Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
LOURENÇO – Infeliz não, roubado! nunca fui jogador! mas... (olhando Dionísia.) a traição, fingindo-se amor, quis que eu tomasse o jogo por pretexto, e em breve o pretexto se tornou vício e a falsidade depôs a máscara; na sua casa tudo é infame! deixo neste golfão a fortuna que há um ano herdei de meu honrado pai... minha ruína é justo castigo; porque eu recebi a educação da honestidade, e menti a ela vindo
aqui manchar-me com duas corrupções!... (Vai-se arrebatado.) BRÁULIO (Friamente.) – Amanhã à noite ele volta para jogar.
GERTRUDES (Entrando.) – Que furioso! fugi de medo... D. DONALDO (Dentro.) – Trezentos mil réis! UMA VOZ (Dentro.) – Levante.
FÁBIO (Dentro.) – Eu sou rei.
OUTRA VOZ (Dentro.) – Eu sou quatro.
GERTRUDES – Olha que em alguma noite o barato há de te sair caro.
BRÁULIO – Eu não obrigo a jogar.
VOZES (Dentro.) – O rei... quinze sortes!...
OUTRAS VOZES (Dentro.) – Há maço! há maço! venham baralhos novos!
(Rindo.)
CENA VIII
BRÁULIO, DIONÍSIA, GERTRUDES, um CRIADO e logo SILVEIRA
CRIADO (Correndo.) – Cartas novas...
BRÁULIO – Leva as que estão sobre a mesa do meu quarto. ( Vai-se o criado à esquerda.)
SILVEIRA – Sr. Bráulio... uma palavra (A um lado.): perdi quanto trazia... filhofamília não ouso expor-me a alguma negativa, querendo jogar sob palavra... empresteme só duzentos mil réis... juro-lhe que em três dias...
BRÁULIO – Filho-família... estamos na mesma; porém... o seu relógio de ouro e o alfinete de brilhantes... note que é somente pelo desejo de servi-lo...
SILVEIRA – Oh! mas amanhã... amanhã... .meu pai...
BRÁULIO – E quem lhe diz que não se desforrará esta noite?... (Ao criado que passa.) Que levas aí?...
CRIADO – Baralhos novos. (Vai-se pela direita.)
BRÁULIO – Vê? ... cartas novas... a fortuna deve mudar...
SILVEIRA (Tremendo e rápido.) – Aí os tem.... (Dá o relógio e o alfinete) BRÁULIO – Em um instante... (Vai-se pela esquerda.) VOZES (Dentro.) – Vejamos agora!
DEMÉTRIO (Dentro.) – Cincinato! à desforra!
CINCINATO (Dentro.) – Não pegam as bixas: quero ver primeiro como corre a tripa.
DIONÍSIA (A Silveira tornando-lhe a mão.) – Para que joga?...
SILVEIRA (Confuso e rindo à força.) – Para apostar pelas damas.
GERTRUDES – Que te importa que o senhor jogue ou não?
DIONÍSIA – Tão mocinho e tão bonito devia só amar. (Com doçura a Silveira.) Não jogue.
BRÁULIO (Voltando e dando a Silveira dinheiro e um papel) – O dinheiro e a cautela: há de ver que nos juros houve fineza de amigo.
SILVEIRA (Recebendo) – Obrigado... obrigado... (Vai-se pela direita.) DIONÍSIA – Nem se quer me disse adeus... pois que se perca...
BRÁULIO – Deixa o menino, perversa: tratemos de Adriano; Gertrudes já te preveniu do que há?...
DIONÍSIA – Estou ciente: favas contadas... Adriano é minha propriedade; já lhe pus feitiço; depois de amanhã fujo com ele... e, adeus, titio... por três meses pelo menos...
BRÁULIO – Estás bem certa de obrigá-lo a esse extremo?
DIONÍSIA – Certíssima; mas da sua parte não se deixe lograr pelo Fábio que é bisca; olhe: dói-me servir ao trama de semelhante homem... cuidado com ele... DEMÉTRIO (Dentro.) – O sr. d. Donaldo tem olhos nas unhas!... (Rindo.) D. DONALDO (Dentro.) – Que quer dizer? é uma injúria!...
VOZES (Dentro.) – Não! não! sim! sim! (Alarido.)
BRÁULIO (A Gertrudes e Dionísia.) – Vai tocar! vai cantar! e fortíssimo!
fortíssimo!... (Vai-se Gertrudes; Bráulio detém Dionísia pelo braço, vendo Adriano; Gertrudes toca forte e depois suave ao serenar o ruído.)
CENA IX
BRÁULIO, que logo se retira, DIONÍSIA, ADRIANO e SILVEIRA
BRÁULIO – Senhor Adriano...
ADRIANO – Minha senhora... sr. Bráulio... chego hoje muito tarde...
BRÁULIO – E vem achar a sessão tumultuosa... porque, não sei...
UMA VOZ (Dentro.) – Ainda!... isto não é verossímil... as cartas foram preparadas... (Alarido.)
SILVEIRA – Sou uma das vítimas... perdi o que não podia perder; mas é infame quem abusa da boa fé da gente honesta! (Grande alarido; Silveira atravessa a cena precipitado e vai-se.)
ADRIANO – Que desordem!...
BRÁULIO – Perdão... vou seguir este moço para impedir algum ato de
desespero. (Vai-se)
DIONÍSIA – Onde esteve até agora? ...
ADRIANO (Aproximando-se) – Foi-me impossível vir mais cedo.
DIONÍSIA (Afastando-se.) – Atraiçoa ao mesmo tempo a esposa e a mim; a ela não me importa; porém a mim!... onde esteve?...
ADRIANO (Querendo tomar-lhe a mão.) – Dionísia.
DIONÍSIA – Não me toque! o senhor me trata indignamente: sinto o seu desprezo na liberdade em que me deixa...
ADRIANO – Ingrata!
DIONÍSIA – Confessei-lhe as misérias da minha vida: porque não se contentou com o meu aviltamento?... para que me falou de amor, e me inspirou amor?... para que me fez chorar arrependida do meu passado!... para que me levou a sonhar com o impossível?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.