o morador da casa velha, do que antes quando pensava que ali andava cousa de bruxa.
"Uma vez... já se tinham passado quantos dias depois da luz aparecida! Era pela madrugada; nós estávamos a tirar a canoa para terra. Eis senão quando vimos o moço em pé no adro do convento, como inda agora vi o senhor. E isto me fez alembrar!...
"Esteve um pedaço bom; depois veio caminhando mansinho para cá.
"O pai quis fugir. Ele que deu pela cousa, parou, mais que depressa, e foi dizendo:
"- Não tenha medo... Não fuja que eu volto.
"Disse estas falas, assim com uma voz tão doce e tão penada que o pai teve dó dele, e ficou com vergonha:
"- Não fujo, não. Precisa de alguma cousa? Diga!...
"- Não preciso de nada!... Saí porque este vento me faz bem!... Estou queimando! Não o tinha visto, senão... Sei que não devo chegar-me para os outros.
"- A moléstia é para a gente ter medo; mas também falar só de longe, não faz mal, disse o pai.
"- Oh! há quanto tempo que não troco uma palavra com um ser humano!
"- E está-lhe doendo muito?
"- Horrívelmente!... Porém o que dói no corpo é o menos!
"Ele se assentou e nós continuamos a enxugar a canoa, sempre de olho nele.
"- É para vender o seu peixe?...
"- É senhor, sim.
"Foi ele, e disse então como um pobre que pede esmola:
"- Se eu quisesse comprar um?... "O pai ficou arrepiado.
"- Não sei!... dizem que a gente não deve tocar.
"- Escute!... Deite o peixe ai, na pedra, e fuja com o pequeno. Eu vou buscá-lo e deixo o dinheiro. Deste modo...
"- Não precisa! Ai tem o peixe. Quanto ao dinheiro há de carecer.
"Meu dito, meu feito. O moço foi, e deixou na pedra uma moeda de tostão. O pai, quem viu! Nem lhe quis tocar. Mas o menino bem se importa com doença! Tirante das almas d'outro mundo, não tinha medo de nada.
"A lembrou-me que a mãe precisava de uma vela de cera benta. A dela, de tanto acender quando nós andávamos no mar e ventava rijo, já estava num toco. Mal que o pai começou de passar pelo sono, fui eu devagarinho, e zás! apanhei o dinheiro; lavei bem lavado, e escondi no seio para que ninguém visse.
"No outro dia comprei a vela para a mãe. Foi preciso pregar uma mentira. Primeira e. derradeira. Era para não assustar a gente em casa. Deus deve me ter perdoado pelo motivo que foi."
O velho fez uma pausa.
- Chove a valer!... Mau tempo de garoupas!...
- Talvez estie ao amanhecer.
- Se o vento rondar... "Mas naquela noite, que eu dizia, quando o moço saiu, já o pai estavadormindo. Vou eu, dou-lhe. o peixe como da véspera, e ele deixou o dinheiro na pedra. A gente naquela idade gosta de saber tudo. Eu quis ver o que ele estava fazendo acordado até tão tarde, e pus-me a espiar pela fresta da porta. Jesus! O corpo me tremia que nem linha d'anzol quando o peixe fisga!
"Ele... o moço, estava assando o peixe. Depois comeu sem farinha, sem nada. Bebeu água, só. Vai por fim, lava as mãos e começa de escrever num livro que. estava na caixinha..." - Que caixinha?... perguntei, interrompendo o velho.
- A caixinha de folha! retrucou surpreso da pergunta.
- Já sei...
- Ora! onde estava eu com a cabeça. Cuidava que já tinha dito... Mas não! Era uma caixa,assim por este tamanho. Também ele não tinha mais trastes senão aquele.
"Tive tanto dó... Apanhei o dinheiro, lavei como na outra noite, mas foi para comprar farinha. Trouxe ás escondidas do pai, que ralhava-me se soubesse.
"Não sei como foi; mas no cabo duma semana eu estava tão amigo dele, que levávamos a conversar toda a noite de enfiada, e assim, perto um do outro. Tudo que precisava, era eu que comprava. A ele não vendiam: tinham medo do dinheiro. E o coitado, antes queria vela para estar escrevendo, que o bocado para comer.
"Como são as cousas... Já entrava pela casa dentro, sem pinga de medo. Queria-lhe bem a ele; também ele me queria. Um dia perguntei como se chamava.
'Sabe que respondeu?
"- Não tenho nome!... Todos me chamam leproso.
"- Mas seu nome de batismo?
"- Era Francisco.
"Outra vez, por meus pecados, disse:
(continua...)
ALENCAR, José de. A alma do Lázaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7545 . Acesso em: 8 jan. 2026.