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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Leonina (Sentada e muito triste).



Marceneiro! Marceneiro! Como vão zombar de mim aquelas que não valem tanto como eu! Hão de fazer-me em cem pedaços com o serrote de meu tio marceneiro! Dona Luizinha, que tem olhos cor de vinagre, vingar-se-á de meus belos olhos pretos, repetindo: — marceneiro! — Dona Jesuína, que tem mãos de calafate; Dona Sofia, que tem dentes de tubarão; Dona Leocádia, que tem cintura de abade velho, vingar-se-ão de minhas mãos de princesa, de meus dentes de pérolas, de minha cintura de fada, contando a todos que sou sobrinha de um marceneiro!Oh! é horrível! Quando eu supunha que mais cedo ou mais tarde viria a ser condessa ou pelo menos baronesa...é abominável! (Silêncio) marceneiro!...(Chora) marceneiro!...(Desesperada) marceneiro!...(Ouve-se o rodar de uma carruagem). Oh! um carro que pára! Se forem senhoras, não devem suspeitar que eu padeço; (Enxuga os olhos e arranja os cabelos) folgariam com isso...Oh! Coração, esconde as tuas mágoas! Olhos, brilhai! Boca, sorri! Rosto, expande-te! E agora podem chegar, venham todas, porque eu tenho consciência de que sou formosa.



CENA VII

Leonina, Hortênsia, Maurício, e logo depois Fabiana, Filipa e Frederico.

Maurício — Então, que te dizia eu?...aí está a Dona Fabiana rompendo a marcha.

Hortênsia — Leonina, Dona Fabiana e sua filha vêm subindo a escada.

Leonina — Que horrível massada!...(Indo à porta) Chegue Dona Fabiana; chegue Dona Filipa; conheci-as logo pelas pisadas.

Frederico (Dentro) — De ora avante usarei de sapatinhos de cetim para ver se um dia mereço igual felicidade.

Leonina — Não faça tal: Vossa Senhoria mesmo sem sapatos de cetim já se confunde bastante com as senhoras. (Entram os três, cumprimentos, etc).

Frederico (À parte) — Decididamente recebi um cumprimento de mau gosto, ou então um epigrama ferino.

Hortênsia — Como passou de ontem, Dona Fabiana?

Fabiana — Sofri um pouco dos nervos: mas nem por isso quis faltar à minha palavra.

Maurício — É uma fineza de mais que temos de agradecer a Vossa Excelência, mas...creio que sobem às escadas.

Frederico — Quem será?...(A Leonina) — Vossa Excelência não adivinha pelas pisadas?

Leonina — Nem sempre: Dona Fabiana, Dona Filipa, e Vossa Senhoria já aqui se acham.

Frederico — Hei de fazer certa experiência, vindo aqui uma noite sozinho.

Leonina — Dar-nos-á ainda assim muito prazer; mas olhe que se expõe a ser confundido.

Frederico (À parte) — Foi epigrama; reconheço-o pela segunda edição.


CENA VIII

Os precedentes, Reinaldo e Lúcia, cumprimentos, etc.

Leonina e Hortênsia — Oh! Dona Lúcia! Senhor Coronel!

Maurício — Como vamos, meu caro senhor coronel?...não há que perguntar, sempre remoçando...

Reinaldo (Olhando para Leonina) — Passei o resto da noite cheio de saudades e um dia inteiro anelante de esperanças...

Leonina (Á parte) — Aquilo é comigo. (A Reinaldo). Não precisa dizer mais: o teatro italiano faz-lhe saudades no fim das óperas, e acende-lhe esperanças com os cartazes. Vossa Excelência, creio eu, traz sempre um cartaz no coração!

Reinaldo — Minha senhora, dou-lhe minha palavra de honra que não sei o que se cantou ontem no teatro italiano.

Lúcia — Dona Leonina, meu paizinho levou hoje o dia inteiro a falar no seu fichu à Marie-Antoinette.

Reinaldo — E o seu balão, Excelentíssima! O seu balão é capaz de levar a gente às nuvens!

Leonina (A Filipa) — Você já viu homem mais tolo?...

Filipa (A Leonina) — Homem não, porém mulher, já vi.

Leonina (A Filipa) — Quem é?

Filipa (A Leonina) — A filha, que tem tanto de feia como de desfrutável. ( A Lúcia)

Dona Lúcia, você é adorável!

Lúcia — Por que diz isso?...

Frederico — Perdão; mas é a nós os homens que pertence dizer esse porquê, visto que somos nós os que o sentimos melhor e mais profundamente.

Reinaldo (Que conversava com Maurício) — É possível!...o meu amigo Anastácio?

O bom velho que me dava confeitos, quando eu era cadete?

Hortênsia — É verdade, depois de dezoito anos de ausência, chegou-nos hoje de

Minas o padrinho de Leonina, o meu cunhado Anastácio. (Cumprimentos).

Reinaldo — Ditoso padrinho de tão formosa afilhada! O meu velho amigo!...Minha senhora, amanhã virei pedir-lhe de jantar ...quero jantar com o meu amigo Anastácio.

Hortênsia — Mas Vossa Excelência esquece que o comendador Pereira convidounos para passar o dia de amanhã no Jardim Botânico; convenha pois em que todos, que nos achamos presentes, jantemos juntos depois de amanhã para fazer uma saúde ao meu excelente cunhado.

Pereira (Dentro) — Com a devida vênia!...

Maurício (Indo recebê-lo) — Oh! senhor comendador!


CENA IX

Os precedentes e o Comendador Pereira.

Hortênsia — Senhor comendador, Vossa Excelência gosta demasiadamente de se fazer desejar!

Pereira — Não é isso, minha senhora, não é isso; é que eu venho desesperado...furioso...

Maurício — Então que há?

Pereira — Um atentado que revolta as leis da natureza! (Levantam-se todos).

Reinaldo — Diga depressa, senhor comendador: Vossa Excelência está expondo as senhoras aos ataques nervosos.

Pereira — O mundo está perdido!...

Lúcia — É algum novo cometa, senhor comendador?

Frederico — Qual, minha senhora, os cometas abundam tanto, que já não assustam a pessoa alguma.

(continua...)

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