Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)
Beatriz (Suspirando) – Sempre pensei que tivesse o atrevimento de me abraçar! Também de que me servia o abraço de um musicozinho das dúzias?... se eu não recuo tão depressa... mas deixemos estas asneiras. Uma ceia!... ainda trabalho... e depois deita-se a gente tarde... perde-se a noite... e isto acontece à Beatriz formosa, por causa de um músico de meia cara!... ora enfim vamos a ver o que se arranja. (Abre a gaveta) Bem... copos cinco, exatamente, e cada qual de sua qualidade: pratos... nove, entrando dois rachados: aqui há de tudo, desde a louça da China, até...
Pantaleão – Olhem lá em que ela se ocupa... dá de língua como deputado!... Velha rezingueira, é assim que cumpre o nosso contrato?... eu te pago meia moeda por mês, fora os caídos, para observares o procedimento da minha súcia de inquilinos, e entretanto um deles está pondo os trastes da porta para fora sem pagar o que legitimamente me deve, e eu nada sei do que se passa!... olha, que te suspendo o ordenado!
Beatriz – E quem é que está fazendo esse desaforo?...
Pantaleão – O locatário do terceiro andar, que acaba de fazer descer as escadas a dois enxergões e uma esteira!...
Beatriz – já sei o seu destino, senhor; os enxergões vão se encher de novo e a esteira, que já está muito velha, mandaram-na atirar à praia.
Pantaleão – Aceito a explicação; mas sustento o que disse: eu quero que não durmas, e que de dia e de noite observes o que se passa na minha propriedade: olha... põe-te alerta principalmente de madrugada: quando eu tinha as minhas duas vendas era de madrugada que eu fazia o melhor negócio com os pretinhos: aquilo, sim! Hoje era um cordão de ouro por meia pataca, amanhã uma colher de prata por quatro vinténs, depois de amanhã um anel de brilhantes por um martelinho de infusão de gengibre, que eu chamava aguardente... oh! Tudo isso sem bulha, sem matinada, e muito honradamente, muito honradamente!...
Beatriz – Senhor Pantaleão, eu cumpre como posso as suas ordens; mas Vossa
Senhoria bem sabe que eu sou também criada do musicozinho...
Pantaleão – Tudo isso mudará, e principiarei hoje por mandar pôr os quartos na rua a esse insuportável arranha-notas...
Beatriz – Olhe, não hei de ser eu que me ponha diante dele para lhe impedir a retirada: pois o insolente não quis ainda há pouco dar-me um abraço?... e se eu não recuo tão depressa...
Pantaleão – Enfim... devo proceder desse modo; pois o que é esse músico?... um habitante de um terceiro andar: somente farroupilhas moram em tais alturas: deverse-ia proibir os terceiros andares... eles só servem para alojar inquilinos que nunca pagam ao senhorio.
Beatriz – Eis aí o que é falar bem: cá eu sempre fui inimiga de canalha.
Pantaleão – Sim... é isso mesmo: essa gente que não tem real de seu é uma verdadeira canalha!... Mas agora deixa-me só, que ouço os passos do meu inquilino farroupilha: anda, vai-te!
Beatriz – Eu sou uma criada sempre pronta a obedecer a Vossa Senhoria por cuja felicidade rezo sempre nas minhas bentas contas! (À parte) é um jagodes muito ordinário; mas é preciso fazer-lhe cortesias, porque dizem que tem dinheiro, como farinha! (A PANTALEÃO) Sou uma criada de Vossa Senhoria Excelentíssima... (Vaise)
CENA IX
Pantaleão e Adriano desesperado
Pantaleão – Usemos do meu direito de proprietário para tratar a este mequetrefe como convém.
Adriano (Atirando com o chapéu, e um rolo de músicas) – Estúpido editor! Falta-me à palavra! Recusa minhas músicas!... é necessário, diz ele, que eu tenha um nome... um nome!... um nome preciso eu para qualificar tão indigno procedimento!... e eu, que calculava com isso. (Sentidamente) obrigado a empenhar o meu relógio... a última lembrança de minha mãe! (põe uma clareza ou papel sobre a mesa) Porém, ele está seguro, e apenas puder tirá-lo do Monte de Socorro...
Pantaleão – Penso que, enfim, o senhor se resolverá a prestar-me dois minutos de atenção!
Adriano – Ah! É Vossa Senhoria, senhor Pantaleão?... perdoe-me, não o tinha visto... chegou muito a propósito...
Pantaleão – A propósito?... então está de maré cheia?...
Adriano – Sim; em maré cheia de tristeza... de angústias... de cólera... de...
Pantaleão – É moeda que não corre em minhas propriedades.
Adriano – Pois vejamos: o que quer o senhor de mim?...
Pantaleão – Duas coisas muito simples: primeira, despedi-lo de inquilino de uma das minhas propriedades; segunda, despedi-lo de mestre de música de minha filha Ifigênia Pantalôa.
Adriano (À parte) – Como via tudo a melhor! Queda!... em cima de queda, coice... em cima de coice... um dardo, que atravesse a esta súcia toda! Estou bonito! Estou mesmo a ver jurar testemunhas!... ( A PANTALEÃO) Suponho que tenho o direito de perguntar-lhe os motivos de duas despedidas tão súbitas, como intempestivas. Pantaleão – Pois não! Eu lhe satisfaço: não me convém que o senhor continue a dar lições de música à minha filha, porque vejo que ela nenhum progresso faz; gasto em sua educação seiscentos mil réis por ano, e isto dura já há dez anos, o que perfaz a quantia de seis contos de réis, que com juros compostos, iam muito longe, e minha filha se vai tornando muito cara!
Adriano – E
tenho eu a culpa de que Dona Ifigênia não tenha disposições para a música?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O Primo da Califórnia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16670 . Acesso em: 6 jan. 2026.