Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
BRAZ – E chamam tolo ao Mário!
MÁRIO – Tolo?... mas isto não deve continuar assim; é indispensável que nos enobreçamos, para que eu não torne a ser exceção, e para que Clemência case com algum titular, ou pelo menos capitalista rico.
CLEMÊNCIA – Obrigada; não preciso...
VIOLANTE – Como porém se há de improvisar a tua nobreza, cabeça de vento?
nossa família foi sempre honrada, mas nem de longe tem cheiro de fidalguia; meu avô foi alfaiate, e com fama de boa tesoura...
MÁRIO – Ninguém mais se lembra dele, e a titia, em vez de recordar essa desconsolação, bem podia resolver o problema.
VIOLANTE – Como?
MÁRIO – Que falta lhe fazem dez ou doze contos de réis? com eles dados ao tesouro meu pai ficava em quinze dias barão da guerra, ou barão do hospício...
BRAZ – Mas o teu republicanismo?
MÁRIO – Deixei-o no almoço; a titia há de pensar na hipótese; agora tenho outros cuidados. Clemência, é imprescindível que eu depene o jardim... preciso de um cesto de flores... consentes?
CLEMÊNCIA – Que há?
MÁRIO – Uma atrocidade. Certa súcia, indigna quadrilha de perversos, pretende esta noite patear a mais bonita dançarina do alcaçar; é verdade que ela dança horrivelmente; mas é o mesmo: os habitués de bom gosto vão defendê-la, e haverá chuva de flores, e tempestade de murraças; não posso faltar.
CLEMÊNCIA – É parvoíce e escândalo brigar por semelhante gente.
MÁRIO – Não é da tua conta; quero um cesto de flores.
VIOLANTE – Não hás de ir.
MÁRIO – Hei de, titia; é ponto de honra. Clemência, manda depenar o jardim...
dois cestos não serão demais... até já... vou ver Hipogrifo...
CENA V
VIOLANTE, BRAZ, CLEMÊNCIA, MÁRIO (que ia sair e volta), CASIMIRO, IRENE e LAURIANO; logo depois criado que traz o café, de que todos se servem
BRAZ (A Mário) – Não vais ver o Hipogrifo?
MÁRIO (A Braz) – Esta moça é até capaz de fazer-me esquecer o meu cavalo.
CASIMIRO – Trago para o jardim a rainha das flores. (Cumprimentos de todos.)
MÁRIO (A Lauriano) – Disseram-me que o folhetim da Reforma sobre as últimas corridas do Prado saiu da sua pena?
LAURIANO (A Mário) – Um rude ensaio... não entendo da matéria... desculpe o folhetim.
MÁRIO (A Lauriano) – Ao contrário, admirável! obrigadíssimo por Hipogrifo!
CLEMÊNCIA (A Lauriano) – Li o seu folhetim, e gostei muito; obrigada por Mário.
CASIMIRO (A Irene) – Espanta-me que eles possam pensar em outra coisa que não seja a sua formosura!
IRENE (A Casimiro) – O senhor teima em zombar de mim. (Trocando um olhar com Mário.)
VIOLANTE (A Braz) – Braz, no meu tempo não era assim; por fim de contas
olha a cara desfrutável de Casimiro.
BRAZ (A Violante) – No seu tempo não era assim; mas era de outro modo, que vinha a dar na mesma coisa.
CLEMÊNCIA (Levando Irene pelo braço) – Dª. Irene, você passa a noite conosco?
IRENE (A Clemência) – Não posso; Lauriano tem trabalho urgente, e minha mãe não permite que eu fique sem ele.
CLEMÊNCIA (A Irene) – Além da felicidade da sua companhia, só você, ficando conosco, poderia conseguir obstar uma grande imprudência...
IRENE (A Clemência) – Qual?
CASIMIRO (Indo a Irene) – Protesto contra o monopólio; Clemência não tem o direito de usurpar-nos dª. Irene. (Traz Irene a sentar-se e conversa com ela.)
MÁRIO (A Braz) – Não acha que meu pai está caindo no ridículo? (A Lauriano) Magnífico folhetim! venha amanhã à tarde visitar Hipogrifo.
CLEMÊNCIA (A Lauriano) – Dá-nos a sua companhia esta noite? esperamos algumas famílias amigas: o seu sacrifício será mais suave.
LAURIANO (A Clemência) – As famílias que espera serão por certo muito amáveis; mas só por quem tão cativadora me fala o sacrifício é não poder ficar.
CLEMÊNCIA (A Lauriano) – Sei que trabalha assíduo, e que hoje tem apressada tarefa, mas eu sou egoísta, e apraz-me experimentar o que mereço; demore-se aqui até a meia-noite, ainda que depois trabalhe até o romper da aurora.
LAURIANO (A Clemência) – Se eu chegasse a acreditar que o deseja!
CLEMÊNCIA (A Lauriano) – Gosto de ser déspota: ordeno.
LAURIANO (A Clemência) – E o escravo obedecerá feliz.
VIOLANTE (A Braz) – O que observo me põe a cabeça à roda. (A todos.) É quase noite... porque não entramos?... (Levantam-se todos.)
CLEMÊNCIA (A Irene) – Seu irmão fica; é necessário que Mário não nos deixe, esta noite haverá desordem no alcaçar, e ele quer ir...
IRENE (A Clemência) – Desordem... no alcaçar?... pois não há sempre?... (A Mário) Quando há novas corridas, sr. Mário?
MÁRIO – Daqui a dois meses... V. Ex. irá ao Prado?
IRENE – Desejo muito; Lauriano prometeu levar-me.
MÁRIO – Sublimizarei Hipogrifo...
IRENE (Mais baixo) – Sinto-me ditosa, porque vou passar a noite em sua casa...
MÁRIO (A Irene) – Logo esta noite... quando um ponto de honra me aparta...
IRENE (A Mário) – Ah!... perdão... não ouso pedir-lhe a preferência de algumas horas que me aditariam... sei bem que pouco valho...
CASIMIRO (A Braz) – Mário tem tomado uns modos tão inconvenientes que começa a desagradar-me... não reparas!
BRAZ (A Casimiro) – Estou vendo... é claro que ele gosta da vizinha; pendor da família!
(continua...)
Romance de uma Velha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2160 . Acesso em: 6 jan. 2026.