Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
- É possível... provável... quase certo...
- Ah!... tu te mostras a eles, Inês?...
- Eu?... que aleive me levanta!... que pecados me quer pôr em cima do coração inocente!... estávirado em rabugento padre confessor...
- Mas então como é que os perversos te vêem o rosto, e...
- Ah!... é o vento...
- A que vem aqui o vento?...
- Vem como o único pecador; o vento às vezes levanta o véu que esconde o rosto, desarranja amantilha que esconde as formas do corpo.
- Inês, tu te confessas vaidosa; o vento é a tua vaidade.
A mameluca pechou pelos cabelos do senhor e disse-lhe:
- Que velho impertinente!... suponhamos que assim seja: então a gente há de ser bonita e vivere morrer sem amigo vento que levantando-lhe o véu e desarranjando-lhe a mantilha dê testemunho da sua boniteza?...
- Ah! portanto gostas de algum daqueles fidalgos libertinos, sedutores malvados...
- Não, não! eu gosto somente de que eles e todos me achem bonita.
- Inês!
- Tal e qual; não nego, nem dissimulo.
- E eu?... eu te acho bonita, Inês?
- Sim! sim! e muito! e a escrava beijou docemente a fronte de seu senhor.
Aleixo Manoel estremeceu todo, e disse:
- Inês! tu és filha de índia, e minha escrava: aqueles fidalgos desmoralizados, embora elegantesmancebos e fingidos namorados, só pensam em seduzir-te e lançar-te depois no desprezo da ignomínia...
- Também eu desconfio disso...
- Ah! pois bem: Inês, tu precisas de protetor legítimo...
- E não o tenho já?
- Falta-lhe condição essencial!
- Qual é?... eu ainda não senti a falta.
- Inês, queres passar e subir de minha escrava à minha legítima esposa?..,.
A dominante e leviana mameluca desatou a rir.
- De que te ris, doida?
- De três tolices na sua proposta: primeira, a escrava, que é senhora, passar a senhora escrava;- segunda, uma menina casar com um velho; - terceira, filha da segunda, por ser menina casada com velho usar dois véus em lugar de um e de duas mantilhas em vez de uma.
- E se a escrava que é senhora se tornasse ainda mais soberana, sendo esposa?...
- Não é muito seguro.
- E se o velho esposo fosse a proteção salvadora e o amor mais extremoso?...
- Isso eu creio.
- E se perfeitamente confiado na virtude da esposa o velho esposo só lhe impusesse véu emantilha quando ela saísse à rua?...
- Oh! duvido!...
Aleixo Manoel pôs-se em pé, voltou-se para a mameluca, e, vendo-lhe nos lábios zombeteiro riso, disse-lhe triste:
- Apesar do meu amor e da minha proteção, tu és filha da índia e escrava: pensa!
- E, tendo ajustado a cabeleira, saiu.
Inês foi passear no jardim.
Gil Eanes e logo depois Lopo de Melo, que eram os mais assíduos, passaram e tornaram a passar por junto da cerca do jardim, olharam e sorriram para Inês, que não os olhou nem lhes sorriu.
Gil Eanes, demorando os passos, disse-lhe:
- Linda tamoia, se queres ser minha catecúmena, eu te ensinarei a cultivar as flores em liçõesde amor: queres?...
Lopo de Melo passou pouco depois e disse-lhe:
- Bela selvagem, resolve-te a fugir comigo para as florestas que eu juro tornar-me selvagemtambém.
A mameluca fingiu não os ter ouvido, como fingira não tê-los visto. Era a primeira vez que eles lhe falavam.
Inês sentiu o desprezo da sua condição no modo por que lhe falaram os dois fidalgos que a namoravam.
E lembrou-se que Aleixo Manoel tinha acabado de dizer-lhe: - pensa.
E sem o pensar Inês pensou.
Nos seguintes dias quem mais cismava não era Aleixo Manoel, era Inês.
Quase logo famílias da amizade do cirurgião principiaram a visitá-lo a miúdo, vindo cear com ele, e, enquanto os homens conversavam com Aleixo Manoel, as senhoras, em círculo separado, tinham sempre a contar casos escandalosos de seduções e de raptos de meninas pobres, vítimas de Gil Eanes, de Lopo de Melo e de seus companheiros de libertinagem.
Inês escutava essas histórias sinistras, fingindo-se indiferente a elas, se bem que às vezes dissimulada sorrisse, adivinhando a encomenda, não menos se sentia impressionada.
Gil Eanes e Lopo de Melo fizeram mais e melhor do que as comadres de Aleixo Manoel.
Gil Eanes mandou propor a Inês que em noite aprazada fugisse da casa do cirurgião para doce retiro, onde ele lhe assegurava, além do. seu amor, felicidade e riqueza. Lopo de Melo mandou oferecer-lhe a liberdade por dinheiro, prestando-se ela a ficar para sempre sob sua amorosa proteção.
Inês repeliu as proposições; mas desde que lhas trouxeram, deixou de cismar, voltou ao seu natural caráter alegre e travesso, e ainda mais faceira se mostrou.
E por isso ou por alguma outra razão Aleixo Manoel pôs-se de cabeleira nova.
Entretanto ele não perdia de vista os libertinos rondantes do Desvio do Mar.
Cirurgião caridoso e com numerosa clínica gratuita, Aleixo Manoel tinha corações agradecidos entre a gente pobre e desgraçada de quem era benfeitor.
Uma noite veio um embuçado falar-lhe: entrou meio atarantado e descobriu o rosto.
- Oh! és tu João de Pina?... temos história?...
João de Pina era um degradado, vadio e desordeiro valentão, que muitas vezes servia a Gil Eanes em suas empresas mais arriscadas.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.