Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Carlos Se eu merecer o seu amor espontâneo.... flor do coração.... isento de cálculos de família.... livre.... sem rigor, nem opressão... porque ela é rica... e eu não toleraria...
Teodora Perfeitamente... oh! Quem se lembra de riqueza! Eu só penso na formosura e na virtude de Corina!
Carlos Oh, muito bem, minha mãe!... Um amor poético!...
Teodora Todavia, receio muito pelo teu amor e pela felicidade de Corina, se não fores mais diligente, mais fervoroso...
Carlos Por que? Por que?...
Teodora Segredo inviolável, meu filho: teu padrasto resolveu casar Corina com Peregrino...
Carlos O mercador de escravos? Eu desconfiava disso: Peregrino compra e vende seus irmãos em Deus: é indigno de Corina...
Teodora E o teu amor pode salvar a vítima...
Carlos Corina esposa de um escravagista!... Minha mãe — hoje mesmo... (ouve dar onze horas) Ah, em vez de dez minutos, um quarto de hora... até logo...
Teodora (detendo-o pelo braço) Escuta ainda...
Carlos Não posso perder a sessão do Senado...
Teodora Cinco minutos só...
Carlos Já sei tudo! Há de ver como procederei...
Teodora Ao menos vai buscar-me o acróstico que fizeste.
Carlos (tirando um papel do bolso) Ei-lo aí... mas não o mostre a Corina: quero que ela o leia com surpresa na Revista da Sociedade Filopoética. (vai sair e encontra-se [sic] com Estefânia)
Cena 7ª
Teodora, Carlos, que logo se retira, Estefânia
Estef. Ah! Carlos, quase que me deste um abraço...
Teodora (indo a Estef.) Estefânia!
Carlos Desculpe: foi ardor parlamentar. (beija a mão de Estef.) Sinto não poder demorar-me. É a hora da sessão do Senado: vou a correr. (vai-se)
Estef. Carlos é um querubim; mas voa com excessivo ardor.
Teodora Agradeço-te a prontidão com que acudiste ao meu chamado. Senta-te. (Sentam-se)
Estef. Acho-te desassossegada...
Teodora A minha luta com Firmino continua e se agrava.
Estef. No jogo da teima não há mulher que não ganhe a partida ao marido.
Teodora Mas quando não é só o marido a vencer?... Até bem poucos dias, o que me preocupava era que essa teima de Firmino demorava o casamento de Carlos e que a demora podia aproveitar a algum astucioso e feliz pretendente de Corina.
Estef. Com efeito! Os especuladores são tantos!...
Teodora Agora, porém, é o meu maldito enteado que me está ameaçando com as mais temíveis probabilidades da sua vitória...
Estef. Ora... Peregrino... Corina o trata com tanta indiferença...
Teod.
Tu és como minha irmã: a nossa amizade...
Estef. Começou no colégio... (olhando em torno) ninguém nos ouve: começou no Colégio há trinta e cinco anos.
Teod.
É por isso que me animo a dizer-te, pensando no meu pobre Carlos, o que aliás por lealdade também te diria, se teu sobrinho...
Estef. Não falemos em Fortunato: sabemos ambas que se ele um dia pôs-se a requestar dona Corina, soube esta desenganálo para sempre: além disso eu te comuniquei o projeto de casamento que formei desde muito para meu sobrinho.
Teod.
Eu me comprometi a auxiliar-te com todo o esforço nesse empenho. Creio até que tenho feito já alguma coisa.
Estef. Muito: e uma mão lava a outra: ocupemo-nos de Carlos.
Teod.
Vou confiar-te um segredo delicadíssimo e pedir-te um conselho.
Estef. O segredo ficará no coração; o conselho sairá da reflexão.
Teod.
Isto morre aqui: eu suspeitei... e enfim verifiquei que Peregrino... abusando da casa de seu pai... entretinha relações secretas... criminosas com a mísera Corina...
Estef. Oh!... É horrível!... Estás bem certa do que dizes?... Teod. Infelizmente é verdade.
Estef. Que escândalo! Mas então é caso julgado... pobre Carlos!
Teodora Conforme...
Estef. Pois aí há conforme?.. .(cravando os olhos em Teod.) Ah! Sim! Neste mundo tudo é conforme: eu também juraria que dona Corina detestava Peregrino e todavia.. mas.. conforme o que?...
Teod.
Corina é ainda no seu erro tão inocente como tola, e por felicidade no colégio a tornaram fanática: há quatro dias que tive a certeza do seu opróbrio e não tardei em recorrer aos bons ofícios de minha religiosa tia, e a boa da velha reteirou o demônio com tanta eloquência que a triste menina malvadamente enganada, apenas agora compreende o que fez, e abomina Peregrino com sentimento de horror.
Estef. (sorrindo) É um pouco inverossímil: eu, no teu caso, desconfiava.
Teod.
A tia Suzana assegura o arrependimento de Corina, que parece ter sido vítima de sua rude ignorância a certos respeitos...
Estef. Mas o diabo não sai tão facilmente do corpo, em que conseguiu uma vez entrar.
Teodora Julgas que estou sossegada? eu passo as noites velando: temo da influência fatal adquirida por Peregrino... tenho medo de que amanhã, ou em outro dia, Eva de novo atenda à serpente... mas dada a hipótese do arrependimento sincero e essa ignorância do mal que se praticava...
Estef. Entendo... (sorrindo) dada a hipótese...
Teod.
Nestas circunstâncias devo ainda pensar em Corina para esposa de meu
filho?... tenho escrúpulos: aconselha-me.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.