Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
BRÁULIO – Vê? ... cartas novas... a fortuna deve mudar...
SILVEIRA (Tremendo e rápido.) – Aí os tem.... (Dá o relógio e o alfinete) BRÁULIO – Em um instante... (Vai-se pela esquerda.) VOZES (Dentro.) – Vejamos agora!
DEMÉTRIO (Dentro.) – Cincinato! à desforra!
CINCINATO (Dentro.) – Não pegam as bixas: quero ver primeiro como corre a tripa.
DIONÍSIA (A Silveira tornando-lhe a mão.) – Para que joga?...
SILVEIRA (Confuso e rindo à força.) – Para apostar pelas damas.
GERTRUDES – Que te importa que o senhor jogue ou não?
DIONÍSIA – Tão mocinho e tão bonito devia só amar. (Com doçura a Silveira.) Não jogue.
BRÁULIO (Voltando e dando a Silveira dinheiro e um papel) – O dinheiro e a cautela: há de ver que nos juros houve fineza de amigo.
SILVEIRA (Recebendo) – Obrigado... obrigado... (Vai-se pela direita.) DIONÍSIA – Nem se quer me disse adeus... pois que se perca...
BRÁULIO – Deixa o menino, perversa: tratemos de Adriano; Gertrudes já te preveniu do que há?...
DIONÍSIA – Estou ciente: favas contadas... Adriano é minha propriedade; já lhe pus feitiço; depois de amanhã fujo com ele... e, adeus, titio... por três meses pelo menos...
BRÁULIO – Estás bem certa de obrigá-lo a esse extremo?
DIONÍSIA – Certíssima; mas da sua parte não se deixe lograr pelo Fábio que é bisca; olhe: dói-me servir ao trama de semelhante homem... cuidado com ele... DEMÉTRIO (Dentro.) – O sr. d. Donaldo tem olhos nas unhas!... (Rindo.) D. DONALDO (Dentro.) – Que quer dizer? é uma injúria!...
VOZES (Dentro.) – Não! não! sim! sim! (Alarido.)
BRÁULIO (A Gertrudes e Dionísia.) – Vai tocar! vai cantar! e fortíssimo!
fortíssimo!... (Vai-se Gertrudes; Bráulio detém Dionísia pelo braço, vendo Adriano; Gertrudes toca forte e depois suave ao serenar o ruído.)
CENA IX
BRÁULIO, que logo se retira, DIONÍSIA, ADRIANO e SILVEIRA
BRÁULIO – Senhor Adriano...
ADRIANO – Minha senhora... sr. Bráulio... chego hoje muito tarde...
BRÁULIO – E vem achar a sessão tumultuosa... porque, não sei...
UMA VOZ (Dentro.) – Ainda!... isto não é verossímil... as cartas foram preparadas... (Alarido.)
SILVEIRA – Sou uma das vítimas... perdi o que não podia perder; mas é infame quem abusa da boa fé da gente honesta! (Grande alarido; Silveira atravessa a cena precipitado e vai-se.)
ADRIANO – Que desordem!...
BRÁULIO – Perdão... vou seguir este moço para impedir algum ato de
desespero. (Vai-se)
DIONÍSIA – Onde esteve até agora? ...
ADRIANO (Aproximando-se) – Foi-me impossível vir mais cedo.
DIONÍSIA (Afastando-se.) – Atraiçoa ao mesmo tempo a esposa e a mim; a ela não me importa; porém a mim!... onde esteve?...
ADRIANO (Querendo tomar-lhe a mão.) – Dionísia.
DIONÍSIA – Não me toque! o senhor me trata indignamente: sinto o seu desprezo na liberdade em que me deixa...
ADRIANO – Ingrata!
DIONÍSIA – Confessei-lhe as misérias da minha vida: porque não se contentou com o meu aviltamento?... para que me falou de amor, e me inspirou amor?... para que me fez chorar arrependida do meu passado!... para que me levou a sonhar com o impossível?...
ADRIANO – Mas eu te adoro, Dionísia!
DIONÍSIA – Que amor é o seu? ... amor baixo e vil que me abandona e me condena a ser escrava de outro homem!... isso é amor?... que amor é o seu?
ADRIANO – Queres sabê-lo? é o amor violento e fatal, o amor crime, a paixão raiva! oh! é a pesar meu que te amo... adúltero possesso, eu me prendo a teus pés, demônio de fascinação!... maldigo de ti e te adoro, maldigo deste amor e sou teu escravo!...
DIONÍSIA – Que paixão!... eu porém toda do meu amor quis ser, pedi, peço ainda para ser só tua... só tua... e tu... e o senhor me obriga à mais vil infidelidade; porque me deixa em poder de um falso tio... amante que hoje abomino, e que...
ADRIANO – Ah!... tens razão... é para enlouquecer... mas, Dionísia,eu sou casado...e o dever... as conveniências...
DIONÍSIA – Portanto a minha infâmia e a sua hipocrisia!... não me sujeito a tal abjeção... depois que amei... oh! não me sujeito mais: não me queixo... sou o que sou pelo que fui; é irremediável... mas... sua e de Bráulio... .oh!...não! esqueça-me...farei por esquecê-lo...
ADRIANO – Esquecer-te?... eu?... Dionísia, tu me atordoas, me exasperas e sempre me dominas: eu te peço... dá-me algum tempo...
DIONÍSIA – Algum tempo?... para quem o pede?... para Bráulio... ou para si?...sr. Adriano, não acha que isto é indigno e vil?...
ADRIANO – Em oito dias te livrarei deste inferno... serás minha só...
DIONÍSIA – Oito dias?... que pressa! amada por Bráulio, posso esperar um ano...
ADRIANO – Dionísia!
DIONÍSIA (Voltando-lhe as costas.) – Boa noite.
ADRIANO – Pois bem será como quiseres... quando quiseres... amanhã à hora da sesta de Bráulio receber-me-ás e marcaremos o dia...
DIONÍSIA – Amanhã?... sim...venha; mas com a condição de levar-me depois de amanhã para o teto mais humilde, onde caibamos nós dois... e onde eu seja tua só...
depois de amanhã... veja bem... tua só, meu Adriano... sim?...
ADRIANO – Oh!... perdição!...
DIONÍSIA (Abrindo os braços.) – Sim, meu Adriano?... sim?... tua só?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.