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#Comédias#Literatura Brasileira

Antonica da Silva

Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)

BENJAMIM (Fingindo terror) – Senhor almotacel, tudo quanto quiser, mas não me leve para o cemitério! sou sua noiva, sim!... amo-o... mas tenho medo do cemitério... não me leve... amo-o! quer que lhe dê um beijo?... (Beija a face de Inês) por quem é não me leve! quer outro beijo? (Beija-a) outro? (Beija-a) amo-o! (De joelhos e beijando-lhe as mãos) adoro-o! sou seu escravo... seu escravo!... quero dizer, sua escrava.

JOANA (Saindo de baixo da cama, e pondo a cabeça de fora) – Inês, ela é homem!...

INÊS (Afastando-se confundida) – Oh!...


Cena XIV

Benjamim, Inês, Joana e Brites, que entra.


JOANA – O senhor não é capaz de negar que é varão do sexo masculino.

BENJAMIM (À parte) – Como hei de negá-lo depois que ela fez o descobrimento da América (A Joana) sim senhora, confesso que sou homem... mas inofensivo.

INÊS (À parte) – Agora não posso mais olhar para ele...

JOANA – Mas o senhor abusou... devia ter-nos dito!

BENJAMIM – Foi o Sr. Peres que me ordenou segredo absoluto...

BRITES (À parte) – De que escapei!...

JOANA (À parte) – Coitado do meu Peres!... que aleive lhe levantei... (Alto) Pois bem: como foi ordem do meu homem, conserve o segredo seu e dele; mas guarde também o nosso: o das loucuras desta noite; o senhor não é do sexo masculino... para nós.

BENJAMIM – Não sou, não; eu sou Antonica da Silva para as senhoras... podemos viver santamente na comunidade do nosso sexo (Batem à porta)

JOANA – É Peres que chega. Ele deve ficar pensando que já estamos todas dormindo. Não se esqueça de apagar a luz... venham, meninas (Batem).

BENJAMIM – Sou muito esquecida... é melhor já (Apaga a luz).

JOANA – Andem... Andem...

BENJAMIM (De joelhos beija a mão de Inês, quando ela passa, vão-se Joana, Inês e Brites) – Juro pelos frades franciscanos que não quero mais ser frade (Ergue-se e vai às apalpadelas para a cama).


FIM DO PRIMEIRO ATO


ATO SEGUNDO


Á esquerda, varanda de colunas, tendo no meio cancela de grades e escada para o jardim e pomar que se estende para o fundo, e para a direita; ao fundo e à direita, portão largo, à frente espaço livre e pequenos bancos de pau.


Cena primeira

Peres e Mendes, que descem a escada.


PERES – Como estão mudados os tempos! o provincial dos franciscanos fora do convento ainda depois da meia-noite!...

MENDES – Ajudando a bem morrer uma pobre agonizante cumpria o seu dever.

PERES – Aposto que ajudava a mal viver a alguma pecadora de predileção...

MENDES – Estás até maldizente, compadre!

PERES – Pois se nem posso ir para a cidade! tinha de fazer uma remessa de açúcar para Lisboa, e dinheiro a receber hoje.

MENDES – Dá cá tabaco (Tomam). Vamos para a cidade...

PERES – Deixando aqui a mecha ao pé do paiol da pólvora como tu dissestes. Não vou.

MENDES – A comadre sabe olhar para as filhas, e tu estarás de volta ao meio-dia...

PERES – Acreditando que o Benjamim é Antonica, tua comadre pode descuidar-se, e a Antonica declarar-se Benjamim a Inês ou Brites. Não vou. (Um criado traz uma carta; Peres abre e lê) E do provincial!... (A um aceno, vai-se o criado) Daqui a uma hora Fr.

Antão e dois leigos vêm receber o rapaz.

MENDES – Estás enfim livre da Antonica da Silva.

PERES (Triste) – Livre... do filho de Jerônimo! compadre, vamos para a cidade...

MENDES – Não: agora deves ficar em casa... Fr. Antão vem...

PERES – Não quero ver sair, como expulso... devo estar fora... Escreverei a Jerônimo dizendo que em minha ausência e contra os meus desígnios...

MENDES – Hipocrisia e mentira... compadre?

PERES – Antes dez filhos do que uma filha!... e então duas!...

MENDES – Que serviços deves ao teu amigo Jerônimo?...

PERES – Muitos; mas um! olha: éramos soldados do mesmo corpo e da mesma companhia na África; em um combate eu ia talvez ser morto por um golpe de lança... Jerônimo atirou-se adiante de mim... recebeu a lançada no peito... e caiu... esteve a morrer dois meses, e escapou por milagre. (Comovido) Toma tabaco, compadre!

MENDES – Não quero! é tabaco de homem ingrato.

PERES – Velho rabugento, que querias que eu fizesse?...

MENDES – Ontem devias ter dito tudo, tin tin por tin tin à comadre.

PERES – E as meninas?... e o Benjamim? isto é, ele com elas? ...

MENDES – As meninas também deviam ficar sabendo toda a história do passado e do presente...

PERES – E para coroar a obra eu mandaria minhas filhas brincar o vai-te esconder com o Benjamim...

MENDES – Não; mas dirias ao filho de Jerônimo: eis aí, minhas duas filhas, escolhe uma para tua noiva.

PERES – Compadre, tu falas sério?...

MENDES – Eu falo sempre sério. Agora que te dei a lição, dá cá tabaco (Tomam).

PERES – Não desejo... não quero que minhas filhas se casem.

MENDES – Que é? pensas mesmo que consentirei em que pelo menos minha afilhada sofra os martírios de solteirona?... estás muito enganado! hei de casá-la e bem a gosto seu... eu já lho disse, ouviste?...

PERES – Começas a aborrecer-me! vamos para a cidade.

MENDES – Não deves ir!

PERES – Hei de ir...

MENDES – Estás com remorsos!

PERES – Olha: farei por Benjamim o que faria por meu filho. Adoto-o; mas aqui com as meninas, não. (A escada) Joana, desce! (A Mendes) Vou preveni-la da vinda de Fr. Antão, mas sem esclarecê-la sobre o fim que o traz aqui. Darei instruções em regra...

(continua...)

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