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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Era uma velha casinha, cujas paredes se mostravam carcomidas pelo tempo: entrava-se por uma rótula em péssimo estado; havia ao lado desta, e pela parte direita, uma janela sem vidraças, mas com postigos que se abriam para os lados, e nada mais. Nem mesmo da rua se podia fazer uma justa idéia do pequeno sótão que, como envergonhado, deitava suas janelas para trás, e que apenas assinalava sua existência pela parte anterior, na elevação do telhado enegrecido e limoso, o que ainda mais afeava a antiga casinha, simulando corcova enorme de velha.

Aquela triste e miserável habitação tinha em si um não sei quê de repugnante; e todavia não era maldição, não era escárnio o que o povo votava ao velho casebre; era sim a cruel antítese, que a fazia conhecer por um nome afrontoso.

No entanto, a interessante moça do “Céu cor-de-rosa”, bendizia a existência daquela casinha, e pedia ao céu que jamais se lhe mudasse a moradora: justa razão tinha ela para assim o pedir.

A “Bela Órfã” gostava, e muito, de passar no jardim a sua hora matutina em completa liberdade; e seu jardim podia ser quase todo devassado pelo pequeno sótão da velha casa; mas a janela desse sótão, que podia incomodar a moça, não se abria nunca; e por conseqüência nenhum morador lhe devia ser tão agradável como essa pobre velha, que parecia amar a obscuridade, e tinha as janelas sempre fechadas.

Apesar do muito que pareça mau gosto, a despeito mesmo de que erro se julgue abandonar uma personagem ainda pouco conhecida, para nos irmos ocupar já de outras por sem dúvida baldas do interesse que terá podido merecer a primeira; perderemos de vista, por um momento, a “Bela Órfã”, para travar conhecimento agora com a velha bruxa. Ainda bem que não é pecado, neste caso, desprezar o caminho do “Céu”, a fim de penetrar no interior do “Purgatório”.

Eram oito horas da noite.

A saleta do “Purgatório-trigueiro” estava fracamente alumiada por uma única luz deposta sobre antiga mesa redonda, junto da qual tomavam café e pão a velha Irias e um mancebo de agradável presença, que deveria contar cerca de vinte anos; uma escrava da mesma idade que a primeira, esperava de braços cruzados, e a alguma distância, a terminação da ceia.

Irias era uma mulher setuagenária, alta, magra, de cabelos completamente brancos, de olhos verdes, que deveriam ter sido belíssimos, e que ainda aos setenta anos ela os conservava sempre repletos de fogo e de vivacidade: tinha ainda todos os dentes iguais, alvos e belos; vestia nessa noite um simples vestido de chita escura sem enfeite algum, e escondia os cabelos brancos por debaixo de um lenço de Alcobaça atado à cabeça.

O mancebo era de estatura regular. Tinha cabelos pretos e anelados e a fronte elevada e bela. Seus olhos pardos, que às vezes, por passageiros instantes, se acendiam e dardejavam olhares ardentes, mostravam-se de ordinário desmaiados e amortecidos; por baixo de suas pálpebras inferiores desenhavam-se olheiras roxeadas e filhas talvez da vigília e do estudo; a tez pálida desse mancebo condizia, enfim, perfeitamente, com o parecer melancólico e abatido e com o silêncio obstinado que guardava desde o começo da refeição; estava ele de calças brancas e com um lencinho de seda encarnada ao pescoço, e finalmente vestia um chambre de riscadinho azul abotoado até em cima.

Embora a melancolia devesse ser natural nesse mancebo, é provável que alguma coisa, fora do comum, nele houvesse naquela noite; pois que a velha Irias lhe lançava de relance vistas perscrutadoras e ele cem vezes tinha já estremecido, como por uma horripilação momentânea e súbita.

Terminada a ceia, a velha e o mancebo ergueram-se, rezaram, e tornaram a sentar-se, ao mesmo tempo que a escrava retirou de sobre a mesa o velho serviço.

Uma hora longa e muda passou então para aquele mancebo, que meditava, e para aquela velha, que observava.

O moço tinha deixado cair a cabeça até encostar a barba na mão esquerda, apoiando-se com o cotovelo sobre a mesa: parecia esquecido de si mesmo e só entregue a um profundo cogitar de recônditos pensamentos; pesadas idéias como que se lhe exalavam d’alma, e se lhe iam encrespar em sua fronte elevada, cujas rugas horizontais poderiam dizer-se ondas de um ânimo em tempestade.

A cena de concentração e de silêncio se foi prolongando mais e mais, sem que o mancebo pudesse arrancar-se dos braços de um pensamento em que, talvez a pesar seu, se achava embebido; e sem que também a velha ousasse despertar o moço daquele completo sono da matéria, que deixa a alma livre toda entregue a esse vivíssimo trabalho, que os homens chamam meditação.

O toque de recolher veio despertar o mancebo. O som dos bronzes pareceu tocar dolorosamente sua alma; e ele erguendo-se imediatamente, e sacudindo a cabeça como para espalhar o enxame de tristes idéias, que a pejavam, corou, olhando para Irias, e disse:

– É tarde: boa-noite, minha mãe.

Tomou então uma vela, acendeu-a, e sumiu-se por um corredor estreito e úmido, no fim do qual encontrou a escadinha do sótão, que vagarosamente galgou.

(continua...)

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