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#Dramas#Literatura Brasileira

Amor e Pátria

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Leonídia – Sê prudente, meu amigo; convém que não transpire este segredo; eu vou imediatamente falar à minha prima, e conto desfazer toda esta intriga. Deus há de ser por nós..Promete-me ficar sossegado...

Plácido – Sim...sim...vai...e sobretudo, e antes de tudo, traze-me o nome do infame caluniador.

Leonídia – Hei de trazer-te a alegria, mas não me lembrarei da vingança. (Vai-se)

CENA VIII

Plácido e logo Velasco

Plácido – Que abominável trama! Quem será o infame denunciante? (Lendo) “...Um ingrato que me deve tudo” Meu deus! Diz-me a consciência que tenho estendido a mão e socorrido a muitos infelizes... Qual seria então dentre esses o que assim me calunia, e me faz passar pó inimigo de um Príncipe heróico e do país abençoado, que me deu felicidade e riqueza! Por inimigo da causa do Brasil, do Brasil, que é a pátria querida de minha mulher e de minha filha!... e é, em tal circunstância, que nem Luciano me aparece? Oh! nem tenho um amigo a meu lado!

Velasco – É porque não quer voltar os olhos, senhor Plácido.

Plácido – Velasco...senhor Velasco...

Velasco – Velasco, dizia bem; pode tratar-me como um filho, pois que tem sido meu pai.

Plácido – Obrigado.

Velasco – Chamava um amigo seguro: eis-me aqui.

Plácido – Mas...

Velasco – Senhor, não procuro arrebatar-lhe um segredo; sei que um negro pesar atormenta o seu coração, e que um desejo ardente se agita no seu espírito. Plácido – Como?...que quer dizer?

Velasco – O pesar nasceu de uma denúncia caluniosa e malvada: o desejo é de saber o nome do miserável denunciante.

Plácido – É isso, é isso mesmo: quero saber esse nome...diga e ...

Velasco – Vou dizê-lo, senhor; antes, porém, é força que eu traga à sua memória os benefícios que lhe devo.

Plácido – Perderá assim um tempo muito precioso: diga-me o nome do meu denunciante.

Velasco – Ouça primeiro, senhor: cheguei, há três anos, da ilha do Faial, minha pátria, e desembarcando nas parias do Rio de Janeiro, achei-me só, sem pão, sem protetor, sem amparo; mas o senhor Plácido condoeu-se de mim, recebeu-me em sua casa, fez-me seu caixeiro, deu-me a sua mesa, deu-me o teto que me abrigou, e enfim abriu-me o caminho da fortuna: já estabelecido há um ano, chegarei um dia a ser talvez um rico negociante, graças unicamente ao seu patrocínio. A meus pais devi acidentalmente a vida; ao senhor Plácido devo tudo, tudo absolutamente, e portanto, é vossa mercê para mim ainda mais do que são meus pais.

Plácido – Senhor, antes dos pais, Deus, e a pátria somente; mas a que vem essa história?...

Velasco – Repeti-a para perguntar-lhe agora se um homem que lhe deve tanto poderia procurar enganá-lo?

Plácido – Senhor Velasco, nunca duvidei da sua honra, nem da sua palavra.

Velasco – E se eu, pronunciando agora o nome do seu denunciante, quebrar uma das fibras mais delicadas do seu coração? Se...

Plácido – Embora...eu devo, eu quero saber esse nome...

Velasco – Pois bem: o seu denunciante...foi...

Plácido – Acabe...

Velasco – O senhor Luciano.

Plácido – Mente!

Velasco – Senhor Plácido!...

Plácido – Perdoe-me...fui precipitado; mas Luciano...não...não é possível!

Velasco – E no entanto foi ele!

Plácido – Está enganado: Luciano é a honra...

Velasco – Tenho um patrício empregado na polícia, e dele recebi esta confidência: vi a denúncia escrita pela letra do senhor Luciano.

Plácido – Meu Deus! É incrível! (Reflete) Não... Luciano não pode ser; o noivo de minha filha...o meu filho adotivo...o meu...não, não: é falso.

Velasco – Cumpri o meu dever; o mais não pe da minha conta; rogo-lhe somente que não comprometa o meu amigo, que perderia o seu emprego se descobrisse que...

Plácido – Pode sossegar...não o comprometerei; mas Luciano!... com que fim cometeria ele uma ação tão indigna?

Velasco – Senhor Plácido, a sua pergunta não é difícil de ser satisfeita: o senhor Luciano há dois dias que não deixa a casa do ministro José Bonifácio: uma deportação pronta e imediata precipitaria o casamento desde tanto por ele suspirado, e ao mesmo tempo deixaria em suas mãos a riqueza imensa do deportado, ficando o segredo da traição oculto nas sombras da polícia.

Plácido – Quem poderia acreditá-lo!... Mas... realmente todas as presunções o condenam: há pouco ele tremeu e confundiu-se, ouvindo Prudêncio dizer que o tinha visto ontem entrar duas vezes na casa do ministro: a carta da mulher do intendente diz que o denunciante é um ingrato, que tudo me deve, que eu acolhi em meu seio, é de quem tenho sido o constante protetor... Oh! miséria da humanidade!...oh! infâmia sem igual! Foi ele! O caluniador, o infame; o denunciante foi Luciano!

Velasco – Ainda bem que a verdade brilha a seus olhos; mas... não se exaspere: a inocência triunfará e o crime deve ser condenado ao desprezo.

(continua...)

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